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O termo “Runā antes da Oração” (Rann Romh Urnuigh em Gàidhlig) surgiu pela primeira vez na Carmina Gadelica, a grande coletânea de práticas e crenças folclóricas coletadas por Alexander Carmichael nas Terras Altas da Escócia no século XIX. Em uma rude simplificação preliminar, podemos dizer que essa runā era um tipo de oração/invocação recitada pelos camponeses escoceses antes do início dos trabalhos religiosos do dia. Era uma tradição antiga e já praticamente morta nos tempos de Carmichael, sendo ainda praticada principalmente pelos idosos das comunidades.

Ainda que estejamos falando de uma tradição compilada em sua forma cristã, a forma com a qual essa invocação se estrutura, bem como a maneira com a qual ela se relaciona com o ambiente ao redor (emulando o som das ondas do mar), sugere que a prática é muito anterior ao século XIX em que foi compilada. Além disso, mesmo que ainda possamos ter dúvidas sobre se haveria uma versão dela em tempos pré-cristãos, ela parece ter um objetivo bastante claro: preparar a mente e o espírito para o trabalho sagrado. E essa é uma ideia que o pensamento druídico (e neopagão em geral) conhece bem, vide as práticas de Centramento para entrarmos no estado mental mais propício a mantermos o foco nas nossas práticas. Dessa forma, a Runā antes da Oração acaba se tornando algo completamente compreensível e adaptável à nossa prática pessoal.

Talvez algumas pessoas estranhem a utilização do termo “runā” dentro da tradição céltica, uma vez que normalmente conhecemos as Runas como uma característica típica dos povos germânicos. Em verdade, a escrita rúnica é realmente algo associado a essas populações, porém o termo “runa” tem uma origem bem mais arcaica, possivelmente sendo uma palavra indo-europeia para “segredo”, “poesia”. A etimologia das palavras no gaélico (rann, “verso”) e no galês (rhynn, “rima”) parecem corroborar com essa interpretação. Assim, aqui o termo “runā” se refere a esse tipo de poema encantatório e invocatório, não à escrita germânica, muito mais conhecida.

Abaixo seguirá o texto de Carmichael na íntegra para que possamos continuar a nossa discussão.

Pessoas idosas nas Ilhas cantam este ou outro hino curto antes da oração. Às vezes, o hino e a oração são entoados em cadências um pouco trêmulas e sem métrica, como o movimento e o gemido, o sussurro e o suspiro, do mar sempre murmurando em suas próprias praias selvagens.

Eles geralmente se retiram para um armário, para um banheiro externo, para o sotavento de um outeiro, ou para o abrigo de uma vala, para que não sejam vistos nem ouvidos pelos homens. Eu sei que homens e mulheres de oitenta, noventa e cem anos de idade continuam a prática de suas vidas, indo de uma a duas milhas à beira-mar para unir suas vozes com a voz das ondas e seus louvores com os louvores do mar incessante.

 

Gàidhlig Português
TA mi lubadh mo ghlun
An suil an Athar a chruthaich mi,
An suil an Mhic a cheannaich mi,
An suil an Spioraid a ghlanaich mi,
Le caird agus caoimh.
    Tre t’Aon Unga fein a Dhe,
Tabhair duinn tachar ’n ar teinn,
        Gaol De,
        Gradh De,
        Gair De,
        Gais De,
        Gras De,
        Sgath De,
        Is toil De,
Dheanamh air talamh nan Tre,
Mar to ainghlich is naoimhich
A toighe air neamh.
    Gach duar agus soillse,
    Gach la agus oidhche,
    Gach uair ann an caoimhe,
    Thoir duinn do ghne.
Eu curvo meu joelho
No olho do Pai que me criou,
No olho do Filho que me recebeu,
No olho do Espírito que me purificou
Em amizade e afeição.
Através de Teu próprio Ungido, ó Deus,
Outorga sobre nós a plenitude em nossa necessidade,
O amor de Deus,
A afeição de Deus,
O sorriso de Deus,
A sabedoria de Deus,
O medo de Deus,
E a vontade de Deus
Para fazer no mundo dos Três,
Como anjos e santos
Fazem no céu;

Cada sombra e luz,
Cada dia e noite,
Cada vez em gentileza,
Dai-nos Vosso Espírito

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Arte por Adrien Amilhat

Com isso, podemos iniciar o pensamento sobre como seria uma runā pagã. Antes de tudo, devemos notar que ela, além de ser uma oração, encantamento ou invocação, é um cântico. A tradição céltica é uma das que mais valoriza a música como forma de ligação com o Divino. Portanto, ela deve ser cantada, entoada de forma trêmula e sem métrica, de forma semelhante ao murmúrio do mar. E como seria esse canto, então? A semelhança que provavelmente melhor podemos encontrar é o Sean Nós irlandês ou escocês, um tipo de cantar livre, sem regras estabelecidas ou rígidas, formado principalmente pelo alongamento das sílabas e a entonação de rimas. Assim, ao mesmo tempo em que o cantar dessa runā é livre, é necessário ao menos conhecer a estrutura do poema para conseguir manter uma musicalidade apropriada. Nesse quesito, é sempre bom procurar por vídeos de Sean Nós no Youtube para ao menos ter uma ideia de como esse canto se estrutura. No caso específico da runā, é importante alongar as sílabas e tentar soar como as ondas do mar. Esse é um dos aspectos mais simbólicos da Runā Antes da Oração, uma vez que o mar é visto na tradição céltica como uma das portas para o Outro Mundo.

Outro aspecto interessante a se notar é a importância de que essa prática não seja interrompida, evidenciando que este é um momento de concentração. Por isso, as pessoas que a praticavam se isolavam em lugares onde não seriam interrompidas. Porém, também há a citação que os idosos peregrinavam para cantar o hino junto às ondas, mesclando-as ao próprio som do mar, talvez um resquício do reconhecimento da liminaridade do oceano com o Outro Mundo. Assim, é perfeitamente possível realizar a Runā sossegadamente perante o seu altar. Já em ritos coletivos, é uma situação diferente e podemos nos inspirar no exemplo dos camponeses das Terras Altas e cantar em uníssono (nesse caso é importante que todos conheçam a melodia), talvez visualizando o mar e as Ilhas Além das Nove Ondas. Com um processo prévio de respiração, a visualização, e um canto bem elaborado e com uma sonoridade apropriada (como citado no parágrafo anterior) sendo repetido algumas vezes, a Runā pode se tornar um processo de meditação e centramento muito poderoso, além da própria invocação em si.

Após isso, podemos pensar sobre como estruturar a em si, utilizando a original como base. O que apresentaremos aqui é meramente uma das muitas possibilidades de adaptação, e é extremamente recomendado que cada praticante ou grupo elabore uma versão própria, uma vez que, como citado no texto de Carmichael, não havia apenas um hino possível de ser utilizado nessa situação. Dito isso, podemos começar.

O primeiro verso da Runā diz: “Eu curvo meu joelho”. Ainda que não exista nenhum problema em manter esse trecho exatamente assim, é muito comum dentro das diversas vertentes do paganismo celta a ideia de que os Deuses não pedem que nos curvemos, pois esse seria um sinal de submissão vindo do cristianismo. Não temos como afirmar ou negar peremptoriamente se os antigos celtas se curvavam ou não aos seus Deuses. Ainda assim, há aqueles que veem esse ato como um sinal de reverência aos Altíssimos e não teriam problema em manter esse trecho como está. Para os que não pensam assim, há a necessidade de alterar esse trecho. Mas com o que? Uma sugestão possível de ser dada veio do livro Xamanismo Celta, de John Matthews. Nele, o autor sugere que no Caldeirão de Gundestrup estão representadas três formas gestuais para diferentes processos rituais. A primeira seria com os braços abertos e com os cotovelos dobrados para levar os antebraços e mãos para cima e representaria uma posição de “oração” (e essa ideia é um tanto confirmada por essa ser uma posição indo-europeia de contato com o Divino chamada de Órans). A segunda seria com ambos os braços cruzados sobre o peito, com os mãos próximas aos ombros, mas não acima deles, e ela representaria um “agradecimento”. A terceira posição teria o braço esquerdo (ou direito para canhotos) cruzado sobre o peito, enquanto o outro braço estaria parcialmente estendido, com a mão em concha e palma virada para cima, como se estivesse dando algo a alguém; essa posição representaria uma “dádiva”. Assim, temos não apenas várias opções para enriquecer a prática da Runā, mas também para propósitos diferentes. Porém, obviamente, estamos falando apenas de sugestões, sendo que cada um pode alterar ou não esse verso da forma que pareça mais apropriada.

Os três versos seguintes são também de uma referência cristã bastante forte. Porém, ainda podemos aproveitar essa referência à triplicidade, uma vez que ela é tão presente na tradição céltica quanto na cristã. Os versos dizem No olho do Pai que me criou / No olho do Filho que me recebeu / No olho do Espírito que me purificou. Aqui, ao entrarmos na primeira menção de divindade, talvez o melhor caminho seja seguir a direção do politeísmo. Porém, quais seriam as deidades adequadas? Estamos falando aqui da expressão divina máxima do cristianismo, a Santíssima Trindade. Qual seria a expressão tríplice divina mais relevante do pensamento céltico? Uma vez mais, aqui trago uma sugestão, não uma regra. Por diversas razões, utilizo aqui os três Deuses que participaram do anrúm antes da Segunda Batalha de Magh Tuiread. Seu papel parece entrar perfeitamente na tríade divina indo-europeia, basicamente uma Trimurti céltica. Porém, essa não é, nem de longe, a única possibilidade. Deusas femininas podem ser incluídas, ou Deuses que se encaixem melhor na opinião dos ritualistas no esquema de Pai, Filho e Espírito Santo, além, é claro, da possibilidade da utilização de outros panteões célticos (aqui preferi manter apenas o panteão gaélico em nome da praticidade). A forma com que trabalhei aqui, contudo, é essa: Aos olhos do Dagda que me criou (o Dagda, o “Bom Deus” da tradição gaélica, é também o Ollathair, o “Pai de Todos”, sendo assim apropriado para a posição do “pai”) / Aos olhos de Lugh que me apoiou (Lugh, o deus das muitas artes, é o mais jovem desta tríade divina; aqui também altero o verbo “receber” por “apoiar”, uma vez que Lugh é um herói, um salvador e um guerreiro, mas o verbo pode ser igualmente alterado para uma outra deidade) / Aos olhos de Oghma que me purificou (Oghma é o último dos deuses a ser citado aqui, e por ser o inventor do Ogham, é uma deidade profundamente ligada à magia, sendo apropriado para o papel de purificador)

O quarto verso termina a primeira estrofe com em amizade e afeição. Esse trecho não precisaria realmente de alguma alteração, mas é sempre possível substituir algo que não se ache apropriado. “Aliança”, “alegria”, “plenitude”, “bênção”, ou diversas outras qualidades podem ser usadas no lugar.

Os dois versos seguintes, Através de Teu próprio Ungido, ó Deus / Outorga sobre nós a plenitude em nossa necessidade, praticamente só precisam ser adaptados para uma perspectiva politeísta para funcionar, mas essa adaptação deve ser coerente. A sugestão a ser utilizada aqui: Através de Vossas bênçãos, ó Deuses / Concedam-nos a plenitude em nossa necessidade.

Os versos anteriores introduzem o corpo da estrofe da Runā, onde as bênçãos são invocadas. A original, como sabemos, está sob uma perspectiva monoteísta, e como na segunda estrofe, é necessário conhecer as deidades com que se trabalha para a adaptação. Escolhemos deidades do panteão gaélico que são relacionadas a essas características invocadas, embora muitas outras também fossem possíveis. Vale dizer, não é necessário que sejam apenas essas as características a serem invocadas, mas as manteremos aqui para manter a didática e tornar o material claro. E claro, repetimos aqui, todas as adaptações que fazemos são sugestões nossas, sendo que todos são livres para recriar suas próprias Runās através de padrões próprios: O amor de Bríghid / A afeição de Macha / O sorriso de Oéngus / A sabedoria de Manannán / O temor de Morrigú / E a vontade de Nuada.

Os próximos três versos trazem uma visão interessante, onde é citado o “mundo dos Três”. Pelo fato de a triplicidade seja uma constante tanto no pensamento céltico quanto no cristão, temos aqui um trecho que exige alguma interpretação. Se interpretarmos o “mundo dos Tres” como uma referência aos Três Reinos da cosmologia céltica, o primeiro verso não precisa de nenhuma alteração. O segundo é facilmente adaptável, dependendo da sua própria visão “Como os Deuses”, “Como os ancestrais”, “Como os Sidhe”, “Como Deuses, Ancestrais e Sídhe”, “Como os espíritos”. O último verso também seria simples, mas fatores como visão cosmológica e entidades apeladas são algo a ser levado em consideração: “Fazem no Outro Mundo”, “Fazem nas Ilhas Abençoadas” (se voltado aos Ancestrais), “Fazem nos bosques, ermos e florestas” (se voltado aos espíritos da natureza) …

Os últimos versos parecem os mais simples de manter, mas ainda precisam de alguma atenção aos detalhes. Os três primeiros (Em cada sombra e luz/Cada dia e noite/Cada vez em gentileza) talvez não precisem de nenhuma adaptação (ainda assim, elas ainda podem receber ajustes dependendo de você), mas o último verso, “Dai-nos Vosso Espírito”, pode ser um ponto que talvez pareça cristão demais para a maioria dos pagãos. A bênção do Espírito Santo é vista como a maior dádiva que um cristão devoto pode receber e esse trecho representa exatamente isso. Para um pagão que tem uma relação com suas deidades próxima a esse pensamento, talvez não seja necessário nenhuma alteração. Outros podem preferir solicitar aqui a bênção diretamente, ou mesmo algo apropriado aos trabalhos espirituais a serem realizados no dia (de cura, inspiração, alegria…). Como dissemos em outros momentos, a forma e estrutura da Runā como prática pagã ainda é algo a ser trabalhado e desenvolvido, e dificilmente se tornaria algo uniforme e padronizado dentro do paganismo contemporâneo. Assim, podemos ver como ela ficaria a partir da linha de pensamento que seguimos (lembrando que apontamos diversas variações possíveis também).

Eu ergo minhas mãos
Aos olhos do Dagda que me criou,
Aos olhos de Lugh que me apoiou,
Aos olhos de Oghma que me purificou
Em amizade e aliança.

Através de Vossas bênçãos, ó Deuses,
Concedam-nos a plenitude em nossa necessidade
O amor de Bríghid
A afeição de Macha
O sorriso de Oéngus
A sabedoria de Manannán
O temor de Morrigú
E a vontade de Nuada.

Para fazer no mundo dos Três,
Como os Deuses, Ancestrais e Sídhe
Fazem no Outro Mundo;

Em cada sombra e luz
Cada dia e noite
Cada vez em gentileza
Concedam-nos a vossa bênção

A Utilização da Runā

A Runā, como foi explicado, era uma prática a ser utilizada antes do início dos trabalhos espirituais da comunidade. Ela tinha, em princípio, a função de preparar os seus praticantes para os mesmos, permitindo que entrassem nos estados mentais adequados já com essa função. Assim, ela possui uma função que pode servir de forma semelhante ao Centramento, atraindo para o praticante as ideias de conexão com os Reinos e o mundo divino já durante a sua entonação. Ela pode, inclusive, se adiantar a outros processos litúrgicos também, tais como aberturas de portais, conexões com os Três Reinos ou chamados às Três Famílias Divinas. Vale lembrar que a Runā é um cântico, que era entoado em um ritmo baixo e cadenciado, tal como as ondas do mar. Não se preocupe tanto com questões métricas, pois o original também não as tem. Como o sean nós irlandês ou escocês, é uma forma de canto livre, que se vale principalmente da entonação e alongamento de sílabas para a criação de sua melodia (obviamente, em práticas em grupo, é interessante que todos conheçam a melodia). Dentro da prática pagã, ela pode ajudar a variar os ritos (para que não se fique preso eternamente a uma única forma litúrgica), bem como a empregar uma prática mais orgânica e menos cerimonial, e ainda com ligações com a tradição céltica.