Por Endovelicon, Druwids Watis Senisteros 

ATENÇÃO: ESSE ARTIGO É UMA ELUCUBRAÇÃO MODERNA DA DOUTRINA DRUÍDICA. ELE NÃO DEVE SER CONFUNDIDO COM UMA PROFUNDA PESQUISA HISTÓRICA OU TRADICIONAL, MAS SIM ENTENDIDO COMO UM ENTENDIMENTO CONTEMPORÂNEO SOBRE A ALMA DENTRO DA DOUTRINA DRUÍDICA. ENCARE-O DESSA FORMA E O APROVEITARÁ MUITO MAIS.

Série de artigos originalmente postada no blog O Bosque do Javali

Introdução

Começo com um postulado meio polêmico, o da pluralidade da alma – cada indivíduo, incluindo quem lê isto, tem mais de uma alma, todas diferindo em natureza e função, e com destinos diferentes após a morte. Bom, isso não foi invenção minha, várias culturas chegaram a este conceito: possivelmente os Egípcios tem a teoria mais conhecida e complexa (9 almas, o Ka, Ba, Sekhem, Ren, etc) mas os Germânicos, mais perto do universo Celta, também concebiam uma hoste de entidades distintas funcionando harmonicamente para manter a coesão da personalidade humana; de minha parte, eu vou descrever uma divisão de três almas, porque é um número druídico por excelência e porque existem paralelos suficientes com outras triplicidades para justificar essa divisão – já fomos apresentados aos Três Reinos celtas, Céu, Mar e Terra; já examinamos o conceito dos Três Caldeirôes, Ventre, Peito, Cabeça; já falamos das Três Famílias, Deuses, Ancestrais, Espíritos da Natureza; assim sendo, partindo do princípio de buscar analogias neste mundo e no Outro Mundo, vamos prosseguir.
Vamos considerar a alma “superior”, aquela que as teologias chamam de alma propriamente dita, como tendo algo da natureza do Céu, da Cabeça no corpo, e dos Deuses – que imagens esses símbolos evocam? Clareza, transcendência, eternidade: até aí, nada de novo…mas vamos meditar agora na Terra, no Ventre no corpo, e nos Espíritos da Natureza, e o que surge no olho da mente? Algo corpóreo, denso, instintivo, “primitivo”, mas a seu modo tão poderoso e antigo como a alma tradicional, não?
E essas duas almas, tão opostas entre si, duas retas paralelas que nunca se tocam, como podem interagir uma com a outra, diferentes que são? Talvez, quem sabe, um terceiro termo na equação, algo mais sutil que a matéria mas mais denso que o espírito…algo com a natureza do Mar, do Peito no corpo, dos Ancestrais, fluido, móvel, adaptável mas também, diferentemente dos dois anteriores, mais característicamente “humano” e pessoal…conseguem sentir isso em si mesmos?
Então chegamos no ponto de perceber três almas, que poderíamos chamar de Alma Celeste, Alma Telúrica e Alma Oceânica (estou deliberadamente rejeitando termos como superior, média, inferior para evitar preconceitos e juízos de valor: as três são idênticas em status e importância no ser integral, por mais diferentes em natureza e função que sejam), e vamos examinar cada uma com mais detalhes em postagens futuras.

Alma: Telúrica

Começaremos pela Alma Telúrica, porque ela está mais próxima da experiência perceptiva, devido à sua relação particular com o corpo – na verdade, como disse William Blake (que também era Druida), talvez seja melhor considerar o corpo como sendo o aspecto visível da alma, e não como um ente separado da mesma…
Essa alma nasce diretamente do seio daquela força que chamamos, na falta de nome melhor, de Natureza; as substâncias materiais são agregadas e organizadas no seu campo de força, dotadas de energia vital, e o todo apresenta uma consciência própria que se comporta como um animal o faria – tem percepção clara do meio ambiente (na verdade, até mais clara que a nossa, porque o hábito verbal da Alma Oceânica se interpôe entre ela e o objeto da percepção), instintos de autopreservação aperfeiçoados por bilhôes de anos de experiência, e mesmo as proto-emoçôes de apego e aversão para guiar respostas mais complexas que o instinto. Assista uma partida de futebol e verá a Alma Telúrica em ação: cada jogador centrado no seu corpo e nas reações do mesmo, instintivamente apegado aos membros da sua matilha/time, sincronizado com eles em estratégias atávicas de caça à bola, e apenas uma fração da Alma Oceânica para manter o respeito às regras da arbitragem e à tática do técnico. Muita gente dentro das religiões Pagãs tem uma noção mais nítida desse ser animal em seu interior, e erroneamente pensa nele como sendo o seu Totem/Animal de Poder (que é uma entidade externa ao indivíduo, não parte dele – talvez o Totem seja o guardião da Alma Telúrica, seu orientador e protetor dentre os Espíritos da Natureza).
Embora a Alma Telúrica habite o corpo inteiro, seu centro está no ventre, associado ao Caldeirão do Aquecimento (que é o único dos três que já nasce na posição certa, virado para cima, e assim fica totalmente cheio da força vital que o indivíduo vai utilizar em sua vida).
Mas ela não se limita a ações “primitivas”; quem aprendeu a dirigir, escrever, andar de bicicleta, datilografar sem olhar o teclado, na verdade “adestrou” seu animal interno, que agora consegue realizar ações extremamente complexas sem que a mente racional precise pensar nelas — tente escrever à mão e ao mesmo tempo fazer conscientemente cada movimento da caneta, e veja como o resultado é sofrível quando comparado à naturalidade do escrever sem pensar…
Ela está em constante intercâmbio com outras da mesma espécie: entrando numa sala cheia de gente, já nos primeiros segundos a Alma Telúrica identificou aliados, adversários e indiferentes, e é a fonte daquelas simpatias/antipatias à primeira vista, totalmente irracionais e supostamente imotivadas, a que estamos sujeitos. Ela também se comunica com a Alma Oceânica, mas por ser pré-verbal essa comunicação é feita de sensações físicas (arrepios, calor/frio, o famoso frio na barriga) e imagens (devaneios, sonhos), e pelos mesmos meios é possível fazer contato com ela e pedir sua colaboração.
Trate bem dela, cuide para que suas necessidades de segurança, alimento, repouso/exercício, prazeres carnais sejam satisfeitas a contento, tenha para com ela o cuidado e carinho que você dá ao seu cão ou gato, e ela responderá com vigor físico, saúde preservada, instintos seguros e infalíveis para guiá-lo.

Alma: Oceânica

Agora estamos em terreno conhecido (ou quase): quando dizemos “eu” e pomos a mão no peito, é da Alma Oceânica que falamos e é com ela que nosso senso de personalidade se identifica. Nascida da cultura e da família, assimilando-as desde o nascimento biológico, o momento crucial na sua formação é a aquisição da linguagem, lá pelo final do primeiro ano de vida – a partir daí, a percepção clara do meio ambiente que a Alma Telúrica fornecia passa a ser “filtrada” pela linguagem. Você não pode olhar para uma árvore sem que a Alma Oceânica imediatamente diga “árvore!” e a associe a todas as árvores já vistas ao vivo ou imagens delas, ou seja, você abstrai um conceito arbóreo que pouco ou nada tem a ver com a arboridade daquela árvore particular à sua frente.
Dito assim, o dom verbal até parece um defeito – William Burroughs escreveu (e Laurie Anderson cantou) que “a linguagem é um vírus” – mas obviamente o problema está no uso errado desse dom: não será o Druidismo, que tem a casta dos Bardos no centro do seu sacerdócio, que fará uma denúncia do dom que cria obras-primas de música e poesia.
Quando meditamos no silêncio moderado de um bosque fechado, ou no silêncio abissal do espaço profundo, é quase com um choque que o incessante ruído do mar, calmo ou tempestuoso, surge em comparação: esse é o motivo pelo qual eu escolhi chamar esta alma de Oceânica, porque seu estado natural é o do diálogo interior sem fim, entremeado de músicas ouvidas, séries assistidas, conteúdos se sucedendo em marés e ondas…é de se admirar que virtualmente toda disciplina espiritual digna do nome insista na prática da meditação como um meio de quebrar a possessão verbal que acomete a Alma Oceânica e permitir que ela pare para ouvir a voz instintiva da Alma Telúrica ou os sopros da Alma Celeste?
O centro de comando da Alma Oceânica é, como já vimos, o peito, de onde vibra o ar e o som da fala, onde a maioria de nós localiza o eu, e onde está o Caldeirão da Vocação, que nasce virado de lado e, portanto, semi-cheio; é pela vivência e transmutação das emoções, em especial a Alegria e a Tristeza, que esse caldeirão é virado para cima e pode ser preenchido com a força emocional que dá o impulso criativo para a ação no mundo.
Como ela nasce e é alimentada pela cultura humana, são os Ancestrais (que ajudaram a criar essa cultura) os seres que mais se associam a ela: é na personalidade que encontram-se, por vezes, pequenos traços de comportamento que revivem os de algum antepassado próximo ou distante, e muitas vezes um ou mais dos Ancestrais guia a Alma Oceânica durante a vida, mesmo que ela nunca venha a se aperceber disso pela sua surdez intrínseca…
É por essa surdez, típica de quem só quer falar e não ouvir, que na maioria das vezes a Alma Celeste e/ou entidades das Três Famílias transmitem suas mensagens diretamente à Alma Telúrica, que fala pouco mas está sempre de orelha em pé, e que acaba passando o recado à sua irmã tagarela por pressentimentos ou sonhos – mas, se a pessoa pratica meditação e aprendeu a silenciar esse diálogo, o Oceano se torna um lago/espelho, onde as intuições podem ser refletidas clara e conscientemente, e é esse estado um dos objetivos da meditação druídica.

Alma: Celeste

E quanto à Alma Celeste, o que há para falar? Que experiência temos da presença e ação dela em nossas vidas?
Ela é tão impalpável que, das filosofias que a reconhecem, a maioria diz que ela nem mesmo está plenamente encarnada, mas permanece acima da cabeça, visível (para quem pode) como um globo luminoso – aquelas imagens clássicas do Anjo da Guarda que o retratam zelando por crianças, o mostram com uma estrela brilhando acima dele, aludindo a esse aspecto não-corporal desta alma em particular (mesmo que seu centro de ação esteja na cabeça, associado ao Caldeirão da Sabedoria, que nasce virado para baixo e, portanto, vazio).
Já vimos que a Alma Telúrica é ativa desde a vida intrauterina, e que a Alma Oceânica surge plena com a aquisição da linguagem, ambas em constante atividade enquanto houver vida – mas a Alma Celeste permanece silenciosa nos bastidores da consciência durante a maior parte da vida, apenas registrando as experiências de vida do indivíduo; ocasionalmente, e em especial nas situações em que grandes decisões, sobretudo as de ordem ética, devem ser tomadas, ela toca as almas abaixo dela e infunde a intuição de como agir: geralmente só a Alma Telúrica percebe a sua presença e retransmite essa intuição codificada como um pressentimento para a Alma Oceânica, que pode ou não receber a mensagem e agir de acordo. Quem nunca teve esse tipo de pressentimento em situações de crise moral e, subitamente, sentiu como se o tempo parasse para a decisão ser tomada, e só bem depois viu que um grande risco pessoal foi evitado por essa decisão?
É necessário esclarecer que essa “moralidade” da Alma Celeste nem sempre está de acordo com os códigos morais da sociedade, internalizados pela Alma Oceânica durante a sua educação, e às vezes está mesmo em oposição a eles – uma frase de Isaac Asimov, dita por um personagem da série da Fundação, descreve bem essa situação: “nunca deixe o seu senso de moralidade impedir que você faça o que é certo!”
A Família associada a ela é a dos Deuses, e ela própria pode ser considerada como uma divindade “aprendiz”, sendo guiada por um ou mais Deles, esteja a pessoa consciente disso ou não – no caso do indivíduo estar num caminho espiritual e buscar conscientemente o contato divino, a presença dos seus Padroeiros é cada vez mais percebida conscientemente, e é aí que a manifestação da Inspiração ocorre.

Alma: Sono

Tendo analisado as características das três Almas humanas, e esboçado um pouco das relações entre as mesmas, vamos prosseguir examinando uma situação universal, um estado de ser que ocupa um terço do nosso tempo de vida : o sono.
Do ponto de vista da Alma Telúrica, o sono é simultaneamente repouso e trabalho – ao mesmo tempo em que ela baixa a guarda e interrompe a observação constante do meio, ela também se ocupa da restauração fisiológica: ninguém se dá conta do desgaste sofrido pelo organismo durante o dia porque o cortisol, o hormônio diurno, inibe a resposta inflamatória e permite que permaneçamos ativos e funcionais até a hora de dormir (quando o cortisol decresce e nos damos conta de estarmos literalmente “quebrados”); então, durante o sono, o hormônio noturno, o hormônio de crescimento, assume a vez e inicia o reparo dos tecidos inflamados e a depuração das toxinas produzidas, para que, se tudo correr conforme o esperado, o indivíduo acorde pela manhã completamente restaurado e pronto para mais um dia.
Para a Alma Oceânica, o sono é muitas vezes visto como um transtorno indesejado – se dependesse dela, permaneceríamos acordados o tempo todo, empenhados em mil atividades diferentes – mas ela necessita desta parada compulsória para classificar e arquivar o registro de tudo o que fez, pensou, falou e aprendeu na memória profunda (uma das primeiras consequências da privação de sono é a perda da memória de fixação, o indivíduo começa a se aperceber de que esquece facilmente das coisas e não aprende coisas novas direito). O processamento emocional também ocorre à noite, em sonhos/pesadelos emocionalmente carregados, e muitas vezes expressando as emoções reprimidas em vigília de modo camuflado em sonhos simbólicos acessíveis à interpretação em processos psicoterapêuticos.
Para a Alma Celeste, que já está meio fora do corpo, é hora de rever o dia e seus aprendizados, planejar o dia seguinte, e mandar mensagens, que a Alma Telúrica veste em roupagens simbólicas e apresenta à Alma Oceânica nos sonhos – aí se faz necessário discernir quais sonhos são o reflexo do dia passado e quais são mensagens de níveis transcendentes de consciência (dentre esses, os que contém mensagens de fora, dos Deuses, Ancestrais e Espíritos da Natureza).
Assim sendo, qual seria a preparação ideal para o sono? Dar à Alma Telúrica o conforto necessário para o sono restaurador, meditar um pouco para desacelerar o diálogo interior da Alma Oceânica, e rezar para as três Famílias para inspirar a Alma Celeste para que ela oriente todo o planejamento do dia seguinte – experimentem isso por uma ou duas semanas e vejam o que acontece…

Alma: Amor

Outra situação de vida onde podemos analisar a tripla Alma é a dos relacionamentos de amor/amizade.
A Alma Telúrica acredita no amor à primeira vista – como já vimos, ela é capaz de avaliar a sua contraparte nas pessoas que encontra e instantaneamente desenvolver apego ou aversão (a tal da “química”), muitas vezes arrastando consigo as Almas acima dela em situações dramáticas, intensas, e quase sempre efêmeras (parece que há um componente bioquímico envolvido que é programado para deixar de funcionar após alguns anos…); mesmo nas relações de amizade esta afinidade bioenergética tem seu papel, a Alma Telúrica passa a ver o novo amigo como sendo da mesma matilha, por assim dizer, e o encara de modo possessivo e protetor, fundamentada em instintos tribais com milhões de anos de prática.
Para a Alma Oceânica, são os fatores pessoais/culturais que pesam: o amigo/amante o será se tiver gostos, hábitos, preferências similares ou no mínimo compatíveis, e muitas vezes uma preocupação com a “conveniência” ou não daquele relacionamento também terá um papel na decisão de ir em frente com isso ou não – diferentemente da sua parceira instintiva, ela precisa de tempo (e muuuuita conversa…) para avaliar sua contraparte e decidir se ambas combinam ou não.
Em ambos os casos, a Alma Celeste simplesmente olha para baixo e observa o que acontece – por sua própria natureza, as Almas Celestes são todas compatíveis entre si, podem fazer par com qualquer outra e tudo bem – mas lhes interessa, e muito, o que podem aprender com o outro indivíduo e as características das suas Almas Oceânica e Telúrica, e quando encontram aquela combinação de traços de personalidade que pode lhes dar a experiência que buscam, elas sinalizam para as Almas abaixo, que recebem isso como um pressentimento (“é essa pessoa!”).
Mas a questão é que muitas vezes o relacionamento não dura: as Almas Telúricas perdem a química (e então simplesmente desapegam uma da outra, sem ressentimentos), as Almas Oceânicas mudam de gostos e de caminhos (e aí ou se separam amigavelmente, ou acusam uma à outra de “não ser mais a mesma”, ou se apegam por convenção social ou conveniência pessoal – tudo é sempre complicado com elas!), e as Almas Celestes simplesmente agradecem uma à outra pelo plano bem-sucedido e seguem seus caminhos um pouco mais sábias pelo encontro.

Alma: Memória

Outra manifestação humana que vai ser expressa de modo diferente pelas Três Almas é a memória, ou talvez devesse dizer memórias…
A Alma Telúrica tem uma memória poderosa, e não apenas a dos instintos atávicos de milhões de anos, mas a memória das crianças, que aprendem com facilidade qualquer coisa e nunca esquecem – pense nas coisas que você aprendeu na escola e que, mesmo que nunca vá precisar delas, estão fixadas para sempre – uma memória quase automática, especialmente das coisas feitas pela pessoa com as mãos ou a voz, porque a repetição é a chave (e é por isso que crianças querem a mesma história repetida vezes sem fim).
A Alma Oceânica já não tem a mesma facilidade para lembrar, e foi por isso que várias culturas criaram métodos de memorização que apelam para a lógica e associações de idéias similares (lembrar do número 51 como “uma boa idéia”, por exemplo); essa é a memória do adulto, já não automática, exigindo estratagemas para se manter e reforços periódicos para não se perder.
A Alma Celeste, por sua vez, apresenta uma memória que é mais típica do idoso, a memória afetiva/moral – as coisas são lembradas pelo sentimento que evocaram, assim como pelas consequências dos eventos e atos ocorridos, e o que se aprendeu com as mesmas; uma memória que, à primeira vista, parece menos prática que as outras duas, mas que, se tudo correu bem, é a base da sabedoria adquirida ao longo da vida, e vai ser importante quando formos analisar o próximo tema.

Alma: Morte

E o que acontece na hora da morte, qual o destino das Três Almas? Vamos usar a estrutura já vista dos Círculos da Existência como base para discutir isso num esquema mais amplo.
Para a Alma Telúrica, a aproximação da morte é recebida com o pavor do instinto de preservação ativado, e ela vai lutar enquanto puder, mas paradoxalmente o instante da morte em si é recebido com algo próximo da aceitação, sobretudo após uma longa doença; já vimos que o senso de “eu” é exclusivo da Alma Oceânica, não está aqui, porque ela sabe instintivamente que, muito embora ela vá se dissolver e os elementos densos e sutis que a compôem vão se separar e ser reabsorvidos no círculo de Annwn, o abismo primordial de onde vieram, a experiência de vida que ela acumulou será preservada e, digamos assim, “reciclada” para formar novas Almas Telúricas, cada uma com fragmentos das Almas que a antecederam – é interessante lembrar que, como nossos avós diziam, antigamente os bebês nasciam de olhos fechados e só os abriam dias depois do nascimento, e que isso já não ocorre, o que aponta para uma progressiva ampliação da consciência coletiva que é individualizada nas Almas Telúricas.
O verdadeiro terror da morte, no entanto, está no coração da Alma Oceânica, que tem um senso de “eu” e teme sua extinção após a morte, especialmente se não tiver alguma religião ou filosofia que ensine a imortalidade da alma – mas, como já vimos, se o ser vive várias existências, e em cada uma delas começa do zero, isso sugere que ela não sobrevive intacta à morte, porque seu plano de existência é o círculo do Abred, a roda dos renascimentos, a cada vez com uma nova identidade sem lembrança consciente das identidades anteriores.
É na Alma Celeste que o medo da morte inexiste, porque ela já habita, mesmo durante a encarnação, o círculo de Gwynfyd, o mundo da vida eterna, e no momento da morte ela, num último gesto, toca as Almas Telúrica e Oceânica e recolhe as memórias e experiências de vida relevantes, a sua colheita daquela encarnação, guardando-as consigo junto com todas as experiências das vidas anteriores, sem contudo identificar-se com alguma em particular.
É curioso notar que a Alma Telúrica é imortal mesmo que não perene, e a Alma Celeste é verdadeiramente imortal e perene, e é a Alma Oceânica, aquela que chamamos de “eu” e que é geralmente a única da qual temos conhecimento, aquela que nem é imortal nem perene, que só persiste como memória guardada pela Alma Celeste…
Mas vejam, isto só se aplica aos casos de morte natural, por velhice ou doença – e quanto às mortes súbitas e violentas, por agressão ou acidentes? Nestes casos, é possível às Almas Telúrica e Oceânica persistirem algum tempo após a morte, dando origem ao fenômeno das aparições de “fantasmas” – a Alma Telúrica, ou a sua parte sutil, permanece como um amálgama de instintos, apego/aversão e energia vital não- desgastada pelos processos de morte natural, sem as Almas superiores para guiá-la, e vai estar suficientemente próxima do mundo material para ser capaz de manifestação física, gerando ruídos, toques, às vezes aparições do tipo poltergeist, mas sem nada que sugira uma inteligência ou identidade por detrás, durando até gastar a energia vital e então se dissolvendo no abismo do Annwn; a Alma Oceânica pode persistir, quanto mais apegada à existência for a sua personalidade, e quando aparece pode até ser capaz de comunicação, mas o que se observa mais parece uma gravação, repetindo frases e padrões de comportamento, sem originalidade ou vontade própria, até se dissolver no Abred. As aparições da Alma Celeste são raríssimas, sempre com um propósito maior que o mero apego à existência terrestre, e aí ela se vale da memória para “recriar” a personalidade original da Alma Oceânica como uma interface para a comunicação, que é verdadeiramente original e criativa: o exemplo de Fergus mac Roich , surgindo em seu túmulo e ensinando a narrativa do Táin Bó Cuailnge ao Bardo que sem querer o evocou, seria um exemplo clássico na tradição Druídica.
Quando chega a hora, se a Alma Celeste ainda não está pronta para permanecer definitivamente no Gwynfyd, ela escolhe cuidadosamente as condições da nova encarnação, com ajuda dos Deuses, Ancestrais e Espíritos, e desce para se unir às novas Almas Oceânica e Telúrica recém-formadas, e a Roda das Existências dá um novo giro.

Alma: Conexão

Mas então, dirão vocês, toda essa questão das Três Almas é muito interessante, mas qual é o valor prático dessa idéia, como posso usar esses conceitos na minha vida?
Primeiramente, quero deixar claro que isso não é um dogma, uma revelação divina, um artigo de fé – eu fui apresentando exemplos do dia-a-dia que todo mundo já vivenciou, de modo a fundamentar a teoria na experiência de quem a lê, para que sua validade, ou ausência da mesma, seja fruto de observação pessoal e não algo no que crer sem discussão. O Druidismo é uma forma de espiritualidade que, não à toa, tem a árvore como símbolo: uma criatura viva que, não importando quão alto seus ramos alcancem, está profundamente enraizada no solo, sem o que o menor sopro de ar pode derrubá-la por terra.
Assim sendo, a questão passa a ser esta: como podemos usar o conhecimento da triplicidade da alma de modo útil e benéfico? Já vimos antes que uma definição de Druidismo é centrada no relacionamento correto entre todas as coisas, e já tivemos alguns insights sobre a dinâmica da relação entre as Três Almas: falta apenas explorar a possibilidade de um contato consciente e imediato da Alma Oceânica com suas parceiras Telúrica e Celeste, e pensar em métodos práticos para esse contato. O exercício abaixo foi adaptado da Tradição Feri de bruxaria, que também reconhece a alma tríplice e trabalha extensivamente com isso.
Um passo inicial seria uma declaração de propósito: respirar fundo, concentrar-se, e dizer algo como

“é minha intenção conhecer todas as partes de meu ser, para que as Três Almas sejam como uma, alinhadas em harmonia”

…como se sente ao dizer isso? Alguma reação física, pressentimento, imagem vem à percepção? Anote o que ocorreu, relace, tire isso da cabeça por enquanto, deixe essa idéia-semente afundar e criar raízes no fundo da mente.
Quando estiver acostumado com a idéia, você vai ser “avisado” via sonhos, presságios ou uma sensação do tipo “é hora!” – arranje tempo & um lugar tranquilo, possivelmente já na cama, pronto para dormir.
Respire fundo três vezes, repita a sua declaração de propósito, e fique quieto. Centrado no peito, ponha a mão no coração e sussurre “eu”, toque no umbigo e diga “nós”, toque no alto da cabeça e diga “um”. Expire e sinta um fluxo de calor descer do coração ao umbigo, inspire e sinta que ele retorna do umbigo ao coração, repita devagar até sentir que o elo se formou. Faça o mesmo entre o coração e o espaço acima da cabeça, respirando calmamente. Agora expire do coração, passsndo pelo umbigo, e subindo ao alto da cabeça, expire daí ao coração passando pelo umbigo, sinta os três pontos conectados e em comunicação plena, contemple a união (se quiser pode usar as palavras eu/nós/um do começo na fase da respiração, como um mantra).
Quando achar que já foi o bastante, solte o ritmo respiratório, sinta os pontos unidos e diga “que eu me conheça em todas as minhas partes”, agradeça, encerre, durma (e preste atenção nos sonhos!).
Com o tempo, você vai conhecer suas outras Almas a ponto de poder dar nome a elas (ou aprender os nomes delas, o que dá no mesmo) e aí poder abrir o contato simplesmente chamando-as pelo nome: “X, ajude-me a me recuperar deste resfriado”, “Z, qual é a conduta correta a seguir neste caso?”
Tente pensar em si mesmo cada vez menos como “eu” e cada vez mais como “nós”, uma parceria, um casamento a três para a vida toda, e cresça fortalecido pelo Mistério desta união.