Ogmios. Ogmia. Oghma. Talvez Eufydd. Do rosto do sol. Da boca de mel. O homem forte. Deus da eloquência na Gália. Inventor da escrita Ogham na Irlanda. Campeão das Tuatha Dé Danann. Uma deidade com tantos epítetos e reconhecida em tantos lugares. Com certeza uma das mais importantes dentro do enorme panteão de Deuses do mundo céltico. Oghma, como a maioria das Tuatha Dé Danann, é um deus tribal, o que o torna mais próximo dos seres humanos. Suas características principais (luta, eloquência, escrita…) são óbvios sinais de uma deidade com caráter civilizatório. Ainda assim, ele também carrega ligações claras com a natureza (também como seus irmãos das Tuatha Dé Danann, que tendem a demonstrar tal equilíbrio entre Tribo e Terra), como suas possíveis características solares e associação com as árvores. Oghma é tudo isso e muito mais. Oghma é um deus de conhecimento. Um guardião de segredos. Um deus da magia. E vamos conhecer um pouco mais sobre ele agora.

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O Ogmios Gaulês

Como sabemos, os Druidas gauleses possuíam um severo tabu sobre escrever suas doutrinas e conhecimentos sagrados. Não eram incultos, longe disso, mas evitavam submeter seus objetos de estudo à palavra escrita. Graças a isso (e à dominação romana, que os perseguiu e caçou ferozmente), muito da mitologia da antiga Gália foi perdida. Temos inscrições dando alguns fiapos de informação sobre centenas de deuses, mas não sabemos quase nada sobre eles. Alguns nomes são citados pelos cronistas romanos, mas com descrições lacônicas e que trazem mais perguntas do que respostas. E claro, há a chamada Interpretatio Romana, presente tanto em textos quanto inscrições, que compara os deuses gauleses aos romanos, o que ajuda a, pelo menos, chegarmos a algumas das características dessas deidades. Talvez por isso o caso de Ogmios seja tão importante. Pois ele é uma deidade gaulesa com alguma mitologia preservada. E talvez ele tenha sido uma das mais importantes também.

Chegar a essa mitologia não é um processo imediato. Envolve o conhecimento de uma lenda céltica citada por um cronista grego combinada com um relato de outro cronista grego. Parthenius de Nicéia, no seu texto Das Aflições do Amor, nos conta uma lenda que fala de Hérakles (Hércules) retornando após o saquear o gado (um tema mitológico muito comum entre os celtas) dos Geriões da Eritreia. Durante a sua viagem, Hérakles se hospeda na casa de Brettanus, mas não consegue se esquivar dos avanços da bela filha do seu anfitrião, Keltine. O fruto dessa união nasce algum tempo depois e é chamado de Keltus, “do qual toda a raça celta teria origem”.

Essa lenda contada por Parthenius já tem características de uma lenda céltica. O roubo de gado (tema tão comum na mitologia irlandesa e galesa), o herói semidivino que dá origem ao povo (lembrando aqui o relato de Júlio César, que cita que os gauleses acreditavam ser descendentes de Dis Pater), a origem dos celtas em Keltine e Brettanus (lembrando, novamente, do relato de Júlio César, que nos cita que a doutrina dos Druidas havia nascido na Grã-Bretanha e de lá migrado para a Gália). Apenas a inserção de Hérakles parece ser uma adaptação. Uma Interpretatio Graeca, no caso, colocando o herói grego para substituir o possível nome de um personagem nativo.

A dúvida sobre quem seria esse herói ou deidade desaparece quando chegamos ao relato de Luciano de Samosata. Ele cita que os celtas cultuavam Hérakles sob o nome de Ogmios, e que o representavam de uma forma bem distinta do que faziam os gregos. Ele era representado pelos celtas como um homem velho, de escassos cabelos brancos e pele queimada pelo sol, chegando a ser comparado a Caronte e Iapeto. Ainda era forte, e da ponta de sua língua saltavam correntes que se ligavam aos ouvidos dos homens. No mesmo relato, Luciano nos diz que a representação foi explicada a ele por um homem local, que ensinou que os celtas associavam a Hérakles (Ogmios) a arte da eloquência, e por isso as correntes deixavam a sua língua e chegavam aos ouvidos dos homens, uma referência ao domínio que sua fala tinha sobre eles. Ele também cita que a representação dele como idoso reflete essa característica de eloquência, que só atingiria o ápice com a idade.

Os relatos se encaixam de forma quase perfeita. Os gauleses, de acordo com César, acreditavam ser descendentes de Dis Pater (ou seu equivalente local), um deus do Submundo. De acordo com Parthenius, eles seriam descendentes de Hérakles, que descobrimos, graças a Luciano, ser chamado entre os celtas de Ogmios, um deus de pele escura a ponto de ser equiparado aos deuses gregos do Submundo. Esse deus, que saqueava gado (como é tradicional na mitologia céltica, uma vez que os deuses sempre são retratados com características da sociedade que os cultua), teve um filho com a filha de Brettanus, dando origem aos povos celtas. Era um grande guerreiro, bem como um mestre da comunicação e eloquência. Assim, apesar de diversas outras possibilidades existirem, Ogmios é um dos mais deuses com mais probabilidades de ser o Dis Pater citado por César.

As evidências materiais tendem a comprovar a ligação de Ogmios com o Submundo. Um deifixio (uma placa de bronze ou chumbo, normalmente com uma maldição entalhada) encontrada em Bregenz, na Áustria, liga Ogmios ao Dis Pater, e também a Aericura, mas não deixa claro se seriam duas deidades distintas ou se um seria epíteto do outro. A maldição parte de uma mulher, possivelmente traída, que está mandando seu amante para Ogmios, isto é, para o mundo dos mortos.

A partir das evidências que temos da Gália, podemos ver que Ogmios era um deus ligado ao mundo dos Mortos. Era um poderoso guerreiro, a ponto de ser sincretizado com o Hérakles grego. É bem possível que fosse o deus ancestral de ao menos algumas tribos celtas continentais, sendo assim um candidato a ser o Dis Pater gaulês citado por César. Sua descrição como tendo a pele escura e queimada de sol, que fez Luciano de Samosata compará-lo com Caronte e Iapeto, tem sido interpretado como uma possível referência a uma deidade ligada ao mundo dos mortos que habita as regiões distantes do oeste onde o sol se põe, mas não é uma teoria que possa ser confirmada. Porém, não é estranho que um deus ancestral também seja o regente do Submundo, ao menos na cosmologia céltica, algo confirmado tanto no relato de César quanto na mitologia insular. Além disso, é um deus ligado à eloquência e comunicação. Aqui já temos o suficiente para começar a analisar as aparições de Oghma em outras paragens.

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De Ogmia a Eufydd: O Paradoxo Britônico

Não há muita certeza sobre se Ogmios era conhecido ou não na Grã-Bretanha da Antiguidade. Ainda que possa existir uma resposta conclusiva (e afirmativa) nos restos de uma peça de cerâmica encontrada em Richborough, ela nos traz mais dúvidas do que respostas a respeito do caráter da deidade em questão. O assunto fica ainda mais complexo quando lembramos que a Grã-Bretanha possui uma mitologia registrada (reescrita e adaptada aos valores da Idade Média, mas ainda plena de ensinamentos sobre a cultura pagã anterior) e Ogmios/Ogmia parece estar ausente nela. Linguistas propuseram que seu nome poderia ter evoluído para o galês Euuyd, mas as respostas propostas por eles estão longe de serem conclusivas. Assim, a presença de Oghma na Grã-Bretanha ainda é um grande mistério. Porém, podemos ao menos tentar analisar as evidências para encontrar uma luz nesse amontoado de informações.

Começando pela peça de cerâmica citada acima, ela mostra a figura de um homem com longos cabelos cacheados e raios que saem de sua cabeça, segurando um açoite, com o nome “Ogmia” gravado. Se essa peça parece confirmar a existência de um “Oghma” na Grã-Bretanha do período romano, ela nos traz alguma discrepância com a imagem gaulesa, do deus da face obscurecida e ligado ao Submundo. A figura de longos cabelos cacheados, com raios que saem de sua cabeça, e portando um açoite, sugere uma sincretização da figura de Ogmia com a do Sol Invictus romano. Essa relação solar parece confundir boa parte dos estudiosos, que parecem ter encontrado uma explicação no fato de Ogmios ter a face escura por ser queimada pelo sol. Contudo, a imagem do Ogmia britânico se aproxima bastante do epíteto do Oghma irlandês, Grianainech, “do Rosto do Sol”. A possível associação solar não retira, necessariamente, a ligação com o Submundo, uma vez que era comum para os Antigos ver o Sol afundando no oeste, e acreditar que ele deixava naquele momento o mundo dos homens e partia para os reinos inferiores do mundo dos mortos. Ser uma deidade solar não era um impedimento para ser um deus ancestral ou regente do Submundo.

Infelizmente, não temos mais evidências adicionais sobre quem seria Ogmia. Alguns linguistas sugeriram que sua figura teria se transformado no personagem da mitologia galesa, Eufydd ab Dôn. Essa é uma especulação bastante ousada. Primeiro, porque sabemos muito pouco sobre Eufydd (embora ele possivelmente tivesse bastante importância na mitologia britônica, infelizmente muito pouco dela foi registrado para o nosso conhecimento posterior). Segundo, porque as hipóteses linguísticas levantadas para explicar seu nome não são unanimemente aceitas. A progressão sugerida do seu nome a partir do Proto-Céltico seria: Ogomios/Ogumios < Ogmios < Oumid < Euuyd < Eufydd. A progressão não leva em consideração a possibilidade do nome Ogmia, o que a torna ainda mais problemática, mas não deixa de ser uma possibilidade ainda em aberto.

Eufydd aparece em muitos textos dos Quatro Livros Antigos do País de Gales, porém apenas na forma de citações lacônicas, que pouco esclarecem sobre seu caráter. Ele é parte da Plant Dôn (o “Clã de Dôn”), uma das famílias divinas da mitologia galesa que costuma ser comparada com as Tuatha Dé Danann da Irlanda, mas não temos evidências concretas para apoiar essa suposição. Contudo, no Llyfr Taliesin (“o Livro de Taliesin”), Eufydd (na possível grafia mais arcaica do seu nome, Euuyd) é citado entre um grupo de “homens habilidosos”, junto com Matheu, Govannon, Elestron e Achwyson, que estiveram reunidos com Taliesin por um ano em Caer Govannon. A descrição como “homens habilidosos” pode trazer uma ligação adicional com as Tuatha Dé Danann, as “Tribos dos Deuses das Artes/Ofícios”, principalmente pelo fato Oghma e Goibhniu (equivalente gaélico de Govannon) também serem parte desse “panteão” de deuses da Irlanda. Ainda sobre essa possibilidade, Eufydd também é tio de Lleu Llau Gyffess (o equivalente galês de Lugh Lamfhada). Falaremos mais sobre essa possível equivalência quando citarmos o Oghma gaélico.

Continuando a análise das relações de Eufydd na mitologia galesa, vemos que ele é um dos sobrinhos que esteve a serviço do grande rei e feiticeiro Math fab Mathonwy (possivelmente o Matheu citado acima) em poemas do Livro Branco de Rhydderch e do Livro Vermelho de Hergest, o que pode trazer uma confusão adicional, uma vez que nas redações do Mabinogion quem ocuparia esse posto seria Gwydion. Teria Gwydion tomado o lugar de Eufydd nas redações posteriores do texto? Ou seriam apenas nomes diferentes para uma mesma deidade? A etimologia do nome de Gwydion traz uma possível relação com o Oghma gaélico: Gwydion, em galês antigo Guidgen, teria sua origem em *Widugenos, “Nascido das Árvores”, o que pode evidenciar uma ligação com o Ogham. Contudo, nada conclusivo pode ser afirmado sobre isso.

Um outro Eueyd (que pode ser o mesmo) surge no Mabinogion como um dos emissários de Brân, o Abençoado, que parte junto a Manawyddan para negociar com Matholwch e que se torna um dos sete conselheiros da Britannia após a morte do rei. Se este Eueyd de fato for o mesmo Eufydd, ele traz uma possível ligação adicional com as Tuatha Dé Danann, uma vez que Brân carrega grandes semelhanças com o Dagda (deuses gigantes portadores do Caldeirão da Vida), irmão (em alguns relatos, filho) de Oghma. Manannán (equivalente gaélico de Manawyddan) também possui grande ligações com a família do Dagda, tendo sido apadrinhado por Ele. Assim, não seria estranho se essa relação entre Brân, Eufydd e Manawyddan representasse uma antiga relação familiar perdida na mitologia. Talvez o seu próprio papel de emissário possa ter uma relação com suas características de comunicação e eloquência. Porém, uma vez mais, são apenas conjecturas.

O último a ser citado aqui é Heueyd Hen, o pai de Rhiannon. Esse é o caso mais complexo (e talvez improvável) de relacionarmos com Eufydd/Ogmios. A inserção do ‘h’ inicial é algo que ainda não foi plenamente aceito como explicação para um possível Eueyd anterior. Se essa hipótese fosse confirmada, teríamos Ogmios como o pai de uma das mais importantes personagens de toda mitologia britônica, a própria Rhiannon (“Grande Rainha”). O epíteto Hen (“Velho”) de Heueyd costuma ser apontado como uma evidência adicional, uma vez que o Ogmios gaulês é representado como envelhecido, mas não parece ser algo tão significativo. Há também a crença de que Rhiannon e Pryderi poderiam representar um paralelo a Modron (“Grande Mãe”) e Mabon (“Grande Filho”), e que por isso o pai de Rhiannon deveria ser um rei do Mundo dos Mortos, como o de Modron é Afallach (e Ogmios também pode ter sido para os gauleses). Porém, de todas as possibilidades, essa é a que tem o menor grau de estudiosos que a aceitam.

A partir de tudo o que reunimos, podemos ver que Ogmia/Eufydd provavelmente tinha uma grande relevância na antiga mitologia britônica, mas infelizmente contos próprios relativos a Ele não foram preservados. Sua característica solar parece mais próxima do Oghma irlandês do que do Ogmios gaulês, mas como vimos, não é uma impossibilidade para um deus do Submundo ter associação solares. Nas suas aparições como Eufydd, encontramos uma deidade próxima a deuses das artes e ofícios, a maioria com paralelos muito próximos a membros das Tuatha Dé Danann, o que pode trazer algumas possíveis relações com o Oghma da mitologia irlandesa. Mais difícil de comprovar são suas ligações com Gwydion e Rhiannon, embora as possibilidades possam trazer tanto uma relação interessante com aquele que criou o Ogham (através do seu nome ou epíteto, Widugenos), bem como um papel apropriado a um Rei do Mundo dos Mortos e Deus Ancestral. Porém, com esses pequenos fragmentos, a mitologia britônica só nos traz possibilidades, mas poucas confirmações.

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O Oghma Gaélico

De longe a “encarnação” irlandesa dessa deidade é a mais conhecida por todos. Ainda que por vezes sua imagem pareça um tanto eclipsada pelo seu irmão, o Dagda, Oghma surge na mitologia gaélica em grande glória. Ele é o Trenfher, o “Homem Forte”, campeão das Tuatha Dé Danann na luta contra os Fomorian. Ele é o Grianainech, “do Rosto do Sol”, e o Milbhéal, “da Boca de Mel”, mostrando que suas associações com a comunicação e o uso da palavra permaneciam. E claro, ele é mais conhecido pela criação do alfabeto Ogham. Inclusive, existiram interpretações sugerindo que Oghma emprestaria o seu nome (que vem de uma antiga raiz indo-europeia significando “cortar”, “entalhar”) do alfabeto (e não o contrário), contudo essas ideias não se sustentam quando levamos em consideração que o Ogham não parece ser conhecido na Gália (onde Ogmios parecia ser de seminal importância). Para todos os sentidos, parece-nos que o Ogham recebeu o nome pelo seu criador na mitologia, Oghma, e não o inverso.

Na mitologia gaélica, Oghma é descrito como o irmão do Dagda, o “Bom Deus”. Em algumas versões, contudo, ele seria seu filho. Ele também é mostrado como um sobrinho do rei Nuada. Juntos, os três formam uma espécie de Divina Trindade dentro das Tuatha Dé Danann. Aqui encontramos a primeira discrepância entre as descrições da Gália e da Irlanda. No mito irlandês, o “Pai de Todos” seria o Bom Deus, não Oghma (como o Ogmios da Gália parecia ser). Contudo, a mitologia sempre traz esse tipo de variação regional, talvez mostrando que tribos e povos diferentes, mesmo que aparentados, vissem a si mesmos como descendentes de diferentes Ancestrais divinos. Um outro exemplo que pode ser apontado desse tipo de mudança regional está nos mitos germânicos, onde Tiwaz (Tyr) era considerado o “Pai de Todos” para os povos continentais, mas esse papel era passado a Odin (Wodanaz) na Escandinávia posterior. Já sobre a questão da Tríade Divina, ela parece ser um padrão comum entre os povos indo-europeus. No mito irlandês, ela existe na forma de Dagda, Oghma e Nuada, até que este último perde o seu braço (e o direito de reinar), sendo que a tríade permanece, mas agora tendo Lugh no seu lugar. Uma tríade equivalente é citada na Gália, com Esus, Taranus e Toutatis. Ogmios não faz parte dela, mas como nos casos britônicos, existem teorias que dizem que ele poderia estar presente sob algum desses epítetos. Se isso for verdade, os candidatos mais prováveis para serem Ogmios (e o Dis Pater Ancestral) seriam Toutatis (para o qual as vítimas sacrificadas eram afogadas, de acordo com os romanos, o que pode evidenciar a ligação com o Submundo e o reino do Mar) e Esus (para o qual as vítimas sacrificadas eram penduradas em árvores, novamente de acordo com os romanos, o que pode evidenciar uma improvável ligação com o Ogham). Porém, são apenas possibilidades, e destas, a ideia de que Toutatis represente o Dis Pater local (mesmo que não necessariamente Ogmios) parece mais apropriada do que a outra. Na Irlanda essa tríade era chamada Na Trí Dé Dana (“Os Três Deuses das Artes”), o que pode ter alguma paralelo com os deuses galeses em Caer Govannon (mesmo que ali não sejam uma tríade).

Como campeão das Tuatha Dé Danann, temos confirmada a extrema força de Oghma (que o fez ser comparado com Hérakles no continente), sendo que ele chega a testar Lugh com uma prova de força física. Graças a essa grande capacidade, quando Bréas assume o trono das Tuatha Dé Danann, ele o rebaixa a carregador de lenha. Ao contrário do que muitos podem pensar de uma deidade voltada à comunicação e a escrita (e portanto, ao conhecimento), Oghma é realmente um feroz guerreiro. Sua arma, a espada Orna, une perfeitamente esse aspecto bélico com o erudito: é dito que, cada vez que era retirada da bainha, ela cantava os feitos do seus possuidor. Mas o grande feito pelo qual Oghma sempre será lembrado será mesmo a criação do alfabeto Ogham. No Auraicept na n-Éces é dito que “o pai do Ogham é Oghma, e a mãe do Ogham é a mão e a faca de Oghma”. A principal versão da lenda diz que uma vez a esposa do deus Lugh havia sido raptada, e Oghma, para avisar o marido disso, gravou os símbolos do Ogham em um ramo de bétula para que ele decifrasse a mensagem. Outra versão diz que Oghma se inspirou na forma com que as pernas de uma garça se cruzavam para a sua criação. Independente de qual você prefira, é inegável a relação íntima entre Oghma e o Ogham.

A análise do Oghma gaélico combina muito bem com as outras versões. É um poderoso guerreiro e conhecido por sua força, assim como o Ogmios gaulês, bem como também possui afinidades ainda mais fortes com a comunicação e o conhecimento. Aqui ele perde um tanto do seu caráter sombrio, aproximando-se mais do Ogmia da Grã-Bretanha, com o seu epíteto Grianainech, mas como citamos antes, não são aspectos necessariamente excludentes. Ainda assim, seu caráter de Deus Ancestral e Regente do Submundo parecem estar ausentes na Irlanda (além do seu irmão, o Dagda “Pai de Todos”, outra figura que parece suprir essa característica é Donn, o Castanho, que é considerado o ancestral dos irlandeses e que reina em Tech n’Duinn). Ele é um dos “Deuses das Artes” por excelência, o que pode ligá-lo ao Eufydd galês, partindo do fato que este também tem relações próximas com o Deus Gigante do Caldeirão da Vida (no caso gaélico, o Dagda, no caso britônico, Brân). Suas ligações com Gwyddion e o pai de Rhiannon são mais tênues, mas não são possibilidades que não devam ao menos ser consideradas.

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O Inventor do Ogham

Oghma é, portanto, considerado o principal inventor do alfabeto Ogham, ao menos pela mitologia. E é isso que o torna tão grandioso. Criar um alfabeto evidencia as suas qualidades como deidade da erudição e comunicação. Porém, o Ogham é muito mais do que um simples alfabeto. Ele é um código que carrega enormes possibilidades dentro de si, o que permite que ele tenha muitas utilidades além da simples transcrição de mensagens. Cada fíd (ou letra, o significado literal é “madeira”) do Ogham carrega dentro de si um conjunto de significados que podem ser interpretados. O mais conhecido é o Crann Ogham, o “Ogham das Árvores”, mas existem muitos outros, como o Ogham dos Pássaros, Ogham dos Cães, Ogham dos Reis da Irlanda

Graças a tudo isso, o Ogham é muito utilizado como método oracular. Através do significado que cada letra carrega, é possível buscar uma resposta do Outro Mundo e interpretá-lo a partir do conhecimento dos feda (plural de fid). Infelizmente, não há muitas evidências do uso do Ogham dessa forma na mitologia (a não ser por uma lacônica menção em uma única redação de A Corte à Étain), sendo essa utilização parte de práticas modernas, mas não deixa de ser uma associação lógica e bastante funcional para os que a estudam a fundo. Também é muito utilizado para expressar significados interiores ocultos dentro de mensagens, dependendo das letras utilizadas, ou de palavras-chave relacionadas aos significados dos feda. Por exemplo, a Bétula, normalmente interpretada dentro dos feda como significando Inícios, Recomeços, pode ser citada em uma história de forma casual, mas que pode trazer esse significado à mente daqueles que tem o conhecimento do alfabeto. Assim, tanto nessa utilização quanto na oracular, quanto na de expressar significados codificados, encontramos em Oghma uma deidade ligada ao oculto, aos segredos, à linguagem conhecida pelos sábios ou às mensagens que são passadas pelo Outro Mundo.

Adicionalmente, o Ogham é também utilizado como escrita mágica, expressando significados e mensagens que o utilizador busca “fixar”, tornar realidade (algo muito semelhante à antiga prática de escrever uma Deifixio, isto é, inscrever um feitiço, dedicatória ou maldição em uma tabuleta de cobre ou chumbo, muito utilizada na Europa continental). Essa prática é utilizada na mitologia por Cuchúlainn, no Táin Bó Cualnge, o que mostra que, na sociedade céltica, mesmo guerreiros poderiam ser versados no uso da magia do Ogham. Ainda que o modo que foi utilizado na mitologia tenha sido o de literalmente escrever uma mensagem utilizando o Ogham (em um tronco de árvore, o que gerou um géas, ou “proibição”, que fez com que os exércitos de Meadbh precisassem tomar outro caminho), o paganismo moderno tem contemplado diversas outras formas dessa prática, inclusive com a inscrição de feda específicos, com significados apropriados à prática, bem como com o uso de “sigilos” mágicos (utilizando-se da Roda de Fionn).

Porém, a vasta gama de utilizações do Ogham não são do escopo desse artigo. Existem estudos muito mais amplos sobre o assunto (como o excelente livro Ogham: O Oráculo dos Druidas, de Osvaldo R Feres, lançado pela Alfabeto em 2018), e que merecem figurar na estante dos interessados no assunto. Nosso objetivo aqui era apenas trazer uma base do conhecimento que temos sobre Ogmios/Ogmia/Eufydd/Oghma. Campeão entre os Deuses, Ancestral Divino (ao menos na Gália), Deus Solar, Senhor da Eloquência, Inventor de Alfabetos, Fonte de força, comunicação, conhecimento e magia. Oghma é uma das mais imponentes deidades dentro do “panteão” céltico. E por isso, deve ser reverenciado como tal.