Por Wallace Cunobelinos

 

Um dos maiores problemas que enfrentamos quando estamos tratando com a cultura céltica é o fato que os celtas escreveram muito pouco sobre sua própria cultura. A maior parte dos registros que temos sobre eles data de após a sua cristianização, e não são totalmente confiáveis. Outros, foram escritos por seus inimigos romanos, e não podem ser vistos como neutros. Mesmo sendo o melhor que temos, algumas lacunas são muito difíceis de suprir. Nos falta, por exemplo, todo um corpo de textos teológicos que nos dê a visão celta do principio das coisas, bem como a estrutura do universo e a relação entre homens e deuses. De algumas dessas coisas, nós temos algumas pistas, mas que são pequenas demais para nos dar respostas conclusivas.
Porém, uma coisa que não pode jamais ser esquecida: a cultura celta pertencia a uma cultura muito maior, a dos indo-europeus, que se espalhou da Eurásia central tanto para leste quanto oeste. Todos os povos europeus, com exceção de bascos, finlandeses, estonianos e húngaros, tem sua cultura como originalmente indo-europeia. Ainda que analisar essas culturas não nos deem os mitos que nos faltam quando falamos dos celtas, eles podem nos dar mais pistas daquilo que era comum a todas essas culturas em tempos primitivos.

 

O Início de Tudo

Primordial Chaos by AirElephant ( http://airelephant.deviantart.com/ )

Para os gregos, o Universo começava com Caos. O que é Caos ? Um deus ? Um lugar ? Caos, dentro do nosso entendimento, é “algo” mas não pode ser definido como um “onde”, um “alguém”, ou mesmo um “quando”, pois dentro da mitologia clássica, assim como o Big Bang científico, ele ocorre antes da existência do tempo e do espaço. Ele é uma força criativa pura, selvagem e incontrolável. Encontramos na mitologia nórdica um equivalente para Caos: é Ginnungagap. Este, dentro da concepção escandinava, mais selvagem que a grega, é o grande vão, onde se encontram o fogo e o gelo. Dentro da mitologia nórdica, essa é a mais primitiva concepção de elementalismo, pois são as duas coisas que formam as terras do norte: a neve dos invernos rigorosos, e o constante crescimento da terra pelas erupções vulcânicas. Ginnungagap e Caos nos sugerem que o Universo é criado por uma força vinda do vazio (seja literal, como Caos; seja subjetivo, como a fenda primordial que é Ginnungagap), que é selvagem e impessoal. Ela não é uma força consciente, e como a mais primitiva fonte de vida, ela simplesmente gera outras entidades, sem muito mais influência sobre elas.

 

O Ser Primordial

Das forças primordiais, surgem as primeiras formas de vida espiritual, as primeiras entidades que podemos chamar de deuses. De Caos nasce Gaia, a Terra, a Deusa Primordial (sendo que Caos não poderia ser chamado de deus). Gaia é o que podemos chamar de “espaço”; ainda que não existisse o “quando” ainda, já havia o “onde”, e dentro do conceito animista, comum a todas as religiões primitivas do mundo, mesmo lugares podem ser considerados como vivos. Gaia, para os Gregos, é a Deusa-Terra, a Mãe das coisas vivas, que sustenta a todos. Na mitologia escandinava, há um processo semelhante, mas a divindade nascida da força primordial Ginnungagap é masculina (ou andrógina, não é claro, ainda que o nome seja masculino): Ymir, o Gigante Primordial. Como o seu pai, Ginnungagap, ainda irracional, e também uma força criativa pura. Há outra semelhança entre Gaia e Ymir, do qual falaremos a seguir. Mas uma outra mitologia indo-europeia também tem um ser primordial para ser citado: no hinduísmo, temos Brahman, o mais puro dos deuses, que é o Criador Supremo. Na mitologia hindu, ele é parte do Supremo, a força Primordial o criou, mas Brahman é uma deidade no seu sentido literal, e é o Criador de Todo o Universo. Gaia, Ymir, Brahman, os três seres primordiais de acordo, respectivamente, com os gregos, nórdicos, e hindus. Na mitologia céltica, não há a certeza sobre se existiria uma entidade como essa. Na visão da maioria das pessoas, há a ideia de que essa seria a deusa Danu. Danu é a raiz por trás do nome do Rio Danúbio, sendo que os primeiros grupos indo-europeus que poderiam ser chamados de celtas cresceram às suas costas. Na mitologia irlandesa, o nome da família de entidades que chamamos de deuses é Tuatha Dé Danann, que é muito traduzida como “Tribos dos Deuses de Danu” (a tradução não é unânime, contudo), e que é aparentada, na mitologia do País de Gales pela Tely Dôn (Clã de Dôn), sugerindo que Danu/Dôn fosse a “Mãe dos Deuses”. Não é uma teoria que seja completamente aceita, mas é a mais comum no meio pagão. O fato de Danu ter pouquíssima participação na mitologia irlandesa, e de algumas vezes seus filhos não serem sequer parte das Tuatha Dé Danann, e de Dôn ser mãe de apenas uma das famílias do Mabinogion de Gales ,teminam por colocar em dúvida essa teoria. Outra teoria, mais incomum, nos diz que o Ser Primordial seria Nemed (“Sagrado”), o ancestral das duas principais famílias divinas da Irlanda, os Fir Bolg e as Tuatha Dé Danann (ambas eram “filhas do Sagrado”).

 

As Famílias Divinas

Em todas as mitologias indo-europeias, há uma miríade de “famílias” divinas, oriundas ou da Força Primordial (Caos, Ginnungagap) ou do Ser Primordial (Gaia, Ymir). Esses grupos são aquilo que comumente chamamos de “deuses”, e são as entidades que dão forma a diversos aspectos da existência, e muitas vezes, elas estão em conflito. Na mitologia hindu são os Devas contra os Asuras. Na grega, os Olímpicos contra os Titãs. Na nórdica, a batalha é entre os Aesires contra os Vanires, e depois contra os Jötnar. Na mitologia celta irlandesa, a luta é entre as Tuatha Dé Danann e os Firbolg, e depois contra os Fomorian.
Normalmente, as primeiras dessas famílias são deuses dos aspectos naturais do mundo e do Universo. Gaia tem um irmão mais novo, nascido de Caos, o “Éros Primordial”, além de outros , também nascidos de Caos, como o Abismo, mas as famílias divinas realmente se formam quando ela mesma cria Uranos, seu filho e consorte. Através da união entre Gaia e Uranos, nascem os Titãs, os Hekatonkheires, e os Ciclopes. Todos eles são as forças primordiais do Universo humano, além do Universo Maior, de onde nasceram Gaia, Éros, Uranos (e outro nascido apenas de Gaia, Póntos, o Oceano). Dos Titãs, o mais jovem é ninguém menos que Cronos, o Tempo. Os Ciclopes só possuem um olho, e esse olho pode fulminar. Já os Hekatonkheiros são a pura força bruta, a violência da Criação. Muitas outras famílias divinas surgem na mitologia grega, mas a que nos interessa agora é a dos Olímpicos. Filhos de Cronos e Réia (uma outra Deusa-Terra), eles personificam os aspectos do mundo que permeiam a atividade humana. Zeus, o novo deus-Céu, substituto de Urano, é filho de Cronos, e representa a Soberania, imposta a Deuses e homens através do Raio. Athena, nascida dele e de Métis (a Prudência), é a Sabedoria e o Conhecimento. Ártemis, a habilidade da caça e do extrair o necessário da vida selvagem. Hefestos, a arte humana da metalurgia e artesanato. Marte, a Guerra. São os deuses que inspiram aos humanos em sua sociedade. Mas não deve ser visto que eles simplesmente tomam o lugar dos Titãs originais. Muitos dos Titãs tem seu lugar entre os Olímpicos, e assim deve ser, pois a sociedade humana não pode realmente tomar todo o lugar das forças naturais. De fato, em todas as mitologias indo-europeias, há membros das duas famílias interagindo, e quanto mais importância as forças primordiais recebem, mais próximas à natureza são essas sociedades. O fogo, que era propriedade de Zeus, através do Raio, foi dado aos mortais por Prometeu, um Titã que vivia entre os Olímpicos, um exemplo de como a sociedade aprende a utilizar uma força que não controla totalmente (pois, ainda é primordial e pura, além do controle dos mortais, representada por Prometeu, o Titã), mas que se torna útil e essencial à humanidade (representada pelo Prometeu que vivia em meio aos Olímpicos). Na mitologia dos Escandinavos, a primeira raça a surgir do ser Primordial é a dos Gigantes (assim como há Gigantes e Hekathonkheiros entre os Gregos), mas um de seus filhos, Buri, tem três filhos, Odin, Vile e Vei. Esses três sacrificam o Ser Primordial, Ymir, e assumem o controle do universo. Mas há outros seres que também buscam esse posto, chamados Vanires. A origem dos Vanires é controversa, mas como seu domínio é principalmente o mundo selvagem e natural, é suposto que eles normalmente fossem entidades anteriores a Odin e seus irmãos, provavelmente outros filhos de Ymir. A batalha que ocorre é entre as duas forças, a das forças primordiais (Vanires) e as forças tribais (Aesires). Como entre os Gregos, as forças-guias da sociedade humana prevalecem, mas não sem uma trégua. Há uma troca de reféns, e Freya (deusa da beleza e do amor), Freyr (deus da fertilidade e da masculinidade) e Njord (deus do mar) passam para o lado dos Aesires, dando aos deuses da ação humana três domínios essenciais do mundo instintivo: a necessidade do amor, a necessidade da fertilidade e, mais importante que tudo para o povo escandinavo, o domínio do mar, de onde tiravam o seu sustento. Na mitologia nórdica, há um entendimento entre os Aesires e Vanires, entre as forças naturais benignas e as forças tribais. Mas há forças tribais que não podiam ser domadas pelos homens e deuses. Essas são representadas pelas raças dos Gigantes, que permanecem em guerra contra os Aesires. Uma das mais poderosas da raça dos gigantes é Skadi, a deusa do inverno, que era temida pelo povo escandinavo. A batalha entre os deuses da tribo e essas forças (e da própria tribo também) é eterna, e não encontra fim até o Ragnarok. Na mitologia celta irlandesa, mais cristianizada que a escandinava, também há duas batalhas, sendo a primeira entre os dois povos filhos de Nemed (o Sagrado): as Tuatha Dé Danann e os Fir Bolg. Os Fír Bolg estavam na Irlanda antes das Tuatha Dea, e se recusaram a dividir a terra com eles. Ainda que tenhamos poucas informações sobre o caráter dos Fír Bolg enquanto divindades, é suposto que eles fossem as formas divinas anteriores da Terra, aquelas que eram benignas à humanidade, e que podiam ser domadas pela tribo. Outros supõem que fossem os deuses de um povo pré-céltico a viver na Irlanda, em estado mais selvagem. De qualquer forma, as divindades dos povos celtas tiveram a supremacia. Já na segunda batalha, eles enfrentam os aspectos indomáveis da natureza. Nela, as Tuatha Dé Danann também saem supremas, mas não sem a trégua que é necessária entre Tribo e Terra. Os deuses da Tribo tem esposas vindas das tribos Fomorian, e seu maior herói, Lugh Lamhfhada, é um mestiço entre os dois povos, uma mostra de que o equilíbrio deve ser buscado, entre homem e natureza. Tanto é que, quando os deuses capturam o líder fomorian Bréas, o que eles pedem por sua vida é o conhecimento das épocas para arar e colher, coisa que apenas ele, uma divindade da Terra, poderia responder.

 

A Terra Como o Corpo de Uma Divindade

Na mitologia grega, o corpo de Gaia é a Terra, e acima dela está o céu, Uranos. Há outra deusa que encarnaria o papel de “Mãe dos Deuses”, Réia, que é uma filha de Gaia. Na mitologia nórdica, porém, o corpo da divindade que daria origem ao mundo é masculino, o corpo de Ymir, que foi partido por Odin, e de seu sangue fez os mares, de sua pele fez as terras, e do seu crânio fez a cúpula celeste. Apesar da mitologia viking, compilada na era medieval, nos dar essa explicação, que mesmo diferente da grega, ainda é completamente pagã, há uma discrepância com o pensamento germânico antigo, onde os romanos registram que os germanos cultuavam uma deusa da Terra chamada Erto, que apareceria na tradição medieval posterior como Erda, uma das amantes de Odin, e que seria a própria origem das palavras em línguas germânicas para o planeta (entra elas, Earth, no inglês). Na mitologia celta, as coisas se complicam, pois ela é tão fragmentária quanto as tribos celtas o eram. Não há uma grande deusa-terra, mas muitas divindades protetoras de cada local, vistas como as mães dos povos que lá habitavam, mas sendo múltiplas, como as tribos celtas. Ainda há a hipótese que Danu fosse uma Deusa-Terra/Rio acima de todas as outras, mas ainda não confirmada. Mas a possibilidade de que a terra fosse um corpo divino é bem atestada na visão gaélica dos elementos: para os gregos, os elementos eram as forças que formavam o mundo, sendo quatro: água, fogo, ar e terra. Para os celtas irlandeses, o dúile, os elementos, são diferentes, mas ainda são as forças que formam o mundo, com a adição de que cada elemento tem um correspondente no corpo humano, sugerindo que o mundo fosse uma representação macrocósmica do corpo humano, ou que o ser humano microcósmico seja uma representação menor do corpo de uma divindade da Terra macrocósmica: Ossos/Pedras, Carne/Terra, Cabelo/Vegetação, Sangue/Mar, “Sopro”/Vento, Mente/Lua, Rosto/Sol, Alma/Nuvens, Cabeça/Céu. Mas em todas as mitologias indo-europeias, seja na forma de uma deusa, seja de várias, a Terra é sagrada, é uma entidade viva, aquela que nutre o povo que nela vive.

 

O Axis Mundi

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Axis Mundi, by Leo Plaw ( http://leoplaw.com/artwork/axis-mundi/#.V-A6KYgrLcc )

Na mitologia escandinava, os nove mundos espirituais estavam dispostos num grande freixo-universo chamado Yggdrasil, que é o eixo dos mundos. Ela é semelhante à mitologia celta do País de Gales, onde uma árvore é a separação entre os mundos, estando metade no mundo físico, em chamas, e metade em Annwn, o Outro Mundo, florida e perene. Entre os celtas da Gália, mesmo sem uma mitologia preservada, há o registro romano da cerimonia do corte do visco, onde os Druidas ceifavam os ramos de visco, que eram as árvores que não nasciam da Terra, e sim, nativas do céu (pois nascem no alto dos carvalhos), e o carvalho era o Axis Mundi, aquele que ligava a Terra ao Céu.

 

Deuses, Homens e Sociedade

Na mitologia grega, não há sempre uma harmonia entre deuses e homens. Na divisão do mundo entre eles, Prometeu precisou roubar o fogo dos deuses para dar aos mortais. A origem do ser humano é controversa, pois não é dito quem são seus pais, mas é suposto que eles viessem de Gaia. O mesmo ocorre entre os escandinavos, não é dito quem é o pai dos homens, mas possivelmente Frigga, a esposa de Odin, e deusa da fertilidade. Na mitologia gaélica, os homens vem à Irlanda (a representação do mundo) e não são bem vindos pelos deuses. Mas conseguem entrar quando prometem dar seu nome às três Deusas da Soberania da Irlanda, Bánba, Fótla e Ériu. Então, para a mentalidade indo-europeia, os Deuses não dão algo de graça aos homens, mas precisam ser apaziguados para isso. E um ou mais deles precisa voltar suas atenções para os mortais. No caso, Prometeu, o Titã, deu o fogo aos mortais. Já as Deusas foram aplacadas pela promessa de que seus nomes seriam imortalizadas nas terras da Irlanda. Mas são os deuses que guiam a sociedade mortal. A sociedade grega era um espelho do Olimpo. A sociedade nórdica era criada pelo deus Heimdall, que dividia a sociedade em três castas. A mitologia não só exemplificava a relação do homem com o mundo natural, mas também como organizar a sua sociedade, de acordo com valores próprios. A relação é sempre ambígua, pois para nenhum dos grupos divinos, as coisas eram dadas aos homens de graça; os homens sempre recebiam sua parte dos deuses, mas tinham de merecer isso, ora por oferendas, ora pela intervenção de uma divindade de algum grupo diferente. E a relação entre os deuses de diferentes grupos era uma mostra da relação da tribo/povo com o mundo. Os deuses da Tribo exerciam sua luta contra as forças primordiais, assim como a tribo batalha para sobreviver às intempéries naturais da Terra. Mas a grande batalha nunca é simplesmente vencida, com uma trégua sendo alcançada, seja com a inserção de membros das forças Primordiais no meio dos Deuses tribais (Prometeu, Freyja, Freyr, Njord) ou com o entendimento de que os maiores dos Deuses são mestiços entre Terra e Tribo (Lugh Lamfhada). O povo tem, sim, lutar para sobreviver na Terra, e usufruir de suas artes e capacidades, mas deve entender que é parte da Terra, e viver nesse mundo torna necessário o respeito pela vida, animal, vegetal e todas as outras. Somos parte do mundo, e não prevaleceremos se destruirmos as forças Primordiais. Pelo contrário, precisamos entrar em acordo com elas, como quando Bréas foi poupado pelas Tuatha Déa ao revelar à tribo os segredos das épocas apropriadas ao cultivo.

 

Destino, Carma e Existência Cíclica

Os povos antigos tinham uma visão muito ampla do possível destino dos homens e deuses. A crença hindu em “carma” muito provavelmente é um empréstimo das religiões orientais com o qual os indo-europeus tiveram contato quando partiram para o oeste, pois nenhuma espiritualidade “irmã” possui um conceito tão elaborado. A ideia normalmente é a de que as almas dos homens partem para um Outro Mundo para, em alguns casos, renascer novamente depois. Mas há algumas semelhanças entre a crença cármica e a indo-europeia. Para os antigos gregos, havia as terras para o qual o barqueiro Caronte levaria os mortos, as terras sombrias do Hades. A concepção romana, tão herdeira dos valores helênicos, incluía um outro lugar, os Campos Elísios, para onde almas abençoadas iriam. É uma das mais primitivas distinções entre mundo “superior” e mundo “inferior”, ainda que o Tártaro nunca tenha sido um “inferno”: era a morada dos mortos, apenas. Os Campos eram reservados apenas à almas especialmente abençoadas. Essa concepção também foi aceita na sociedade grega. A ideia escandinava é bem mais complexa, e elaborada, ainda que isso fosse esperado, afinal a cosmologia viking permaneceu vigente até a Idade Média. Os mortos tinham inúmeros destinos, dependendo de suas ações em vida. O mais almejado de todos era o Valhalla, o Salão de Odin-Pai-de-Todos, onde eles treinariam pelo resto das eras do mundo, até a chegada do Ragnarok, quando retornariam a Midgard para a última batalha. Apenas os grandes guerreiros e mais honrados dos homens tinham o direito de serem levados pelas Valquírias para o Salão do Deus-Maior. Assim como havia o mais almejado dos destinos, havia também o mais temido. A dimensão de Hel (cujo nome se tornou sinônimo de Inferno nas línguas germânicas) era o reino escuro dos mortos rejeitados, que teriam suas unhas arrancadas para, com elas, construir o barco Naglfar, que levaria os inimigos dos deuses para a última batalha. Essa concepção, que em alguns pontos tem algo em comum com o Tártaro, tem mais em comum com o Inferno cristão, por ser um lugar de castigo. Pelo fato de a Escandinávia só ter começado a ser cristianizada no século VIII, não é impossível que os contatos entre os Goddar e Skalds vikings com os membros das religiões insurgentes tenham ajudado a moldar esse pensamento, ainda que os motivos para o castigo fossem diferentes: qualquer tipo de pessoa poderia ser condenada ao Inferno pelos cristãos, enquanto apenas os indignos e covardes recebiam o Hel dos vikings. Mas há evidências também de outro destino: os vikings acreditavam que suas almas renasceriam em membros de sua linhagem. Assim, podemos ver que havia também a possibilidade de reencarnação entre eles; podemos especular que, aqueles que não tinham recebido a honra de adentrar os Salões de Odin tinham a possibilidade reencarnar. Os celtas, de acordo com os autores clássicos, tinham uma crença que poderia ser chamada de Metempsicose, que era a transmigração da alma de uma forma para a outra, e que diferia da reencarnação pelo fato de a nova forma não precisar necessariamente humana. A mitologia irlandesa e galesa nos sugerem que ela poderia ser mesmo vegetal, mineral, ou manufaturada, o que estaria condizente dentro do pensamento animista. Também há a menção de que, para os celtas, a morte era a entrada para a “Longa Vida”, que nos sugere a possibilidade de uma passagem por um Outro Mundo antes do retorno. A mitologia Irlandesa nos oferece uma grande variedade de lugares do Outro Mundo, desde a Terra dos Jovens, Terras das Mulheres, Terra do Eterno Verão, e podemos especular que o acesso a cada um desses lugares só era dado a certos homens dignos deles. Ainda que não haja um lugar de castigo, uma sociedade tão meritocrática não aceitaria a existência de um destino que fosse comum a todos, do mais vil ao mais altivo.
Assim como havia uma crença no destino das almas, havia também a crença no destino do mundo. Todos os povos do mundo tinham sua concepção inicial do tempo como sendo cíclico. Esse sistema poderia ser visto em situações macrocósmicas e microcósmicas. Todos os dias, Indra destrói o mundo, e Brahma o recria. É um ciclo de dia e noite eterno. Em todos os anos, há a batalha pela colheita, e a Cath Magh Tuireadh se repete, enquanto tribo e terra disputam por sua sobrevivência, até que chegam ao seu acordo, e terminam suas hostilidades para se recolher no Inverno. É o ciclo anual das estações. No final da Batalha de Moytura, a Morrighan faz a sombria profecia do destino dos homens, prevendo um tempo de homens sem valores, de mares sem peixes e bosques sem árvores. Mas se nos acostumarmos com a visão cíclica, vemos que seria apenas mais um eixo de ciclos, que incluem altos e baixos. Em um ciclo de eras, na mitologia nórdica, um dia virá o Ragnarok, que trará fim ao mundo, homens e deuses, mas através de Ask e Embla, tudo renascerá. O nosso universo um dia terá um fim, mas pode novamente nascer. Quando uma estrela com a força gravitacional devidamente poderosa se apagar, ela poderá atrair tanta massa ao seu redor, que um dia gerará um novo Big Bang, recriando o Universo. Tudo deriva de um ciclo de nascimento e destruição, e ninguém está imune a ele.