O Vinho dos Gauleses e a Dança da Espada

(Gwin ar Challaoued, há Korol ar C’uleze)

Por Hersart de la Villemarqué (1815-1895)
tradução para o inglês por William Sharp
versão em português por Wallace Cunobelinos

Notas da Versão em Português:

Essa é uma canção guerreira. Não há outra forma de descrevê-la. Muitos se perguntam sobre como se pareceriam as antigas canções guerreiras dos Celtas. Talvez essa canção traga uma resposta. Quanto Hersart de la Villemarqué publicou as suas Barzaz Breiz, muitas dúvidas foram colocadas em dúvida sobre sua obra; em uma época onde as discussões sobre Iolo Morgannwg e James Macpherson eram comuns, um trabalho como esse realmente seria contestado. Porém, após anos de discussão, a conclusão comum era a de que boa parte do material apresentado por ele realmente pertencia ao folclore da sua Bretanha Francesa natal, por vezes sendo reescrito e adaptado por ele. No caso desta canção, ela possui um inegável apelo antigo, e o arcaísmo de sua linguagem (particularmente de sua segunda parte) indicam que realmente estamos falando de uma peça pertencente a uma época muito anterior a Villemarqué, e o fato de ela realmente ser cantada nas tavernas bretãs de sua época praticamente retira o risco de ter sido uma criação dele.

Agora, por qual razão esse texto está na parte de ‘Filosofia’? Porque é o único lugar onde ele poderia (e deveria) estar. Ele mostra uma face muito conhecida dos povos celtas (a face guerreira), mas que costuma ser esquecida ou ignorada por muitas pessoas. O entendimento do quão facilmente os Celtas se entregavam à batalha, e do quanto elas tornavam essas batalhas fonte de poesia, canção e alegria é uma importante lição, não para que mimetizemos o passado (pois ninguém está sugerindo que alguém deveria retornar ao mundo antigo), mas para que aprendamos a transformar nossas próprias agruras e batalhas pessoais também em algo digno e a levar nossas vidas com alegria. Um segundo aspecto bastante visível na canção é o amor céltico pela celebração; os Celtas eram conhecidos pelas suas celebrações, banquetes e alegria, e tudo isso é visível  na canção. Apesar de o vinho saqueado dos Francos ser a preferência na canção, todas as bebidas citadas são tradicionais da Bretanha Francesa. 

O refrão evoca valores guerreiros e espirituais do mundo céltico: fogo e aço, do mundo guerreiro, carvalho e terra, do mundo céltico, e as ondas do Outro Mundo, destino final dos guerreiros que caem. A segunda parte da canção tem sido interpretada como sendo uma peça à parte, mesmo que possua o mesmo refrão. Ela parece (ou pelo menos tem sido interpretada como) se referir a uma dança da espada em homenagem a uma deidade solar, uma deidade portadora de uma espada, possivelmente. Ainda que não tenhamos mais informações, a teoria parece possuir pertinência, mesmo porque a linguagem no qual essa parte da canção está registrada é consideravelmente mais arcaica do que a primeira; por isso, há alguma possibilidade de que realmente estejamos falando de uma canção que pode retroceder a tempos pagãos, ainda que não haja uma comprovação disso. Feitas essas considerações, vamos às considerações do tradutor original, William Sharp, e às tradução da canção. 

 

Argumento:

Não somos ignorantes sobre o fato que, no século VI, os Bretões muitas vezes faziam excursões ao território dos seus vizinhos, sujeito à denominação dos Francos, os quais eles chamavam pelo nome geral de Gauleses. Essas expedições, tomadas na maioria das vezes pela necessidade de defender sua independência, também eram às vezes realizadas pelo desejo de se proverem no país do inimigo com o que lhes faltava na Bretanha Francesa, principalmente com vinho. Tão logo o outono chegava, dizia Gregory de Tours, eles partiam, seguidos por carruagens, e supridos com instrumentos de guerra e de agricultura; armados pelo vinho da época. Se as uvas ainda estivessem nas videiras, eles a colhiam por si mesmos; se o vinho estava feito, eles o levavam embora. Se eles estivessem apressados demais, ou fossem surpreendidos pelos Francos, eles o bebiam no local; então, levando os vindimadores como cativos, eles alegremente retomavam para suas florestas e seus pântanos. A peça que se segue foi composta, de acordo com o ilustre autor dos “Relatos Merovíngios”, no retorno de uma dessas expedições. Alguns frequentadores de tavernas da paróquia de Coray a entoam, com os copos em mãos, mais pela melodia do que pelas palavras; o espírito primitivo, graças a Deus, eles deixaram de se apegar.

I

Melhor o vinho branco de uvas do que o de amoras; melhor é o vinho branco de uvas.
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Sangue vermelho e vinho branco, um rio! Sangue vermelho e vinho branco!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Melhor vinho novo do que cerveja; melhor vinho novo!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Melhor vinho espumante do que hidromel; melhor vinho espumante!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Melhor vinho dos Gauleses do que o de maçãs; melhor o vinho dos Gauleses!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Gália, videiras e folha por ti, oh monturo! Gália, videira e folha para ti!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Vinho branco para ti, amável Bretão! Vinho branco para ti, Bretão!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Vinho e sangue fluem misturados; vinho e sangue fluem!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Vinho branco e sangue vermelho, e sangue grosso; vinho branco e sangue vermelho!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Esse é o sangue dos Gauleses que flui; o sangue dos Gauleses.
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

No duro embate eu bebi vinho e sangue; eu bebi sangue e vinho!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Vinho e sangue nutrirão quem os bebe; vinho e sangue nutrirão!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

II

Sangue e vinho e dança, Sol, para ti! Sangue e vinho e dança!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

E dança e canção, canção e batalha! E dança e canção!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Dança da espada em rodadas; dança da espada!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Canção da espada azul que mata o amor; canção da espada azul!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Batalha onde a espada selvagem é rei; batalha da espada selvagem!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Oh espada! Oh grande rei do campo de batalha! Oh espada! Oh grande rei!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

Que o arco-íris brilhe em tua fronte! Que o arco-íris brilhe!
– Oh fogo! Oh fogo! Oh aço! Oh aço! Oh fogo! Oh fogo! Oh aço e fogo! Oh carvalho! Oh carvalho! Oh terra! Oh ondas! Oh ondas! Oh terra e carvalho!

 

 

 

Nota

É possível que a expedição ao qual essa canção se refere tenha ocorrido no território dos Nantais; pois seu vinho é branco, como aquele do qual o bardo fala. A diferentes bebidas atribuídas aos Bretões – vinho de amoras, cerveja, hidromel, vinho de maçã ou cidra – também são aqueles que eram usados no século VI.

Sem nenhuma dúvida, nós temos aqui duas canções juntas, unidas pelo poder do tempo. A segunda começa na décima terceira estrofe, e é um hino guerreiro em honra ao sol, um fragmento da Dança da Espada dos antigos Bretões. Como os Gael e os Germanos, eles tinham o hábito de se entregar a ela durante seus festivais; ela era executada por homens jovens que conheciam a arte de saltar circularmente no ritmo, ao mesmo lançando suas espadas para o ar e pegando-as novamente. Isso é representado pelos três medalhões célticos na coleção de M. Hucher: em um, um guerreira pula para cima e para baixo, enquanto brandindo seu machado de batalha em uma mão, e com a outra atirando-o para cima, por trás de seu longo e esvoaçante adereço de cabeça; em um segundo, um guerreiro dança perante uma espada suspensa e, diz M. Henri Martin, ele está obviamente repetindo a invocação:

“Oh, espada, grande chefe do campo-de-batalha! Oh, espada, oh, grande rei!”

Isso, como é óbvio, nos jogaria de volta ao paganismo aberto. Ao menos, é certo que a linguagem das últimas sete estrofes é ainda mais antiga do que as das outras doze. Como na sua forma, a peça inteira é regularmente aliterada de um ponto a outro, como as canções dos bardos primitivos; e como elas, está sujeita à lei do ritmo ternário. Eu não tenho necessidade de fazer nota de que um encontro de espadas é trazido aos ouvidos, e que estridente explosão a melodia inspira.

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