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1. Exercícios Básicos de Concentração, Visualização e Extensão dos Sentidos

(por Cunobelinos)

O trabalho das vivências de meditação muitas vezes encontra um problema: a diferença de capacidades dentre os membros para praticar a imersão. Algumas pessoas tem uma habilidade natural para se desprender dos limites do corpo e mergulhar dentro dos reinos do inconsciente, outras nem tanto. Ainda que essa facilidade possa ser maior em algumas pessoas, a habilidade com a meditação pode ser aprendida e desenvolvida da mesma forma que qualquer habilidade: com a prática e treinamento. Assim, para iniciar nossos estudos sobre meditação, gostaria de sugerir alguns exercícios muito básicos e iniciais que ajudarão a desenvolver essa capacidade de nos conectar com o mundo do inconsciente e dos sentidos interiores, que são a forma com o qual nos conectamos com o sagrado). A prática desses exercícios tornará mais fáceis as visualizações e jornadas mais complexas. Obviamente, o uso da palavra “prática” é literal aqui: é necessário praticar os exercícios até que eles se tornem simples, fáceis e, quem sabe, ocorrerem automaticamente. Ainda que não sejam obrigatórios, esses exercícios facilitarão bastante as meditações mais avançadas.

Limpando a Mente

Uma das afirmações mais comuns que escutamos sobre a prática de meditação está na necessidade de “limpar a mente”, de evitar os pensamentos da vida mundana para que não atrapalhem sua meditação. A verdade é que pouquíssimas pessoas conseguem fazer isso. Os nossos pensamentos mundanos estão profundamente entranhados na nossa mente, simplesmente pelo fato de nos preocuparmos com eles por muito mais tempo do que com pensamentos e questões espirituais ou psicológicas. Assim, é difícil esperar que eles simplesmente “desapareçam”; na verdade, quanto mais nos concentramos para que sumam, maior é a probabilidade de que eles se fortaleçam. Há poucas formas de lidar com isso. A mais comum é a de utilizar estímulos externos para ocupar mais espaço da nossa mente racional; nesse aspecto, os estímulos costumam mais comuns costumam ser os aromáticos (incensos apropriados) e os sonoros (instrumentos de percussão principalmente, mas também melodias apropriadas de flautas e harpas, além de cânticos harmônicos e mântricos).

Esses métodos são bastante conhecidos por sua eficácia, mas nem sempre estão disponíveis para todos. Uma forma bastante comum de trabalhar as meditações sem nenhum desses “potencializadores” é utilizar a própria visualização como uma forma de lidar com esses pensamentos. Por exemplo, Diana Paxson, em seu livro Trance-Portation: Learning to Navigate the Inner World, sugere que as visualizações podem incluir a presença de um rio ao seu fundo e cada vez que um pensamento destoante surgir, é possível colocá-lo na correnteza e deixá-lo ir. Na minha prática (muito mais “druídica”), eu costumo visualizar um bosque ao redor, e os pensamentos destoantes andam comigo até se perderem entre as árvores. Pode parecer difícil lidar com isso apenas com a imaginação, mas fica mais fácil com a prática. Até que ela seja desenvolvida, é aconselhável que o praticante fortaleça a visualização observando atentamente fotos, pinturas, descrições mitológicas ou poemas do local a ser visualizado. Com o tempo, ele se tornará único para você, adquirindo características pessoais, mas não há nada de errado em iniciar o seu trabalho a partir de uma “imagem” fixa.

Movendo-se pela Meditação

Uma meditação pode ter muitas funções, mas uma meditação neopagã raramente é uma meditação estática (não quer dizer que meditações estáticas não existam, apenas que são mais raras). Não, a grande maioria das meditações neopagãs, incluindo as druídicas, são meditações de jornada. Essas meditações, inspiradas principalmente pelo xamanismo e pela psicologia jungiana, envolvem o praticante em um processo ativo de movimentação pelo inconsciente e pela sua percepção cosmológica. É um processo que é bem simples, mas que pode se tornar ainda mais simples se for praticado o exercício abaixo, sugerido por John Michael Greer, arquidruida da AODA, em seu sistema de adaptação da Magia Cerimonial para ADF.

 

O exercício padrão consiste de você se imaginar ao longo de um caminho que você conheça bem – como de onde você está sentado agora pelo resto de sua casa ou local de trabalho. Imagine-se levantando do seu computador e fazendo essa “jornada”. Veja cada cômodo em que você entrar; note a mobília, as paredes, o teto, o chão; se houverem janelas, o que o que você consegue ver através delas; se há outras pessoas, note onde elas estão e o que elas estão fazendo. Esteja consciente dos outros sentidos junto à visão: sons, aromas, texturas, temperaturas. Tente fazer movimentos de seu corpo imaginado o tão realistas quanto possível; sinta o chão sob os seus pés, o moldar de seus músculos imaginados, e assim por diante; veja apenas o que está em frente de seus olhos imaginados. Pratique isso regularmente – ao menos uma vez por semana – até que você possa fazer isso facilmente e sem ter que lutar para manter sua mente focada.

 

O Nemeton Pessoal

É uma prática comum dentro do Druidismo a criação de um local sagrado pessoal dentro de nós mesmos. Dentro desse local podem ser trabalhadas devoções aos Deuses, podem ser iniciadas jornadas visionárias, bem como podem ser palco de diversos outros processos meditativos. Permita-se analisar o seu conhecimento do Druidismo e das tradições célticas. Pense no que seria um lugar sagrado para você. Não se permita ficar apenas preso às descrições históricas e/ou mitológicas, mas adicione a sua interpretação pessoal. O que é um lugar sagrado digno de você? Um círculo de pedras? Uma tumba mortuária? Um altar em meio à floresta? Ou uma colina nua em frente ao mar? Uma poderosa montanha inacessível? Uma fortaleza elevada céltica? Este será o seu Nemeton, ele deve refletir a sua própria visão do que é um local sagrado. Uma vez que o tenha definido, decore-o. Acrescente mais detalhes. Eles ficarão cada vez mais vívidos com a sua prática pessoal. O que ele possui? Entalhes nas pedras? Uma fogueira? Uma fonte que corre ao seu lado? Uma forja e uma bigorna? Uma árvore, talvez um grande carvalho? Uma técnica comum é decorar o Nemeton com objetos que reflitam aquilo que está em seu próprio altar em um trabalho ritualístico. Quando você acende uma vela, a fogueira se acende no seu Nemeton. Quando você purifica seu altar com água e incenso, você também o faz em seu Nemeton, só que com a água da fonte e as ervas do local. Outro aspecto importante para a criação do seu Nemeton pessoal é que ele possua “saídas” para locais específicos do Outro Mundo. No caso druídico, essas “saídas” podem ser para os Três Reinos (como um caminho para uma praia, uma montanha, uma floresta; ou uma árvore com uma entrada que vai tanto para o Submundo quanto para os Céus) ou talvez as Quatro Cidades míticas das Tuatha Dé Danann. É através dessas saídas que o Nemeton pessoal se torna ponto de partida para meditações de jornada ou de autoconhecimento. Por último, é comum que seja definida uma “porta” para o Nemeton, sendo estabelecida na forma de um objeto ou símbolo (runa, glifo) que deve ser sua guia para que o ele seja acessado; por exemplo, no exercício sugerido por Greer (acima), você poderia explorar todo o ambiente da sua casa, mas ao passar pela passagem que o leve para fora, você pode traçar esse símbolo como uma forma de chegar ao Nemeton. Obviamente, esse processo (de chegar ao Nemeton pessoal para um trabalho transcendente ou ritualístico) é mais do que psicológico e exige algo mais do que a mera imaginação, mas esta também é parte importante do processo é pode ser treinada. Inicialmente, sua visão do Nemeton pode ser um tanto vaga e indefinida, mas conforme as visitas vão se tornando mais frequentes, mais definição é alcançada e mais detalhes surgem na sua mente. A prática é tudo nesse caso.

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2. Meditação de Centramento

As Meditações de Centramento são parte importante das práticas de muitas espiritualidades pagãs. Elas normalmente são praticadas no início de cada ritual ou cerimônia, e tem alguns objetivos práticos. O primeiro deles é, obviamente, trazer serenidade à mente dos participantes e permitir que eles se foquem nas razões pelas quais estão ali. Muitas vezes a prática do Centramento já traz alguma forma de conectar a todos com os objetivos da cerimônia, apresentando conceitos ligados a ela, como a relação com a ancestralidade, a colheita metafórica, a passagem do tempo. Outro dos objetivos das Meditações de Centramento é o de conectar os presentes com as energias do ritual, fazendo do lugar onde elas ocorrem o simbólico “centro do mundo”, um ponto de onde é possível atingir todos o restante do Cosmos; em termos druídicos, isso pode significar ser o ponto onde se unem os Três Reinos (a Terra, o Mar e o Céu) ou as Quatro Direções, ou mesmo os Dois Mundos. Por último, a Meditação de Centramento ainda pode ter o papel de unir a todos os presentes, ligando as suas energias um ao outro, e trazendo uma noção unidade aos praticantes (tornando-os, por exemplo, em “Bosque Sagrado”, para utilizar um termo comum no Druidismo).

Existem muitas maneiras de realizar uma Meditação de Centramento, cada uma adaptada às práticas e crenças de cada grupo. A forma mais comum de Centramento dentro do Druidismo é a chamada Meditação de Árvore (que possui, por sua vez, uma quantidade muito grande de variações, dependendo do grupo e do objetivo do ritual), mas ela não é, de forma alguma, a única. Contudo, não apenas por ser mais comum, mas também pela praticidade e facilidade de ter seus conceitos absorvidos, nós a apresentaremos aqui como um exemplo para que todos possam praticar. Serão disponibilizadas duas variações: a Meditação da Árvore básica, como é conhecida de grande parte do Druidismo em todo o mundo; e a chamada Visão do Espírito, desenvolvida pelo Bardo Cunobelinos para a Ordem Druídica Ramo de Carvalho e que tem a necessidade da presença de árvores reais para o seu funcionamento. Mais variações podem ser encontradas no Curso Semente da Ordem Druídica Ramo de Carvalho.

A Meditação da Árvore

Escolha uma posição que pareça confortável a você… seja em pé… seja sentado… respire profundamente e comece a acalmar sua mente… independente da sua posição, tente manter sua espinha ereta… então feche os olhos… e continue a respirar profundamente… concentrando-se no seu corpo… voltando sua atenção para a parte inferior do seu corpo… para suas pernas… para seus pés… e perceba o solo abaixo de você… dê sua atenção à ele… à sua textura, o seu formato… e sinta seus pés afundando nele… afundando em direção à terra fria… visualize-os afundando em direção à escuridão… descendo cada vez mais… e se espalhando através dela… transformando-se em raízes…raízes que se espalham cada vez mais em direção às profundezas… até encontrarem as fontes das Águas Primordiais… suas raízes bebem dessa fonte Ancestral…dessas águas frias…e elas sobem… sobem pelas raízes… resfriando os pés… subindo gradualmente… resfriando as pernas… os quadris… o tronco… os ombros… os braços… que se estendem para o céu… subindo mais e mais… subindo e se espalhando… até se tornarem galhos… galhos que sobem em direção aos céus… elevando suas folhas em direção ao Sol… e elas bebem dessa força quente… da força do Astro-Rei… e essa energia luminosa desce… aquecendo suas folhas… seus galhos… seus dedos… suas mãos… seus braços… aquecendo seus ombros… seu tronco… até se encontrarem com as Águas Primordiais na região do baixo-ventre… formando o milagre do Fogo sobre a Água… nesse momento, você e Beliom, a Árvore Sagrada… o Eixo dos Mundos… e assim será até o final de seu trabalho…

A Visão do Espírito

(da Apostila do Curso-Semente da Ordem Druídica Ramo de Carvalho)

O exercício é melhor realizado em lugares abertos, cercado de árvores. A preferência seria por lugares ermos, mas nem sempre esses estão disponíveis. Um parque ou praça servirá
perfeitamente também. A crença céltica era animista, ou seja acreditava que todas as formas de vida (e mesmo certas coisas que não estariam biologicamente vivas) possuem espírito. Esse é um exercício de visualização simples, buscando apenas familiarizar as pessoas com a ideia de que tudo pode ser dotado de matéria espiritual, não é uma viagem astral, portanto, não é possível dizer que o praticante esteja literalmente entrando contato com o espirito de uma árvore, ainda que, para pessoas dotadas de boa sensibilidade espiritual possam realmente conseguir isso já nas primeiras utilizações. A ideia é a de que, quanto mais nos familiarizamos com a natureza de que tudo é possuidor de vida espiritual, mais facilmente poderemos percebê-la, seja com esse exercício, seja com outros mais avançados, e talvez mesmo com a mente em seu estado consciente.

Tendo escolhido um lugar, o praticante deve inicialmente observa-lo com cuidado. Não se
preocupe com as pessoas ao redor, não se preocupe com as pessoas que estão junto com você ou com animais que estejam passando ou voando. Você deve, nesse momento, se preocupar com a vida vegetal ao redor. Mesmo pedras poderiam ser entendidas como possuidoras de matéria espiritual pela crença Celta, mas inicialmente, vamos nos voltar à vida vegetal, que é percebida como tendo um ciclo biológico semelhante ao nosso. As plantas nascem, crescem, vivem e morrem. Então observe as plantas ao redor. Observe as árvores, os arbustos, as gramíneas. Então, escolha uma que lhe seja mais agradável. Ela será sua guia.

Volte então para o local onde estava sentado. Relaxe o corpo novamente. Não deve haver
tensão. Você permanecer totalmente confortável. Então, comece a respirar em um ritmo regular, mas profundo. Quando estiver totalmente relaxado, é a hora de relaxar a mente.
Esqueça todas as suas preocupações cotidianas, esqueça as pessoas ao redor. Simplesmente, relaxe a mente, no seu estado mais despreocupado possível. Sua mente, no momento, é a única coisa que importa, estar uno com seu espirito apenas. Então, visualize a árvore que você escolheu. Você deve imagina-la em todos os detalhes que
você viu da primeira vez. Deve senti-la com seus dedos, sentir seus cheiros, mas apenas com os seus sentidos espirituais. Ela não está mais na praça/parque. Ela está em um bosque, um bosque antigo, junto à suas irmãs. Assim como você está nesse bosque antigo. Você deve escutar os sons do bosque, e ver à todas as árvores desse bosque. Perceber o ambiente. Então, volte para a árvore escolhida.
Você deve então visualizar outra situação. Seus pés ligados à Terra. Seus pés devem sentir o chão, devem sentir a terra fria abaixo dele. Devem afundar. Porque não são mais seus pés e pernas. São raízes. Você deve sentir suas pernas e pés se estendendo através da terra fria, cada vez mais fundo. Seu corpo deve ser rígido e forte como um tronco. Seus braços, longos como galhos. Volte-se à árvore então. Ela não é mais uma “árvore”. Ou melhor, ela é. Mas agora, você semelhante a ela. Ela é sua irmã. Veja-a como uma igual. Como alguém possuidora de espirito. Como alguém que é importante como você. Entenda que ela possui não só vida, mas consciência, como você. Fale com ela, e a agradeça pelas benções que ela lhe dá: pela sombra, pelo ar, pelos frutos, e principalmente, pela guia nesse exercício. Sinta seus braços voltarem a ter flexibilidade, o seu corpo voltar a se mover, sinta as suas raízes se recolherem, alimentadas pela água da terra, e voltarem a ser pés e pernas. Então, respire profundamente três vezes, e abra os olhos. E agradeça à árvore novamente, agora com seus sentidos físicos.