6º Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

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O Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta é uma realidade no calendário pagão nacional. Quando ele foi iniciado, seis anos atrás, muitas pessoas tinham dúvidas; algo natural, pois não apenas era um evento voltado para apenas um dos ramos do paganismo presentes no Brasil, esse é um dos ramos mais multifacetados. Diversas escolas de pensamento druídico presentes no Brasil, com diferentes tipos de crenças e estruturas, e além do ramo reconstrucionista que, apesar de aparentado, não se identifica diretamente com nenhuma delas; linhas de pensamento diversas que nem sempre tiveram uma convivência muito harmônica. Era fácil pensar que não funcionaria. E com o sexto Encontro acontecendo, acredito que não há mais nenhuma dúvida: ele é sim é uma realidade, e um evento riquíssimo do ponto de vista de aprendizado e integração.

O sexto evento ocorreu em Curitiba, entre os dias 04 a 07 de junho de 2015, e foi memorável. Ao completar o seu segundo ciclo de três anos, o evento retornou às mãos de seus organizadores originais (hoje da Clareira Coré-Tyba), que assumiram a responsabilidade de levar o evento a um novo nível (após uma edição absolutamente perfeita ocorrida em Recife no ano anterior). Podemos dizer que o seu objetivo foi plenamente atingido: a começar pelo local escolhido, a Chácara Aizen se mostrou um dos lugares mais confortáveis que já abrigou o Encontro. De uma beleza enorme, com muitos caminhos pelas matas, alojamentos excelentes, boa comida e boas instalações, o lugar atendeu perfeitamente à nossas expectativas. Não havia sinal de celular no local, mas essa é uma tradição do EBDRC, e nenhum de nós, devotos de espiritualidades animistas, se incomodou com isso. A presença do maior público de um EBDRC fora de São Paulo também foi uma grata surpresa; entre velhos e novos amigos, tudo prometia um belo evento.

Ele se iniciou oficialmente após o almoço do dia 04, com a maioria dos convidados já instalada; José Paulo Gaesum e seus companheiros conduziram uma bela cerimônia de abertura para o evento, onde todos nós depositamos uma pequena pedra ao centro, formando o nosso dólmen pessoal para esses quatro dias. Todos fizeram um juramento solene de manutenção da paz ao longo do evento, e ele foi mantido ao nosso melhor pelos druidas, druidistas e reconstrucionistas brasileiros. Quando entramos no EBDRC, entramos em um acordo de estarmos ali para aprender e respeitar (além, é claro, de confraternizar e nos divertir), e esse é um dos aspectos que tem mantido o evento até hoje. Com isso iniciamos o evento com workshops simultâneos de Marcela Badolatto (ADF, São Paulo), Inguz Itapaiê (Caer Ynis, Florianópolis) e Rafael Corr (Clareira Coré-Tyba, Curitiba); como era necessário escolher um dos workshops, eu (Wallace) resolvi assistir o de Inguz (sobre como construir e consagrar uma fogueira) e, como era esperado, ele foi maravilhoso, uma aula de como construir uma fogueira não apenas funcional, mas também respeitando a força espiritual do fogo. Não assisti os outros workshops, mas ao longe era possível ouvir o Rafael tentando iniciar as pessoas na arte da flauta irlandesa tin whistle; os sons que saíam das whistles freneticamente sopradas ficavam melhores ao longo do tempo. Sobre o workshop de Marcela eu apenas pude ver o material apresentado pelos presentes depois, e é notável que ficaram muito bons, mostrando que foi mais uma atividade excelente.

Após um rápido coffee break, foram iniciadas as palestras; a primeira veio com Ana Elisa Bantel, do Fine na Dairbre Protogrove ADF, que veio de Florianópolis e nos apresentou uma palestra sugerindo como criar uma roda do ano usando os oito festivais tradicionais e elementos da cultura galaica. Foi uma palestra bastante instrutiva, diferente do estilo tradicional utilizado pela Ana, mas ainda de alta qualidade. A seguir veio Marcos Reis (Caer Tabebuya, Floresta de Manannán, Clann an Samaúma, São Paulo) falando sobre as características do xamanismo dentro do Druidismo; uma bela palestra e bem fundamentada, que ajudou a esclarecer alguns ‘mitos’ sobre a questão Druídico/Xamanista, ainda que também tenha sido diferente daquilo que é o normal do Marcos (que prefere atividades mais práticas e vivências). Após o jantar veio um momento histórico: o primeiro Eisteddfod nacional do Druidismo brasileiro. Ainda que seja uma prática comum entre diversos grupos, essa foi a primeira vez que um Eisteddfod nacional, com diversos grupos foi organizado. E se esse foi o primeiro, que venham muitos mais: Josef Benes (Floresta de Manannán, Piraju/SP) iniciou tudo com uma belíssima versão para o Duan Amhairgine (junto com Marcos Reis) e todos os competidores mantiveram o nível no alto, seja com a Juliana Couto (Ramo de Carvalho, São Paulo), Sheilla Pereira Sabbag Uberti (Caer Itaobi, São Paulo) e Marcos Reis recitando contos com maestria, ou instrumentistas exímios como Nayane Teixeira Spigotti (Ramo de Carvalho e Floresta de Manannán, São Caetano do Sul) com sua Viela de Roda e Leandro Domingos Dias Brogilogenos (Clareira Coré-Tyba) com sua flauta. Foi uma disputa de tão alto nível que não foi possível escolher um vencedor; portanto a sua coroa de folhas de carvalho, a benção trazida pela Paty Feltrim (Colegiado Druídico Deru Lug, Salto/SP) e a garrafa de vinho foi dividida entre eles. Que essa tradição se perpetue.

O sábado se iniciou com um Rito Matinal de Agradecimento aos Deuses, conduzido por Carlos Navas (Colegiado Druídico Deru Lug, Salto/SP); eu não estive presente nesse momento, mas o rito foi bastante elogiado por todos e os presságios foram bons. Após o café da manhã também foi instalada a Feira Céltica, com belíssimas peças trazidas pela Cristais e Dragões, Crín Dana, Mac Tíre Artes, Toca do Lobo, Círculo das Fadas, Serendipidy, Vairë Dream Weaver, Artesania Oliveiras e Paty Poupées. Uma bela feira, cheia de belíssimos artigos. Também foi uma manhã de batalhas, pois um torneio com espadas de treino ocorria do lado de fora; as espadas e lanças eram buffers típicos de grupos de combate medieval, mas com lutadores do nível de João Eduardo Schleich Uberti (Caer Itaobi), Kleber Ribeiro (Ramo de Carvalho, Floresta de Manannán e Mac Tíre Artes), Beansidhe Iohobadb (Ramo de Carvalho, Floresta de Manannán, Toca do Lobo e Clann na IúrJosé Paulo Gaesum (Clareira Coré-Tyba) e Juliana Meira (Clareira Coré-Tyba), qualquer luta se torna uma aula. Também merece destaque as presenças de Josef Benes (Floresta de Manannán), Baba Sivakalyananda Natha Tirtha, Paula Teresa e Tati Giordano, todos muito empolgados e que lutaram muito bem.

As palestras foram iniciadas após o almoço, com Marina Holderbaum (Fine na Dairbre, Curitiba) falando sobre o vale do Boyne, na Irlanda; Marina, como sempre, demonstrou sua altíssima erudição ao falar sobre aspectos históricos, mitológicos e arqueológicos, e contou com a grande ajuda (pois estava com problemas na garganta) de Alessio Ferreti Jr. (também do Fine na Dairbre), tanto para a palestra quanto para a vivência, que também contou com a presença de Marcos Reis (Caer Tabebuya, Floresta de Manannán, Clann am Samaúma) como auxiliador, uma mostra de que é possível até mesmo para as visões mais diversas da espiritualidade céltica conviverem e colaborarem umas com as outras. Rafael Corr veio a seguir, falando sobre a visão romântica que a maioria das pessoas tem sobre as fadas em contraponto à visão assustadora que o folclore céltico nos traz; uma palestra que gerou muitas reações, mas muito competente, que ajudou a mudar muitos dos conceitos que algumas pessoas poderiam ter. Após o coffee break veio aquela que talvez tenha sido a melhor palestra de todo o evento (na opinião do Wally): João Eduardo Schleich Uberti (Caer Itaobi, São Paulo) falou sobre os elementos místicos dentro do Druidismo, coletando diversos aspectos que poderiam parecer desconectados dentro da tradição, e os colocando em perspectiva, sugerindo uma possível “estrutura” que liga a todos eles. João é um homem de inteligência rara (todos que o conhecem sabem disso), e sua palestra beirou o fantástico. Marcela Badolatto (ADF, São Paulo) veio a seguir, com um workshop sobre  uso divinatório do Ogham; Marcela é uma oraculista muito experiente e bem versada nos caminhos do Ogham, e apresentou ao público três ótimos métodos de utilização divinatória para ele, com direito ao público testar essa prática após a parte teórica. Outro workshop de sucesso. O dia terminou com a tradicional Assembleia da Fogueira Sagrada; esse é um momento solene presente em todos os encontros, quando unimos as cinzas das fogueiras de todos os eventos anteriores às chamas acesas no encontro corrente. É o momento em que conversamos como comunidade, e tomamos decisões importantes, como o local de realização do próximo encontro. Como sempre, falamos muito sobre o Conselho (que ainda está se estruturando, mas ganhando força), e foi decidido que o próximo EBDRC será realizado na região norte, em Belém, sendo organizado por Mayra Faro (Clann am Samaúma). Foi uma decisão justa, pois o encontro deve contemplar a todas as regiões do Brasil, e Mayra tem estado conosco desde o segundo; era o momento de deixa-la organizar o próximo evento. Ao final da assembleia, Jefferson Matthes (Ordem Walonom, Porto Alegre) guiou alguns dos presentes para uma vivência para a Lua Cheia em uma clareira no final de uma das trilhas, enquanto Cecília Loés (Ordem Vozes do Bosque Sagrado, Brasília) coordenava um workshop sobre o uso do scrying (semelhante ao realizado no IV EBDRC, em Cotia/SP).

O sábado se iniciou em alto nível com a palestra de Bellouesus Isarnos (Porto Alegre), talvez o mais respeitado Druida do território nacional. Falando sobre a tradição druídica bretã e sobre a obra de Theodore Hersart de Villemarqué (particularmente as chamadas Séries), uma vez mais Bellouesus destilou erudição sobre um tema que é conhecido por poucos no Brasil; como é comum acontecer em suas palestras (pois a quantidade de informação é gigantesca), ela não foi encerrada naquela hora, mas seria retomada posteriormente. Após o almoço foi a vez desse cão que vos late (Wallace Cunobelinos, do Ramo de Carvalho, São Paulo) falar um pouco sobre técnicas de cântico harmônico a serem utilizadas no Druidismo; infelizmente o tempo não foi o bastante para expor todos os exercícios previstos, mas a ideia principal foi passada. Cecília Loés (Vozes do Bosque Sagrado, Brasília) veio a seguir, falando sobre a Teia do Cotidiano; como é tradição dos membros da sua ordem, ela falou sobre vivenciar o Druidismo no dia-a-dia, não apenas em momentos de devoção especial, e a palestra foi bastante elogiada por todos (eu não estava presente). Após mais um coffee break foi a vez de Endovelicon (Ramo de Carvalho, São Paulo) falar sobre o uso das emoções para movimentar os Três Caldeirões do Interior; uma vivência intensa e poderosa para todos, por um Druida experiente e que conhece bem o poder das emoções. Após ele veio Adgnatios (Portugal), falando sobre ética. Após o jantar veio o workshop de Mayra Faro (Clann am Samaúma, Belém), nos ensinando danças tradicionais brasileiras e do mundo céltico; como já é comum nesse tipo de workshop, a dança irlandesa para Fee Ha Húri foi uma verdadeira liberação para todos, poucos momentos atraem tanta integração entre todos os presentes quanto ela. E com o final do workshop já foi engrenada a festa celta, iniciada com uma surpresa ao aniversário do nosso querido João Eduardo Schleich Uberti (e foi difícil conseguir esconder isso dele rs),  e logo depois o som da banda Thunder Kelt; o evento estava se aproximando do final e as pessoas se entregaram às suas conversas, amizades, música, e danças (com direito a uma Strip the Willow improvisada durante o show), e aos rios de hidromel, cervejas, vinhos e a voz da fada verde (também com bebidas não-alcoólicas para os que não bebem). Uma deliciosa festa, um momento de amizades e socialização, que terminou com o ápice da hospitalidade paranaense, a pinhãozada feita na lareira. Dormimos tarde naquela noite alegre.

O evento estava se aproximando do final; mas o domingo ainda reservava atividades, e a primeira delas foi realizada por Jefferson Matthes (Ordem Walonom, Porto Alegre), sobre a criação de rosários de oração baseados na tradição céltica, uma atividade bastante eficiente do ponto de vista mágico e ritualístico, e com um grande potencial para variações. No final todos carregamos os rosários daqueles que nos auxiliaram na criação dos nossos, com a promessa de devolvê-los no próximo encontro, em Belém.  O evento caminhava para o seu final mas, graças a alguns imprevistos, tivemos o cancelamento da atividade de Joanna do Arco Síobhan Sorcha (Tribo da Onça Parda, Jundiaí/SP), mas resolvemos isso com a segunda parte da palestra de Bellouesus Isarnos (que ainda não ficou completa, mas a mensagem foi passada). Após o almoço tivemos a cerimônia de encerramento, onde desfizemos o cairn que foi feito antes, e José Paulo Gaesum dissertou sobre o sucesso do evento; apesar de alguns poucos imprevistos, o seu resultado final não podia ser alterado. Foi ele quem organizou o primeiro EBDRC, e só ele poderia tê-lo feito nesse ano, com tantas vertentes diferentes e tanta maestria. Louvados sejam os nomes dos membros da Clareira Coré-Tyba e Caer Ynis. O evento estava terminado, e todos tomamos nossos caminhos. O evento foi um momento incrível e merece o título de momento mais importante para o Druidismo brasileiro anual. E vamos rumo a Belém!

Fotos gentilmente cedidas pela Clareira Coré-Tyba e por Keven Silva Magalhães

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