Quatro Perguntas

 

Acredito que algumas coisas são muito claras para todos aqueles que caminham pela nossa senda espiritual; a de que nós e os Antigos não estamos ligados em uma linha ininterrupta, seja ela cultural, ancestral ou religiosa. O caminho dos antigos Celtas e Druidas foi indiscutivelmente interrompido; mas, segundo os ditames da tradição, das suas cinzas ele ressurgiu, resgatou o que foi possível de sua história, os estilhaços de seu passado sobreviventes no folclore, as suas estruturas arquetípicas de sábios, heróis e reis. Mas uma pergunta sempre estará ao lado daqueles que andam essa trilha: é o bastante? Muito mais é conhecido hoje do mundo celta antigo, e ainda nos é permitido conhecer mais sobre o passado, e novas teorias sobre ele; mas é viver no passado que buscamos? Sabemos onde os celtas viviam, mas nem sempre serão nessas regiões que viveremos. Entendemos melhor a mentalidade dos celtas, mas será essa a razão para abandonarmos aos valores que temos hoje, muitos dos quais ensinados por séculos de experiência? Esses são apenas alguns dos empecilhos que são trazidos pela prática de uma espiritualidade céltica no mundo moderno. Podemos sintetizar a maioria dessas dúvidas em quatro perguntas: Como? Quando? Onde? Por que?

 

Como?

Toda forma de Paganismo que busca trazer uma espiritualidade que esteve extinta de volta à tona é uma recriação. Estamos buscando recriar a história (ou parte dela) para validar nossas crenças espirituais e ideológicas. Portanto, para isso, primeiro conhecer essa história; o Druidismo Moderno (principalmente de grupos como a Henge of Keltria e Ar nDraíocht Féin) e o Reconstrucionismo Celta (assim como o Ásatrú, o Helenismo, a Nova Roma, o Kemetismo Egipcio e o Rodinovere Eslavo) diferem de muitos outros grupos exotéricos pelo papel que a História tem em suas práticas. São crenças que não buscam “suavizar” o passado dessas culturas, pois conhecê-las como elas realmente eram é o que nos inspira e ajuda a moldar nossas práticas atuais. Conhecer sua história, mas não apenas ela. Conhecer a mitologia, antes como os mitos são na sua forma pura, para depois aprendermos a interpreta-los à luz da espiritualidade, arqueologia, história, antropologia, psicologia e misticismo. Conhecer a cultura desses povos, onde sua mentalidade estava expressa, e continua viva no folclore e nas celebrações dos povos.

Conhecendo a cultura, a história, os mitos, podemos pensar em como eles são pertinentes e relevantes ao mundo moderno. Entendemos que nossa mentalidade não é a mesma que a dos Antigos, mas trabalhamos para manter vivas as tradições que podemos no nosso mundo e situação atuais. Quando encontramos práticas que seriam impossíveis aos nossos olhos modernos, procuramos adaptar, como muitas vezes ocorreu no folclore (muitos sacrifícios humanos reais foram substituídos por encenações teatrais seguidos de oferendas menos agressivas no interior da Inglaterra e de Gales), ou as abolimos completamente. Quando encontramos lacunas no conhecimento, entendemos que é preciso aceitar essa falta, ou procurar por outras formas de completude. Não é estranho se sentir inspirado por outras espiritualidades dentro da nossa, o errado é divulgar inspirações modernas como pertencendo originalmente àquela espiritualidade. Por exemplo, diversos autores buscam inspiração no Xamanismo para suprir carências de conhecimento na religião céltica, e isso não é condenável; mas quando eles divulgam essas informações (que originalmente pertenceram a povos da Sibéria, Ameríndios ou Aborígenes Australianos) como sendo originalmente célticas, eles estão cometendo um crime com ambas as culturas. Influências podem existir, mas com a consciência e o respeito para com o lugar de onde vieram; a religião céltica não é única, nem nunca foi: assumia nuances e características diferentes em lugares diferentes, com povos diferentes. Esperar que a religião da Gália de Vercingetorix fosse a mesma da Irlanda de Cormac mac Áirt é um pouco demais, mas ambas eram célticas, apenas localizadas em terras diferentes, praticadas por pessoas diferentes, em tempos diferentes; podemos esperar o mesmo de uma espiritualidade céltica praticada no Brasil contemporâneo.

 

Quando ?

 

Não vivemos mais na Idade do Ferro. Não lamentem por isso, há pouco romantismo sobre essa época. Isso significa muitas coisas, tanto boas, quanto ruins. As ruins são que vivemos em uma época em que a ligação com a Terra, com a família, com os laços de povo foram todas substituídas por uma mentalidade imediatista, egoísta, de-sacralizada e amedrontada. As boas incluem casas confortáveis, privacidade, internet, comunicação mundial, acesso à educação e vasos sanitários. Ou seja, as boas são principalmente relativas à tecnologia, e as ruins são principalmente relativas à mentalidade. Somos pessoas de mentalidade moderna, mas o paganismo tenta trazer pelo menos um pouco da mentalidade antiga à nossas mentes. Não é um trabalho fácil, pois é difícil abandonar muitos dos nossos conceitos modernos, mas é possível se desfazer de muitos deles (e nossos filhos o farão melhor; isso deve ser sempre enfatizado: não há pressa, pois futuras gerações, criadas à nossa maneira, com os nossos valores, e com menos interferência da moralidade cristã, poderão muito mais longe do que nós conseguiremos na nossa vida). Mas devemos fazer com todos?

Obviamente não. Há coisas na Idade do Ferro que simplesmente não podem ser trazidas de volta. Os tempos mudaram, e não podemos abrir mão do que aprendemos, e temos de levar essa espiritualidade para o futuro. Se a espiritualidade céltica diferia no espaço, também diferia no tempo: aprendizado, mudanças, novas inspirações, e mesmo influências tornavam a religião diferente dependendo da época, e ela não deixava de ser a religião ensinada pelos Druidas; a religião não era estática no passado, e não deve ser agora. Devemos aprender a história, mas também devemos aprender com a história, o que são coisas diferentes. Do passado, podemos herdar sempre, além da cultura e da herança, os valores. A honra, a coragem, a generosidade, a hospitalidade, a fertilidade, o respeito pelos dignos.

 

Onde ?

 

Não vivemos na Irlanda, na Escócia ou em Gales. Mesmo para os que lá vivem esses lugares não são os mesmos do passado. Cidades nasceram, cidades morreram. Estradas cortam sítios sagrados, escavadeiras estão sempre prontas a destroçar a história em nome do “progresso”, e o mundo antigo fica cada dia mais longe de todos nós. Isso tem sido um motivo de debate que envolve principalmente o meio pagão, onde a influência animista, que recorre a paisagens sagradas, é tão importante. Mas a espiritualidade continua, independente do lugar.

Se os Celtas reconheciam a natureza como sagrada em suas terras, por que eles não o fariam em qualquer terra que conhecessem? Sua influência se espalhou desde lugares férteis e belos até ilhas ermas de pedra. Eles não reconheceriam o Sagrado em terras diferentes, apenas por estarem do outro lado do Oceano? Duvido. A Terra continua sagrada, seja na Irlanda, na China, no Brasil. Apenas temos de ter a consciência das forças da nossa natureza local da mesma forma que os celtas e Druidas a tinham nas suas terras. Essas forças se manifestam da mesma forma em todos os lugares, apenas as nuances são diferentes, e temos de nos adaptar a elas. O maior exemplo é o fato de que, normalmente, os seguidores de paganismos reconstrucionistas do hemisfério sul invertem a sua “Roda do Ano”, para celebrar as estações nas épocas apropriadas à natureza local; mantendo o simbolismo, mas alterando as datas. Afinal o Samhain é o início do Inverno, e ficaria estranho celebrar isso no início do Verão. Por mais que seja prazeroso ver o Halloween no dia 31 de Outubro, essa fixação por datas é parte do pensamento cristão (originalmente, o Samhain da Irlanda era celebrado com a primeira geada, ou seja, a data podia variar de ano pra ano). Os festivais célticos são sazonais, e por isso é normalmente feita essa alteração no hemisfério sul.  Outros pontos que são relevantes: dentro do meio pagão o ativismo ecológico é muito comum. Ainda que não seja realmente um ponto crucial dentro do paganismo reconstrucionista, temos de lembrar que os Celtas eram animistas, e a paisagem natural era parte de seu conceito de espiritualidade. Mesmo que não se trabalhe pela ecologia, ter consciência sobre a importância da Terra nas nossas vidas é indispensável. Por último: não vivemos nas terras Celtas, mas ainda somos ligados a elas de alguma forma. Hoje em dia muitos sítios arqueológicos foram obliterados para construções de rodovias, aeroportos, conjuntos habitacionais. Quanto de conhecimento não perdemos com isso? Cada vez que um lugar desses é devastado, uma parte de nossa ligação com o passado morre. Apoiar a preservação de sítios arqueológicos e locais sagrados (para qualquer cultura)  é reconhecer nossa ligação com as tradições que nos foram legadas.

Por que?

 

O porquê talvez seja a mais complexa de todas as perguntas a serem respondidas. Os celtas antigos tinham a resposta: era a religião de seu povo, eles não tinham outra a aprender. Os romanos e os cristãos mudaram isso. Mas hoje, normalmente, temos alguns motivos principais para uma aproximação da espiritualidade Celta:

Magia e Paganismo: Muitas pessoas buscam conhecimento sobre os Celtas tendo esses dois conceitos em mente. Não há nada de errado com isso, mesmo que muitas vezes cheguem com ideias estranhas na cabeça (como teorias de que os Celtas seriam Atlantes…). A espiritualidade céltica é pagã e é animista, é politeísta e espiritualista. Difere de algumas posições pagãs por ser mais voltada a valores e ações do que à introspecção e passivismo. Ela é mágica, a magia está no coração da cultura céltica. Sua magia é natural, ligada tanto ao povo comum quanto ao erudito, diferente das práticas de grupos herméticos altamente estruturados. A espiritualidade céltica oferece esse paganismo e essa magia aos seus devotos.

Ligação Ancestral: Muitas pessoas buscam na espiritualidade Celta uma ligação com seus Ancestrais. Não é incomum, uma vez que boa parte da população brasileira tem origem ibérica, podendo ter herança Celtíbera. Italianos do norte, alemães do sul e do oeste, franceses, britânicos, todos tem uma parcela de participação na formação do povo brasileiro, e todos também tem uma pequena parte de origem céltica. Ao contrário do que se pensa, orgulhar-se de seus ancestrais não é desencorajado, muito pelo contrário. O respeito aos Ancestrais (você lhes deve o fato de estar vivo, pra começar…) é parte da espiritualidade céltica e, em um país tão misturado como o nosso, todos os seus ancestrais devem ser lembrados, sejam eles celtas ou não. Não há uma crença afirmando a superioridade ancestral de alguém sobre outra pessoa, mas os seus ancestrais sempre estarão próximos a você, e se esses ancestrais forem celtas, isso muitas vezes se torna um incentivo a mais para a aproximação com a espiritualidade. Apenas tenha consciência que ancestralidade céltica não é um requisito para praticar a espiritualidade, que pessoas de origem não-céltica também podem ter ligação espiritual com essa cultura, e que mesmo que sua ascendência possa indicar uma origem céltica, muitas vezes isso é um engano. Mesmo irlandeses podem ter uma ascendência totalmente não-céltica, mas sim de seus adversários vikings.

Ligação Estética: A arte celta atrai a atenção de muitos. Seus belos trabalhos de entrelaçados, seus poemas de estética etérea, sua música mundialmente reconhecida. A arte Celta pode ter atraído mais pessoas ao paganismo celta do que qualquer outro motivo, mas é o mais problemático de todos. O reconhecimento da beleza dos padrões artísticos de um povo não torna alguém preparado para seguir uma espiritualidade pagã, e muitas vezes as pessoas preferem procurar alguma versão “suave” do paganismo para que sua mentalidade (ainda majoritariamente cristã) não seja tão ofendida. Isso se torna ainda pior no ramo da literatura, quando milhares de autores modernos escreveram absurdos utilizando lendas celtas (o rei Arthur é a “vítima” favorita), adaptando-as a padrões culturais que não existiam na época. Essas pessoas podem realmente um dia vingar no paganismo, mas precisam buscar fontes confiáveis (historiadores, antropólogos) para não basear suas crenças em ficções de tempos modernos.

Ligação Ideológica:  Hoje é comum ver um homem que dê mais valor à sua palavra do que ao seu ganho pessoal? A honra está esquecida. Ninguém valoriza a própria palavra, e esquecem seus ideais como se fossem fardos. Aproveitam-se de pessoas que agem de boa-fé e depois fingem que assumem novas ideologias, apenas para esquecê-las no dia em que se tornarem inconvenientes diante de uma nova vantagem a ser adquirida. Isso é falta de honra. Onde está a coragem das pessoas? Não estou dizendo para reagirem a assaltos ou sequestros, pois a luta contra covardes armados é desigual e só você tem algo a perder, mas há outras formas de coragem. Milhares de pessoas sofrem assédio moral (e mesmo sexual) nos seus empregos, e não tem coragem de fazer algo por medo das consequências. As pessoas tem medo de mudar o que está errado em suas vidas por temerem a perda de uma zona de conforto que lhes está sendo daninha. E quanto aos políticos? As pessoas tem medo de se posicionar, de protestar, de fazer valer seus direitos, por puro comodismo. Isso é falta de coragem. As mulheres hoje conseguiram atingir a igualdade de direitos perante a lei, mas muitas não tem a capacidade de tomar seus próprios destinos em mãos. Sofrem nas mãos de homens violentos, infiéis, ou que não as merecem. Outras (principalmente adolescentes) acabam caindo em um mundo em que acreditam estar se aproveitando da sua liberdade, quando na verdade é justamente o contrário. Não é o mesmo que Meadbh fazia, ela tinha o seu destino em mãos, porque sabia que nunca seria desvalorizada por suas ações. Podemos dizer o mesmo dessas meninas? E quanto à Terra? Quantas pessoas hoje apreciam as estrelas de um céu noturno, o silencio de estar entre as árvores, a visão da água caindo de uma cachoeira? A dessacralização da natureza é a maior de todas as consequências que o cristianismo nos deu, pois a terra deve ser “enchida e subjugada”. Aonde vamos chegar com essa mentalidade? Não é finalmente a hora de voltarmos as nossas mentes para ideais que entendam as carências da alma humana moderna? Os valores dos Celtas estão aí, e só precisamos aplica-los à nossas vidas e ao mundo para que possamos entender onde foi que erramos.

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