História do Ramo de Carvalho

 

Não há história sem um início, e todas as jornadas precisam de um passo inicial. A Ordem Druídica Ramo de Carvalho não é o início dessa jornada (e também não é o final dela), pois ele nasce de um processo contínuo dentro do paganismo celta nacional. Vários estágios e desafios foram superados para que ele viesse a existir e adquirisse a sua forma atual. Os celtas e o Druidismo tem sua história, a espiritualidade céltica no Brasil tem a sua história, e a Ordem Druídica Ramo de Carvalho tem a sua história.

 

O Semear: Os Tempos da Ordem Druídica do Brasil

Toda árvore precisa de um campo para nascer, uma terra para sua semente se sentir acolhida, e a água que nutrirá e lhe dará força para germinar, brotar, e irromper em direção aos céus. A Ordem Druídica Ramo de Carvalho teve seu local de plantio em uma iniciativa de um norte-americano que tornou a nossa terra o seu lar: Robert Kaucher, e a Ordem Druídica do Brasil. Bob, como era (e ainda é) conhecido por nós, veio para o Brasil em 1996, e iniciou o trabalho de criar uma ordem druídica em território nacional, inspirado pelo jovem movimento do Reconstrucionismo Celta dos EUA. Seus esforços para encontrar interessados em Brasília, contudo, foram infrutíferos; por isso ele voltou seu trabalho para divulgar sua iniciativa através da internet em todo o território nacional, principalmente através da mailing-list Creideamh.

Na época o movimento druídico no Brasil ainda era bastante descentralizado e isolacionista, formado principalmente por grupos derivados do ‘Renascimento Druídico’, com alguns grupos nascidos das visões mais recentes do Druidismo, com um maior embasamento histórico e uma abordagem mais ‘tribal’ e natural. A ODB tinha por diferencial uma abordagem próxima do Reconstrucionismo Celta, com um sistema de treinamento que envolvia história, linguística, e cultura; porém o seu sistema era, ao mesmo tempo, completamente aberto a reformulações. Ele era disponível para todos, uma atitude que sempre foi admirada pelos membros fundadores do Ramo de Carvalho.

Os trabalhos da ODB ocorriam principalmente via lista de discussões (a já citada Creideamh), e Bob teve a ajuda de muitos membros da comunidade druídica nacional para produzir e traduzir textos para o português, gerando aquela que foi uma das melhores páginas sobre Druidismo (e sobre o paganismo em geral) da sua época. Entre os membros dessa época estavam Endovelicon  e Wallace Cunobelinos (que chegou ao grupo quando ele já caminhava para o seu final, mas que foi profundamente afetado pela ideia por trás da ODB, de um Druidismo com características reconstrucionistas, aberto e público). Infelizmente  Bob teve de retornar ao seu país em 2002, e Ordem Druídica do Brasil não resistiu à sua partida; tentativas de retomar o mesmo trabalho ocorreram, mas era algo muito difícil de ser feito sem a coordenação central de seu fundador.

No final, a ODB terminou por se desmanchar; mas ela permanece viva em todos os grupos que nasceram posteriormente, fundados por seus antigos membros (incluindo o Ramo de Carvalho). Ainda que muito tenha mudado ao longo dos anos, é inegável que ainda é possível ver um pouco dela nos seus grupos ‘descendentes’, principalmente na abordagem séria e aberta do Druidismo. A ODB foi o nosso campo de semear, onde a semente foi plantada; sempre seremos gratos a ela (e ao seu fundador, Robert Kaucher) por direcionar a nossa caminhada druídica naquela época.

 

A Maturação do Primeiro Semear: O Projeto Ramo de Prata

 

O final da ODB foi algo difícil de superar para grande parte dos seus membros. Tentativas de retomá-la foram feitas por vários dos seus membros antigos. Um grupo específico, centrado em São Paulo, mas também com membros no Rio de Janeiro e no exterior, decidiu tentar retomar o trabalho de onde havia parado. Esse grupo incluía Endovelicon, Wallace Cunobelinos e Meggan (citando aqueles que fazem hoje parte da Ordem Druídica Ramo de Carvalho, mas preservando a privacidade dos demais), dentre outros. Infelizmente, por um desentendimento com outros membros antigos, foi decidido que o trabalho seria mantido, mas que o nome da Ordem Druídica do Brasil não seria mais utilizado. Assim, em 2005, nasceu o Projeto Ramo de Prata.

Com o nome escolhido por Endovelicon (uma referência ao lendário ramo que era ofertado por Manannán mac Lir aos reis como um sinal da sua permissão de adentrar o Outro Mundo), o projeto Ramo de Prata teve início na época do início da febre brasileira pelas redes sociais (na época, o Orkut). Assim seus membros se tornaram extremamente ativos na divulgação virtual dos seus estudos, utilizando-se de ferramentas hoje esquecidas, como o Orkut, as redes do Yahoo!, e chegou também a ter uma rede social própria no Ning. Naquele momento seus membros se aproximaram mais do movimento do Reconstrucionismo Celta, ajudando na tradução do FAQ Reconstrucionismo Celta para o português, ainda hoje um documento de inestimável importância para aqueles que desejam se aproximar dessa caminho. Também foi o momento em que

O período do Ramo de Prata foi de extremo aprendizado para todos. No final, contudo, o grupo não conseguiu manter suas atividades de forma coordenada. Ainda que o grupo existisse, os seus membros passaram a se dedicar aos seus núcleos particulares, algo compreensível. Em São Paulo, um desses núcleos, formado por Wallace Cunobelinos, Endovelicon e Ricardo Aguiar continuaram o trabalho formando um pequeno grupo ritual, que passou a realizar suas cerimônias em Cotia, no interior de São Paulo. Esse grupo manteve a chama do Ramo de Prata acesa, ao menos até que um momento de novo semear chegasse.

 

A Nova Semente: O Ramo de Carvalho

 

O Ramo de Carvalho surgiu quando Wallace Cunobelinos foi convidado a coordenar um grupo de estudos com base no Reconstrucionismo Celta em São Paulo. A primeira reunião desse novo grupo ocorreu em 27 de setembro de 2009, onde os primeiros candidatos a membro apenas se encontraram para se conhecerem pessoalmente. A verdade é que o grupo ainda não estava pronto, nem mesmo o material de estudos. Apenas em fevereiro de 2010 o grupo de estudos realmente se estabeleceu, tendo uma base de estudos profundamente influenciada pelo Reconstrucionismo Celta.

Os primeiros anos do Ramo de Carvalho foram uma sequência de erros e acertos, em todos os aspectos. O grupo precisou começar tudo do zero, não apenas nos estudos, mas também nas práticas ritualísticas, organização e relações interpessoais. Graças a isso, membros importantes terminaram por deixar o grupo. Da primeira turma, além de Cunobelinos, apenas Lewkokreddyos e Vera ainda constam como membros ativos. Uma das lições mais importantes aprendidas nesse período inicial é que era muito difícil dar continuidade aos estudos após o nível inicial, de dedicante. Era necessário que um sistema de estudos avançados fosse desenvolvido para cada senda, algo que levaria tempo para ser estruturado. O curso inicial (“Semente”) também sofreu pequenas alterações nos anos que se seguiram.

A terceira turma-semente foi marcante, pois foi a maior até então. O Ramo de Carvalho nasceu em um período de grande efervescência do Druidismo brasileiro (pois no mesmo momento nasciam o Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico e o Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta) e no ano de 2012 essa movimentação atingia também o seu ápice. Nessa época também a verve reconstrucionista do Ramo diminuiu (ainda que nunca tenha desaparecido por completo), recebendo mais influências do Xamanismo e do Druidismo tradicional. Essa foi a turma que legou o maior número de membros ainda ativos dentro da Ordem, incluindo aí Aiduâ, Widluâ, Suwids, Mônica, Lívia e Samantha. Também foi a turma que agregou Endovelicon (do Projeto Ramo de Prata) aos seus estudos e práticas, trazendo toda sua experiência para o grupo. Também foi decidido naquele momento que as turmas-semente ocorreriam no espaço de dois anos, assim seria possível cuidar do processo de especialização dos veteranos de forma mais completa.

A quarta turma foi a primeira após o intervalo de um ano decidido pela terceira. Foi a maior turma até então, com muitos membros talentosos e ativos. O curso em si já era bastante diferente do original e foi a primeira vez que Cunobelinos não foi o único responsável pelo ensino dos sementes, com muitos membros ajudando nas aulas. Por ter sido uma turma grande, serviu para nos ensinar o quanto o Ramo de Carvalho estava crescendo e o quanto a administração dos relacionamentos interpessoais poderia se tornar problemática (afinal, quanto maior o número de pessoas reunidas em um mesmo local, maior a chance do surgimento de divergências filosóficas, e isso vale para qualquer meio), o que nos guiou para uma nova mudança, um novo semear. Ainda assim, a turma foi uma grande evolução, pois trouxe membros que não apenas se mostraram uma adição ao grupo, mas ao Druidismo em geral. Entre os membros ativos da quarta turma estão Argantobleddos, Arakantobunna, Senolabaros, Adriano, Boduogenâ, Daniel, Gustavo, Lucas e Tatiane.

 

A Ordem Druídica Ramo de Carvalho

 

O período após quarta turma-semente mostrou que o crescimento do Ramo de Carvalho estava se tornando um problema, uma vez que era dificuldade de administração de um número tão grande de pessoas continuava aumentando. Assim, uma nova proposta de organização do grupo (conhecida como “a Árvore”) foi apresentada, definindo os graus hierárquicos dentro do grupo por conhecimento e contribuições à ordem e ao meio druídico. Mais do que isso, o Ramo de Carvalho deixava de ser um grupo para se tornar uma “ordem”, ou seja, uma entidade cujas principais ocupações seriam o ensino, a coordenação e a formação de membros competentes dentro do Druidismo nacional, não sendo mais um órgão cuja filiação seja necessária. Ainda que ainda existam eventos e atividades válidas para todo a Ordem, os rituais e festivais sazonais seriam preocupações apenas de suas clareiras, dentre elas a Clareira-Mãe Bosque de Carvalhos. Outras clareiras foram formadas, como o Clann Fíodh na Sidhe e o Círculo do Salgueiro, sendo que qualquer membro que tenha completado o curso-semente e esteja cursando uma das especializações pode formar uma clareira, bastando comunicar aos seus instrutores e buscar por orientações.

Nesse momento também foi desenvolvido um novo curso, completamente diferente do inicial. Ele foi testado na quinta turma-semente, bem como nas duas primeiras turmas à distância (outra das inovações possíveis com a estrutura de ordem), evidenciando que seu enfoque é principalmente cosmológico, filosófico e ritualístico, talvez não sendo completamente apropriado a iniciantes. Ficou evidente que estamos falando de um momento completamente novo para a Ordem e que novas mudanças ainda virão com o tempo, mas a nossa história ocorre principalmente por acertos e pelos aprendizados com os erros. Ainda assim, temos membros ativos promissores, seja como membros efetivos da Ordem ou como estudiosos do Druidismo (como Vinícius, Magdalena, Eric, Alexina, Matheus, Carol Danilo), além dos membros à distância, como Paty, Fabíola, Maycow, Pedro, Ana Cristina (a Meggan, dos tempos da ODB e Ramo de Prata), Paulo Henrique. Temos uma turma-semente à distância em vias de conclusão enquanto esse artigo é escrito e até o final dessa turma teremos uma visão mais clara sobre o quão efetiva é a metodologia do novo curso.

Sabemos que essa não é uma forma definitiva.Menção seja feita aos membros afastados: todos aqueles que não pediram afastamento direto ainda são considerados membros e parte de nossa comunidade. Se um dia quiserem retornar, estaremos de braços abertos (até mesmo para aqueles que pediram o afastamento). Novas clareiras podem nascer a qualquer momento, com novas uniões e visões, algo que só enriquecerá o grupo como um todo  A Ordem Druídica Ramo de Carvalho é como o Druidismo ao qual se integra, uma espiritualidade orgânica, que cresce como uma árvore, tornando-se cada vez maior e mais frondosa. Mas como toda árvore, as mudanças externas são apenas um reflexo da eterna busca pela conexão com as águas do Submundo (o Reino dos Ancestrais) e de ser banhada pelos raios do Sol (o Fogo Celeste, a benção dos Deuses), enquanto se cresce em equilíbrio na Terra. Os Três Reinos em um, a Tribo e Terra em comunhão. Como uma Árvore cresce o Druidismo, como uma árvore continuará a crescer o Ramo de Carvalho.