Gländorîgs

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Era um dia do final do Giamos, mas já abençoado pela luz de Belenos e Grannos, prenunciando a chegada definitiva da estação de Brigantia. E o Ramo de Carvalho caminhou nesse dia para um canto menos conhecido da sua própria cidade, uma das áreas ainda não exploradas pela Tribo. O Ramo de Carvalho partia para encontrar o Gländorîgs, o ‘Rei do Vale’, e não imaginávamos o quão desafiador ele poderia ser, ou quão valiosas seriam as suas lições para nós. Poucos dos veteranos da Tribo que se Senta sob os Ramos de Carvalho partiram nessa empreitada, apenas Wallace Cunobelinos, Samantha (dos Filhos da Aveleira), e Ana (das Dádivas de Orna), mas um grande número dessas valorosas sementes de carvalho estavam presentes (Lucas, Beansidhe, Nayane, Flavia, Carla, Deh, Adriana, Jhully, Daniel), bem como convidados da família de Ana.

Tão logo nos encontramos na entrada (algo que tomou algum tempo, uma vez que o grupo estava dividido em dois) da famosa Trilha do Pai Zé, começamos a subida ao topo do Gländorigs, Jaraguá na língua Tupi. As placas nos avisavam que a trilha era difícil, mas essa dificuldade não era visível no início; era apenas uma subida, uma subida longa, com pequenos espaços de caminho plano e até algumas descidas. A natureza local deleitava aos nossos olhos, tanto físicos quanto espirituais, tanto a abundante vegetação quanto a fauna, composta de aves que cantavam ocultas nas árvores, e macacos que nos observavam enquanto passávamos; alguns estavam tão acostumados com o contato humano que desciam das árvores para nos saudar. Por mais simpático que possa parecer, carrega já uma lição: a presença humana no território desses animais está se tornando constante por demais, ao ponto de alterar o seu comportamento. A trilha foi usada por tropeiros e missionários muito tempo atrás e encontramos sinais da sua passagem, como o relicário que agora está vazio, mas que antes guardava a imagem de alguma santa, certamente uma forma de pedir a benção para a subida que viria.

Quanto mais subíamos, mais difícil ficava; em alguns pontos a trilha se inclinava e ficava mais íngreme, mas nunca a ponta de precisar ser ‘escalada’, apenas tornando-se um esforço maior para as pernas. Quanto mais alto mais a vegetação acima rareava, e mais expostos ficávamos à força do astro-rei; era meio da tarde, e o calor era implacável. Mas havia algo mais; logo se tornava perceptível o cheiro de fumaça, e ele ficava cada vez mais forte ao longo do caminho. Isso não ajudava em nada, na verdade dificultava a respiração. No trecho final a vegetação some quase que completamente; a exposição ao sol é total, e o cheiro da fumaça proveniente das queimadas nas terras abaixo também era forte. Mas todos continuaram, alguns no limite das forças, outros um pouco melhores, mas a subida ao topo do Gländorîgs não foi abandonada por ninguém. Finalmente todos chegamos ao ponto de descanso, e completamos a subida. Era a hora de sentar, comer, rir, e descansar. Mas a subida não estava completa: havia um trecho final de subida, a chegada ao topo, vencer o desafio final do gigante. Mas quantos de nós teriam pernas para isso, testadas como foram ao longo da subida? No final, apenas quatro tiveram as condições necessárias para completar esse trecho da subida, feito em uma escadaria (o que não facilitou em nada, uma vez que era longa e íngreme): Samantha, Daniel, Karla, e este cão que vos late. Mas a recompensa estava lá: uma visão espetacular da nossa cidade, para qualquer direção que só olhasse. O desafio do gigante estava vencido.

Mas não de todo; a descida nos trouxe mais desafios. A queimada havia se espalhado pela floresta, e a guarda-florestal não permitia a ninguém descer por ela. Tivemos de voltar pela estrada, um caminho muito mais longo e melancólico, e os membros do Ramo de Carvalho mostraram consciência ao recolher o lixo humano largado nas bordas da mata. Mas essa foi a principal lição do desafio do Gländorîgs, a de que a natureza hoje é profundamente afetada pela atividade do homem, e essa atividade é muitas vezes daninha e prejudicial. É uma lição que aprendemos no dia-a-dia, nos telejornais, mas nesse dia aprendemos no sentido prático dela. E aprendemos o quanto a ligação com a Terra é esquecida nos nossos dias. Por isso, também aprendemos a importância daqueles que aprendem que a ligação com Ela é algo sagrado, e o quanto temos a ensinar. O desafio do gigante Gländorîgs, o Rei do Vale, foi vencido; que cuidemos da Terra, para que ainda haja gentis gigantes como esse no futuro, dispostos a nos ensinar lições e recompensar com beleza.

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