AS LEIS, de Platão
tradução: Gael Morigenon

*Ateniense:
Mas caros senhores, nosso debate agora não está preocupado com o resto da humanidade, mas sim com a bondade ou maldade dos próprios legisladores. Por isso, vamos dar mais atenção ao assunto da embriaguez em geral, pois é uma prática de pouca importância, e não requer nem mesmo um legislador mediano para compreendê-la. Não me refiro ao fato de beber ou não vinho em geral, mas à embriaguez pura e simples, e a questão é: deveríamos lidar com ela da mesma maneira que os citas, os persas e os cartagineses fazem – assim como os celtas, iberos e trácios, que são todas raças guerreiras –, ou como vocês espartanos fazem?
Pois, como vocês mesmos dizem, abstêm-se dela por completo, ao passo que os citas e trácios, tanto homens como mulheres, tomam seu vinho puro e deixam-no derramar por sobre suas roupas – e consideram essa prática como algo nobre e esplêndido; e os persas muito se comprazem nestes e em outros hábitos luxuriosos que vocês rejeitam – embora de uma forma mais ordenada que os demais.

Megillus:
Mas nós, meu bom senhor, quando temos armas em punho, conduzimos todos estes povos à derrota!

Ateniense:
Não diga isso, caro senhor; pois havia, de fato, no passado e haverá no futuro muitas fugas e muitas perseguições que podem ser explicadas pelo passado, de modo que a vitória ou a derrota na batalha não poderiam ser consideradas um teste decisivo – mas sim questionável – da bondade ou maldade de uma instituição. Estados maiores, por exemplo, obtém vitória na batalha sobre estados menores, e encontramos siracusianos subjugando locrianos, cuja reputação é de terem sido um dos povos daquela parte do mundo que foram mais bem governados: e os atenienses, os ceianos, – e poderíamos encontrar inúmeras outras situações semelhantes. Portanto, deixemos as vitórias e derrotas de lado no momento presente, e analisemos cada uma das instituições por seus próprios méritos na tentativa de formar nosso convencimento e explicar o que faz com que uma seja boa e a outra má. E, para começar, ouçam minha consideração quanto ao método correto de se inquirir sobre os méritos e deméritos das instituições.
FONTE:
Plato. Plato in Twelve Volumes, Vols. 10 & 11 translated by R.G. Bury.{title}. Cambridge, MA, Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd. 1967 & 1968.