O passado sempre nos aparece cercado pela indefinição e pelas pesadas brumas da ignorância. Quanto mais o tempo  passa, maior é o nosso desconhecimento sobre os fatos que ocorreram no mundo, e menor a nossa precisão em conhecer a visão daqueles que outrora estiveram nele. Quando falamos de uma cultura que deixou pouquissimos registros escritos, como os Celtas, a situação se torna ainda mais complicada, pois dependemos de olhares externos para atingir uma compreensão maior de sua cultura e maneira de se relacionar com o sagrado. Esses olhares variam muito, de Gregos e Romanos, pagãos como os Celtas, mas com diversos interesses políticos e preconceitos culturais a respeito destes, passando por monges Cristãos da Irlanda e Grã-Bretanha, descendentes diretos de povos pagãos, mas com uma nova visão teológica que colocavam sobre as crenças nativas de seus ancestrais, até os nossos dias, com arqueólogos e antropologos, que estudam o passado através de seus vestígios, sejam físicos, encravados nas rochas, enterrados, esperando para serem descobertos; ou culturais, sobrevivendo ferozmente entranhados na cultura popular dos povos que outrora foram chamados de Celtas.

Tudo isso gera uma necessidade muito grande de estudo para a cultura Celta ser compreendida a fundo, e esse trabalho é normalmente feito por acadêmicos. Não há, sobre o povo Celta, uma cultura antiga descrita por si própria, como é o caso da Hellênica. Como as obras que nos fornecem informações mais amplas sobre os Celtas não são conhecidas do público geral (obras acadêmicas são vistas, muitas vezes, como pouco atrativas, nem um pouco “românticas” e até mesmo como “díficeis” de serem lidas), os estudos mais sérios sobre esse povo tão fascinante terminam por ficar restritos a poucas pessoas. Isso permite que diversos autores publiquem  absurdos sobre os Celtas, cheios de fantasias e totalmente voltados a seus objetivos pessoais. As origens dos Celtas estão bem registradas pela História (ou pelo menos melhor registradas do que os devaneios de alguns). É hora de serem conhecidas do público geral.

 

Indo-Europeus:

 

Antes de mais nada, voltemos aos momentos primordiais das culturas européias modernas: o momento das migrações dos povos Indo-Europeus. Esses agrupamento de povos teve o seu início cultural, de acordo com a arqueologia, em algum lugar nas planícies do norte do Irã. Em determinado momento da pré-história, por algum motivo incerto, mas possivelmente por crescimentos populacionais, ondas de grupos Indo-Europeus partiram de sua terra-natal para se assentar em outros lugares, indo tanto para leste quanto para oeste. No Oriente, influenciaram fortemente a Índia Brahmanica. No Ocidente, suas ondas geraram a grande maioria das culturas da Europa clássica (Gregos, Romanos, Celtas, Germanos, Eslavos, Bálticos…). As semelhanças entre esses povos são inegáveis. Língua, estruturas sociais e mitológicas primitivas são semelhantes a todos os povos chamados de Indo-Europeus, e diferem em povos de outras origens, como os Fino-Ugrianos. O que foi tornando cada cultura diferente foi a época de migração, quais os tipos de povos aborígenes  com que cada um teve contato, como foi essa relação, e que tipo de ambiente cada um se estabeleceu. Assim, com o tempo, esses povos migrantes foram se tornando tão distintos uns dos outros que sua origem comum se perdeu quase que totalmente.

Onde os Celtas começam ? Como aqui estamos dependendo da arqueologia, então é incerto. Mas boa parte dos estudiosos atuais aceitam que a origem dos Celtas (e, possivelmente, também dos Italiotas) está em um “povo” antigo Indo-Europeu que se estabeleceu na Europa central, que foi chamado de Beaker Folk, provavelmente no 3º milênio a.C. Essa população dominava metais leves, como o cobre, e muitos dos seus  instrumentos, parece, eram destinados à produção de cerveja e hidromel (duas bebidas muito apreciadas pelos Celtas de todas as épocas). O Beaker Folk era um grupo migratório, como os Indo-Europeus, e sua cultura chegou  mesmo à Ibéria e à Irlanda, deixando rastros por toda a Europa, normalmente em regiões que entendemos como habitadas pelos Celtas.

Apesar de toda essa difusão, devemos voltar à Europa central, para buscar a cultura dos “Campos de Urnas”. Esse povo era conhecido pela cremação de seus mortos (normalmente, isso é visto como uma forma de libertar as almas dos mortos do receptáculo de carne),  que os diferia dos povos anteriores, que enterravam os corpos em monumentos tumulares. Boa parte do material da cultura dos Campos de Urnas (que floresceu de cerca de 1200 a.C a 750 a.C) foi desenterrado de regiões habitadas pelos povos que os Gregos chamaram de Keltoi Galatai, tornando-os possíveis ancestrais dos Celtas também, fato reforçado por viverem em áreas que também foram habitadas pelo Beaker Folk. Sua área de distribuição engloba a Europa central (principalmente a atual Alemanha), Leste Europeu, incluindo o Mar Báltico, norte da Itália, Gália e sul da Ibéria. Esse grupo é, normalmente, o primeiro a ser chamado de “Celta” pelos pesquisadores, mas ainda havia muito o que se desenvolver.

As grandes  mudanças que ocorreriam na Europa viriam com o domínio do ferro. A transição entre a cultura dos Campos de Urnas e a seguinte, chamada Hallstatt (nome recebido pela região da Áustria onde muitos artefatos da época foram encontrados por arqueólogos) acaba sendo notada, novamente, pela práticas funerárias, que sofrem uma nova alteração. Ainda que a cremação continue a ocorrer, os mortos, pelo menos os nobres, voltam ser enterrados em colinas tumulares, cercados por riquezas, sendo encontrados monumentos desse tipo mesmo para mulheres nobres, como o da Princesa de Vix, ainda que a maior parte seja de nobres com características guerreiras. As armas de ferro que, gradualmente, começam a tomar o lugar das de bronze, traziam imensas vantagens, e essa cultura, evoluída do Beaker Folk e dos Campos de Urnas, prontamente consegue o domínio dessa tecnologia, e começa a se fortalecer na Europa central e a se expandir, tanto para o leste quanto para o oeste, chegando mesmo às Ilhas Britanicas e Irlanda. Uma das teorias mais discutidas (e bem aceitas) sobre os Celtas dão conta que eles seriam, na verdade, uma elite guerreira e cultural, que tomava o controle das populações autoctones e as “celticizava”. Esse processo de aculturação Celta ao longo da Europa Ocidental começaria a ocorrer a partir do período Hallstatt, e os primeiros oppida (colinas fortificadas dos Celtas) começam a despontar pelo continente. Em determinado momento, quase toda a Europa Ocidental pertence aos Celtas, ou é por eles influenciada. Na Ibéria, eles conviviam junto a muitos outros povos, mas a sua presença é marcante, enquanto na Gália, eles tinham como vizinhos os Germanos, sempre perigosos, além das penínsulas Itálica e Grega. Já o Leste Europeu, com movimentações constantes de diferentes povos, incluindo Bálticos, Eslavos e Germanos, permaneceu um campo misto, ainda que houvessem bolsões Celtas ao longo da região.

Os primeiros Celtas a aparecerem nos registros das culturas letradas do Mediterrâneo, porém, provavelmente pertenciam a uma última evolução cultural, a chamada cultura La Tène (nome recebido pela região da Suiça onde muitos de seus artefatos foram encontrados), que se estendeu da Ibéria a Hungria (ainda que, como antes, a leste da Gália seu território fossem intercalado com o de outros povos) além, é claro, das Ilhas Britânicas. Essa cultura, conhecida por sua complexa arte, inspirada em motivos curvilíneos e naturais, foi aquela que os Gregos chamaram de Keltoi e os Romanos de Galli. Aquela aristocracia guerreira, agora líder de um povo que adquirira suas próprias características (“tornando-se” Celta) mostrou sua força aos povos do sul, atacando ao longo do continente europeu em bandos conquistadores. Os Celtas, em si, nunca criaram um “império”, dividindo-se em tribos e reinos menores, vendo as tribos vizinhas como quase tão estrangeiras quanto um romano ou germano. Portanto, em sua bravura e constante busca por glória e conquista territorial, lutavam quase tanto entre si quanto com outros povos. Em 390 a.C, Brennos, um chefe da tribo dos Senones, saqueou Roma, e ficou conhecido por seu désdem pela tentativa romana de enganá-lo na hora de pagar o resgate pela cidade: pousou sua espada sobre a balança e bradou Vae Victis!! (“Ai aos vencidos”). Esse dia ficou marcado na história de Roma, como o Dies Alliensis. Outro Brennos saqueou o templo de Delfos, na Grécia, em 279 a.C, e também se tornou famoso por sua prodigiosa gargalhada ao saber que as estátuas que ali estavam representavam os deuses. Não apenas a guerra com outros povos era buscada entre os Celtas, mas o comércio e o intercâmbio cultural era constante. Eles não viviam isolados, mas estavam em constante contato com os Romanos, Gregos e mesmo os Germanos, normalmente vistos como seus inimigos. Isso gerou uma civilização de grande esplendor, principalmente na Gália, mas mesmo nas Ilhas, a cultura Celta atingia o seu auge.

Bibliografia:

J. M. Coles/A. F. Harding, The Bronze Age in Europe (London 1979).Artista: Martina Nachazelova http://nachiii.cghub.com/

Chadwick, Nora, The Celts, Penguin Books (1970)

Kruta, Venceslas, The Celts, Thames and Hudson (1991)

Cunliffe, Barry. The Ancient Celts, Oxford, Oxford University Press (1997)