Quando os dias são curtos e as noite longas, quando os ventos do inverno sopram pelas janelas, quando as almas desamparadas sofrem pelo auge da estação fria, quando a época é a mais escura e as esperanças parecem parcas, esse é o momento em que as pessoas mais se recolhem, no auge do frio e das sombras. E é nessa época que ela cavalga, sofrendo no frio, sofrendo com o seu fardo; o seu galopar ecoa, mas ela não é atendida, e ela continua a vagar, solitária, desesperada, até que alguém tenha a bondade de abrir suas portas a ela, e permita que seu filho, a criança solar, venha aos seus braços. Assim ela pode nutri-lo, assim ele pode crescer, e tornar-se mais e mais forte, trazendo novamente os dias mais longos e o calor à Terra, o calor que o agricultor precisa para semear, que as flores precisam para desabrochar, que o mundo precisa despertar. Ela é a Grande Rainha Égua, mãe da Luz do Mundo.

Esse parágrafo não corresponde a nenhum mito específico, mas corresponde a vários ao mesmo tempo. Muito é dito sobre supostos deuses ‘pan-célticos’, como Lugh, Bríghid e outros; as conjecturas a respeito do alcance dessas poderosas deidades realmente parecem apontar para uma existência de seus mitos em todo o mundo céltico. A Grande Rainha Égua é algo diferente; ela é pan-céltica, mas também não é. Sua figura está espalhada por todo o mundo céltico, guardando as mesmas características em lugares diferentes, mas representada por deusas completamente diferentes em locais diferentes. Não é semelhante a dizer que Lugh, Lleu e Lugus representam versões locais de uma mesma deidade. Não, a Grande Rainha Égua é como se fosse um “posto” fundamental ao entendimento cosmológico céltico, mas que é ocupado por deidades diferentes, em nome e caráter, em lugares diferentes. Ou talvez todas fossem a mesma deidade, com nomes diferentes em regiões e épocas diferentes, pois as ligações entre elas são mais do que visíveis também. O que nos importa é que o mundo céltico conheceu, e teve em alta importância, a Grande Rainha Égua, mãe da luz que renasce no momento mais escuro, o auge do inverno.

 

A Grande Égua do Continente

 

Na velha Gália, se procurássemos pela Grande Rainha Égua, certamente encontraríamos o nome de Epona (literalmente, “A Grande Égua” ou “A Égua Divina”). Tão amplo e poderoso era seu culto que mesmo os romanos, após concluírem a sua dominação sobre a Gália, acabaram por render suas homenagens e devoções a Ela. Na verdade, nas suas inscrições encontramos devoções de gauleses, romanos, gregos, germanos e até mesmo um devoto identificado como sendo da Síria. Suas inscrições se estendem das costas do Danúbio até a Grã-Bretanha, e datam desde o século I a.C. até o final do período pagão. Epona era uma deusa venerada, isso é óbvio, mas que aspectos conhecemos realmente de seu culto?

Como em quase tudo o que o que sabemos sobre os deuses da Gália, pouco sabemos além de sua iconografia. As imagens de Epona mostram uma grande variação, desde simulacra que mostram uma mulher sentada de lado sobre uma sela até as representações do período imperial, onde ela surge (normalmente) entre dois cavalos, por vezes segurando uma cornucópia (um óbvio atributo de fertilidade). Suas representações sobre a sela foram encontradas ao longo de todo o território da Gália e do oeste da Germânia, com algumas sendo descobertas também na Grã-Bretanha e até mesmo no leste, na região da Macedônia. As representações imperiais estão concentradas mais nas regiões da fronteira entre a Gália e a Germânia, mas também foram encontradas em locais mais distantes, como dentro da própria Itália (e mesmo no Circus Máximus, na própria Roma) e no leste e até mesmo no norte da África (possivelmente levada por soldados romanos ou galo-romanos devotos). Inscrições com o nome de Epona tem o alcance mais amplo, se espalhando da Península Ibérica, passando (obviamente) pela Gália, chegando à Grã-Bretanha e Germânia, com casos encontrados na Itália e no leste europeu, mostrando que seu nome era bem conhecido e suas homenagens ocorriam nas mais diversas regiões. Porém, o mais provável é que seu culto fosse majoritariamente gaulês ou galo-germânico, sendo posteriormente adotado pelos soldados romanos e se espalhado com eles, uma vez que as suas evidências em outras regiões parecem bem mais esparsas.

Uma evidência da popularidade de Epona entre os soldados romanos está no fato de que, apesar de ser uma deusa de origem indubitavelmente gaulesa, todas as inscrições em sua honra estão em latim; obviamente, também, temos de nos lembrar que as inscrições em língua gaulesa são bastante raras e que diversos outros deuses gauleses são louvados em latim também. A grandiosidade de Epona e sua importância é visível nestas pequenas homenagens. Em uma inscrição datando do século II d.C. encontrada na Hungria, Epona recebe o título de “Regina” (Rainha), algo que é relevante quando a comparamos com sua “contraparte” britânica, Rhiannon; ela é celebrada junto ao “Espírito do Esquadrão” (Genio Turmae), e a homenagem foi feita por uma coorte de arqueiros montados, algo que torna óbvia a sua importância. Outra inscrição feita por cavaleiros romanos, encontrada na Alemanha, celebra Epona e os deuses da terra (Campestribus), mas dando a ela a honra de ser a única referida pelo nome. Há muitos outros exemplos de inscrições dedicadas a Epona, sempre atribuindo a ela uma distinção rara (como uma encontrada no sul da Escócia, onde ela é a única deidade não-romana citada nominalmente), mas temos o bastante por enquanto. Basta saber o quão elevada ela era, mesmo no culto daqueles que dominaram a cultura que primeiro a honrou; diversas unidades de cavalaria romana eram dedicadas a Ela. E, ao menos para alguns, ela era a Regina, a “Grande Rainha Égua”.

Não há muito que possa ser dito sobre registros escritos sobre Epona, embora alguns cronistas clássicos a tenham citado, nos oferecendo alguma informação (pequena, mas valiosa) de culto na Gália. Em “O Asno de Ouro”, de Apuleius (século II d.C.), encontramos uma informação exótica: em um conto alegórico, o seu personagem principal é alvo de um feitiço que o transforma em um asno e só pode voltar ao normal ao ingerir rosas; curiosamente, ele encontra rosas em um altar para Epona em um estábulo, onde se encontra uma estátua da deusa cuidadosamente decorada com as flores. A sugestão de que o culto a Epona ocorria em estábulos (nada estranho para uma deusa ligada aos cavalos) já teria sido citada em um documento anterior, as “Sátiras”, de Juvenal (também no II d.C.), onde um suposto Lateranus teria abandonado sua vida de nobre bem nascido para viver entre as pessoas de baixa classe, criadores de asnos e burros entre elas; no final, em um rito sacrificial a Júpiter, ele realiza o ritual como prescrito, mas não jura em nome do deus altíssimo romano, mas sim em nome de Epona, cuja figura estava presente em estábulos. Minucius Felix (também do século II d.C.) também associa os asnos (e estábulos) aos cultos de Epona e de Ísis, sugerindo que eles seriam consagrados à primeira e adornados à segunda. A “Apoteose”, de Prudentius, nos sugere que o culto a Epona (e também a Cloacina) ainda estaria vivo no século V, com práticas de oferendas de incenso e práticas divinatórias dedicadas a Elas, envolvendo a observação de grãos de trigo, além da análise de entranhas.

Com esses fragmentos de informação, podemos ter uma pequena ideia de como seria o culto a Epona na Gália. Seu culto era importante, e não se restringia aos gauleses, mas também ocorrendo entre algumas tribos germânicas e sendo amplamente adotado pelos romanos, principalmente pelas suas unidades de cavalaria. Costumava ser representada sentada sobre um cavalo, ou entre dois cavalos (o que pode nos dar alguma evidência de ligação com a lenda da Rainha Lupina, na Galícia), por vezes carregando objetos, como frutas ou cornucópias, símbolos de fertilidade. Recebia epítetos elevados, como Regina, mostrando a sua distinção. Seu culto também era comum em estábulos, não apenas entre criadores de cavalos, mas também de asnos e burros. Rosas parecem ter sido uma oferenda comum aos seus altares, e técnicas divinatórias também eram feitas com sua ajuda. E seu culto pode ter vivido até meados do século V, ao menos nas regiões periféricas do império. A isso podemos acrescentar que o seu dia, no calendário romano, era 18 de dezembro, uma proximidade com o Solstício de Inverno que será relevante quando compararmos as regiões. Por enquanto, isso é o bastante sobre o que sabemos da Grande Égua da Gália.

 

A Grande Rainha na Grã-Bretanha e a Maria Cinzenta

 

Ainda que os registros do culto a Epona na Grã-Bretanha sejam escassos, e possivelmente deixados principalmente por soldados romanos ou galo-romanos que estabeleceram na ilha, ainda assim é aqui que encontramos uma quantidade mais sólida de informações mitológicas e folclóricas sobre a Grande Rainha Égua. É fato que os Quatro Ramos do Mabinogion foram compilados um tanto tardiamente, e em uma sociedade já profundamente feudalizada (o que os torna menos próximos de uma antiga realidade céltica, diferente da tribal mitologia irlandesa, por exemplo), o que torna necessário muito mais discernimento ao interpreta-los. Porém, quando trabalhamos os nossos estudos nos utilizando da mitologia comparada e de informações históricas e arqueológicas confiáveis, negar que eles possuem um substrato muito mais antigo é impossível. No caso, o que nos interessa aqui, para esses estudos, são os contos relacionados a Rhiannon, cujo nome tem a origem no Britônico Rigantona, “a Grande Rainha”.

Rhiannon é uma das personagens mais icônicas do Mabinogion. Junto a Arawn, Brán, o Abençoado, e Manawyddan, ela faz parte do grupo mais obviamente divino dentro dos Quatro Ramos. Para entendermos o seu papel, contudo, é preciso entender os contos do qual ela faz parte. Uma análise completa da mitologia do Mabinogion é algo que está além do nosso escopo nesse artigo, mas vamos precisar trazer alguma base, pois assim traremos um caráter mais vivido ao papel de Rhiannon com a Grande Rainha Égua da Grã-Bretanha.

Começando pelo Primeiro Ramo, é preciso primeiro conhecer um pouco sobre quem foi Pwyll. Este era o princípe de Dyfed (Demetia), e uma vez estava caçando com seus homens e terminou por se perder deles. Ele se encontra com Arawn, rei de Annwfn (Andedubnos, “o Não-Mundo”), e ambos trocam de lugar, assumindo a aparência um do outro; após derrotar Hafgan (“O Branco do Verão”), Pwyll retorna ao seu reino, sendo agora o Pen Annwfn (“Chefe do Não-Mundo”). Após retornar, Pwyll passa um período em paz, mas um dia estava em sua fortaleza, quando viu uma bela mulher passar a cavalo. Ele mandou os seus mais velozes  cavaleiros para traze-la até ele, mas nenhum sequer conseguiu se aproximar dela. Então Pwyll pegou seu cavalo mais veloz e partiu atrás da mulher, porém, por mais que corresse, não conseguia sequer se aproximar dela; cansado, ele pediu a ela que parasse, o que ela faz de pronto, e diz que o teria feito desde o início se ele tivesse pedido. Assim  ela se apresenta como Rhiannon. Pwyll prontamente a pede em casamento, e o pedido é aceito. Porém a noiva acaba sendo perdida por um deslize de Pwyll, que acaba preso pela obrigação de honra de conceder uma dádiva prometida a Gwawl, o que ele faz sem a ressalva de que ele não poderia pedir a sua própria esposa. Porém Rhiannon o ajuda a resgata-la, prendendo Gwawl em um saco mágico e espancando-o até ele prometer a devolução da esposa do princípe. Ela é libertada e, finalmente, eles se casam.

Mas a história ainda está longe de terminar. Rhiannon engravida e dá a luz a um belo menino de cabelos dourados. Mas em um momento em que ela dormia, uma garra sobrenatural rapta a criança. As criadas, com medo de receberem a culpa pelo desaparecimento, resolvem culpar Rhiannon, e sacrificam uma ninhada de cãezinhos, sujando a sua cama, roupas, mãos e bocas com o sangue, e dizem ao rei que ela havia enlouquecido e devorado o próprio filho. Como ela mesmo dizia não se lembrar do que havia acontecido, Pwyll resolve puni-la; Rhiannon é condenada a receber todas as pessoas que chegassem à corte e a carrega-las nas costas, até a presença de Pwyll. Porém, a história teria uma reviravolta. Na fazenda de Teyrnon anualmente acontece um mistério: um de seus potros desaparece misteriosamente no primeiro dia de maio. Teyrnon se esconde com sua espada no estábulo, decidido a desvendar a mistério, quando vê uma garra sobrenatural se aproximar de seus potros. Ele prontamente a ataca e a decepa, e ela desaparece, deixando no seu lugar um bebê de cabelos dourados. Teyrnon pega a criança e a cria, e o seu crescimento é sobrenaturalmente rápido. Quanto mais ela cresce, mais ele percebe a semelhança dela com Pwyll. Ele então o leva de volta aos pais, e liberta Rhiannon de seu tormento.

Há muito a ser analisado na lenda de Pwyll, mas vamos nos ater aos aspectos mais focados a Rhiannon, pois eles são os que nos interessam aqui. Seu nome, Rigantona, denota sua grandiosidade; ela é a “Grande Rainha” das tradições britônicas. Quando ela surge perante Pwyll, ela surge cavalgando, a exemplo das antigas estátuas de Epona da Gália. Nenhum cavaleiro pôde alcança-la, e mesmo Pwyll foi sequer capaz de se aproximar dela, pelo menos até que ele pedisse para que ela parasse. Assim é a Soberania, que nunca pode ser coagida ou tomada à força, pois ela virá apenas àqueles que a cortejarem e a tratarem com respeito. Pwyll é o Pen Annwfn, o “Chefe do Não-Mundo”, portanto é um nobre ungido em ambos os mundos, e por isso ela o escolhe como marido (no texto é citado que ela se negava a casar com diversos pretendentes), um rei digno de despojar a Grande Rainha, a Soberania da Terra. Pwyll ainda precisa aprender a dura lição de Gwawl de que a Soberania é cobiçada e pode ser perdida por aqueles que não sábios, mas ela retorna a ele posteriormente. A parte mais importante a ser analisada é o final da lenda. Rhiannon dá a luz a um filho de cabelos dourados, mas o perde de forma misteriosa; a Grande Rainha é uma deusa da Soberania, portanto muito do seu caráter tem ligação com a própria Terra. O rapto de seu filho é a representação do momento em que o Sol se afasta da Terra nos tempos do inverno. Ele é resgatado por Teyrnon, cujo nome vem de Tigernonos, o “Grande Senhor”, que é descrito como um agricultor, o que pode sugerir que fosse uma deidade agrícola ou da fertilidade. A ligação com os cavalos também é flagrante, mas falaremos disso ao final do artigo; de início, basta notar que a ligação com equinos está presente não apenas na mãe (algo que é reforçado quando Rhiannon, punida, é obrigada a carregar os convidados nas costas até a corte), mas também no filho solar, que é devolvido à mãe pelo Grande Senhor, liberando-a de seu fardo, isto é, trazendo novamente a luz e a fertilidade ao mundo. Rigantona e Tigernonos não são consortes (ao menos na mitologia que conhecemos), mas são intrinsecamente ligados: ela, como a Soberania e a Terra, sofre e fenece com a perda do seu filho solar, mas este é encontrado pelo Grande Senhor (no Primeiro Dia de Maio, o Calan Mai galês, o Beltane) e guardado, oculto, por Ele; enquanto a sua Mãe se enfraquece cada vez mais com a distância (e a chegada do inverno), o Grande Senhor finalmente volta a ela no Solstício de Inverno e o devolve, marcando o momento de renascimento da luz, quando ocorre a noite mais longa. Após isso, os dias começam a ficar gradualmente mais longos, e as noites mais curtas, esse momento do ciclo representado pelo crescimento desse filho solar junto à sua mãe divina, a Grande Rainha.

 

Mas a verdade é que é muito difícil inferir todas essas informações apenas através do mito. Algumas delas precisaram de análises de mitologia comparada e outras foram interpretadas através de um costume folclórico (sobrevivente até hoje) tradicional do País de Gales que praticamente reconta a segunda parte da lenda da Grande Rainha, mas de uma forma completamente diferente. Inicialmente, pode parecer estranho ver uma relação entre essa lenda medieval e o estranho costume natalino da Mari Llwydd (“a Maria Cinzenta”), mas basta comparar os contos e a semelhança saltará aos olhos. Existem duas versões principais da lenda da Mari Llwydd, mas ambas carregam simbolismos semelhantes. Na primeira, mais comum, Mari é uma égua que está prestes a parir seu potro, mas é expulsa do estábulo para dar lugar à Sagrada Família, quando Maria está prestes a dar a luz; desde então, ela vaga pelas casas, buscando abrigo para poder dar à luz o seu potro, o filho solar. Na segunda, mais rara, Mari tem seu pequeno potro roubado logo após o nascimento, e passa a vagar pelas casas em busca dele. O costume da Mari Llwydd envolve a criação da figura assustadora da Égua Cinzenta, com um crânio de cavalo, um lenço branco e diversas fitas e guizos, que é levada de porta em porta na época do Natal, e os habitantes das casas devem se engajar em uma disputa de poesia e canção com o grupo da Mari; se perderem ou se recusarem, devem pagar uma prenda de guloseimas ou permitir que ela entre na sua casa e faça uma grande bagunça (ainda que ela sempre acabe entrando mesmo, para que todos possam celebrar juntos, com bebida e canções galesas tradicionais).

Quando analisamos o costume da Mari Llwydd em contraponto com a lenda de Rhiannon (e do pouco que sabemos sobre o culto a Epona), não é difícil ligar todos os pontos. O aspecto equino das três é a ligação mais óbvia, e serve como ponto de partida; todas são “deusas-éguas” em algum aspecto, seja no literal (Mari), simbólico (Rhiannon enquanto punida, carregando os convidados) ou de regência (Rhiannon, a amazona, e as descrições de Epona). Mari e Rhiannon são as “Mães Sofredoras”, seja pela perda de seu filho solar, seja pela busca aflita da Terra, no meio do inverno, por um lugar onde possa dar a luz de volta ao mundo. O costume da Mari Llwydd ocorre nas proximidades do Natal, enquanto a festa de Epona era situada no dia 18 de dezembro, pelo que sabemos dos cronistas romanos. Ou seja, a festa de homenagem e alívio à Mãe Sofredora é aproximada do Solstício de Inverno do hemisfério norte, o momento do auge do inverno (para o calendário comum é o seu início), onde as noites são mais longas e os dias mais curtos, mas após o qual a luz começa a crescer e os dias vão ficando gradualmente mais longos. As ligações entre as três completam as lacunas de forma tão simples que chega a ser estranho que tais associações não sejam feitas de cara. Com esse conhecimento, podemos buscar mais informações no outro lado do mar, na ilha da Irlanda.

 

A Mãe Égua Corredora e a Égua da Soberania

 

Os mitos irlandeses diferem dos galeses por manterem uma atmosfera muito mais antiga e “tribal” quando comparados aos mitos britônicos, não apenas mais cristianizados, mas também mais “feudalizados”. Em suma, o mito irlandês provavelmente se aproxima muito mais de uma antiga estética céltica (ainda que também não esteja livre de influências cristãs ou de outras fontes externas). Isso sempre nos traz uma grande vantagem em atmosfera e estética, mas por vezes dificulta ao encontrar paralelos mais próximos dos contos que vemos em outras regiões célticas. Mas aqui não é o caso. Pelo menos duas personagens (deusas) surgem nos oferecendo paralelos gaélicos à Grande Rainha Égua britônica e continental, além de evidências de cultos equinos célticos e no folclore. Uma delas traz a evidência no nome, mas quase nenhuma no seu mito, por isso será apenas brevemente citada aqui, Étain dos Cavalos, das Tuatha Dé Danann e esposa de Ailill. A outra, contudo, é uma entidade que nos ajuda, e muito, a completar a visão da Grande Rainha Égua.

A lenda de Macha é bastante conhecida. Nela, Cruinniuc, um agricultor, estava sentado na frente de sua casa, quando vê uma deslumbrante mulher vindo em sua direção. Ela nada diz, apenas entra na casa e  começa a arruma-la; após isso, ela prepara para ele uma deliciosa refeição, e após estar satisfeito, ela o leva para a cama. Ela promete a ele que sua prosperidade aumentará, mas ele não deve nunca perguntar o seu nome. E assim ocorre, e o nome de Cruinniuc se eleva entre os homens, a ponto de ser convidado para a assembleia do Rei em Tara. Ele vai e, ao assistir a corrida de cavalos do rei, acaba por dizer que sua esposa é mais rápida do que qualquer um dos cavalos. Ele termina preso e sua esposa, então com a gravidez de seus filhos já em estado avançado, é buscada para que essa prova seja retirada. Ao se aproximar da pista de corrida, ela começa a sentir as contrações do parto e implora para que seja liberada do desafio, o que não é aceito. Ela corre com os cavalos e vence, mas logo após cruzar a linha de chegada ela dá um terrível grito de dor, e termina por dar à luz ali mesmo, sozinha, a um casal de gêmeos. Ela se levanta e declara seu nome, Macha, e amaldiçoa os homens de Ulster a sentirem as mesmas dores que ela sentiu na hora do parto quando eles mais precisassem de suas forças.

A nossa análise de Macha como sendo parte de um mito de ligação com a Rainha Égua das outras regiões pode começar com informações externas ao mito. Estas podem prover pequenos elos de ligação, ainda que de forma bastante discutível, mas que ainda devem ser levados em consideração. Para começar, o mito irlandês nos dá uma grande quantidade de personagens (deusas, na sua maioria) chamadas Macha. A cronologia dos mitos irlandeses é confusa, e muitos outros deuses são apresentados dessa forma, como Manannán mac Leir; não é incomum, contudo, que essas outras “Machas” sejam vistas como manifestações diferentes de uma mesma Macha, uma deusa antiga que se manifesta de diversas formas em diferentes períodos da mitologia irlandesa. Essa é uma visão que costuma ser muito debatida, mas que será usada para apresentar uma possível pequena evidência nesse momento. Além da Macha esposa de Cruinniuc, há também a Macha, filha de Ernmas, que é uma das três Morrígna (de acordo com o Livro Amarelo de Lecan), um grupo de deidades femininas da guerra e da Soberania, cujos nomes variam, dependendo da versão. A versão mais comum diz que elas são “Macha, Badb e Morrígu, cujo nome era Anand”. Falar sobre as três Morrígna aqui ocuparia muito espaço, mas é costume pensar que elas eram três aspectos distintos de uma mesma entidade, talvez uma das mais grandiosas e poderosas de toda a mitologia gaélica; outros dizem que as três seriam talvez um conjunto de três deusas distintas que formariam um coletivo. Morrighan significa “Grande Rainha” (Mór Ríoghain), e Macha é uma das três “Grandes Rainhas” (mesmo que não seja a própria Morrigu, pois esta, de acordo com o Lebor Gaballa Érenn, seria Anand), uma das três Morrígna, o que traz uma pequena semelhança com o nome de Rhiannon, também uma “Grande Rainha” (mas com nome de origem britônica).

Como Rhiannon, Macha vem a Cruinniuc de livre e espontânea vontade, trazendo prosperidade, como é apropriado a uma Deusa da Soberania. O fato de ela não revelar seu nome encontra reflexo em uma tradição pan-europeia de mulheres do Outro Mundo que impõem tabus que devem ser obedecidos por seus maridos escolhidos, mas há também quem sugira que Macha não revela seu nome para que não fosse reconhecida como a antiga deidade por Cruinniuc. A corrida com cavalos nos dá a principal ligação entre Macha e o conceito da Grande Rainha Égua. Emain Macha, o circuito onde ocorre a corrida é um sítio arqueológico hoje, e muito tem sido teorizado se o mito de Macha e seus gêmeos não serem uma representação de uma crença indo-europeia mais antiga, onde os circuitos circulares de corridas de cavalos representariam o percurso do Sol durante o ano, algo nitidamente ligado ao nosso tema de hoje. Macha dá a luz a gêmeos, um tema indo-europeu bastante recorrente, com a Mãe Divina dando origem a deuses-gêmeos, como os Dioscuri da Grécia, os Ashvins da Índia e os Ašvieniai da Lituânia. Esses gêmeos também são ligados aos cavalos, normalmente sendo grandes cavaleiros; no caso irlandês, um dos cavalos de Cúchulainn (que são gêmeos) é Liath Macha (o “Cinzento de Macha”), sugerindo uma ligação com os filhos gêmeos da deusa. Em suma, na Irlanda ainda encontramos a Mãe Sofredora, mãe do(s) filho(s) solar(es), em um retrato que talvez seja menos refinado que o de Rhiannon, mas muito mais visceral e fiel à origem indo-europeia (onde os cavaleiros solares são, normalmente, gêmeos).

 

Ainda que a Mari Llwydd não tenha um paralelo exato na Irlanda, a região de Cork nos apresenta um costume com alguma semelhança, relacionado ao Samhain, que é a Láir Bhán (“a Égua Branca”); não há um mito exatamente ligado a ela, mas ela é levada em frente à procissão que busca oferendas (guloseimas) para Muck Olla. Sua importância é visível, uma vez que Láir Bhán é o nome gaélico para a Via Láctea. Apesar de sua aparição ser associada ao Samhain (afastando-a do Solstício de Inverno), ela possui uma contraparte na Ilha de Man, chamada Laare Vane, cuja construção é relacionada ao Ano Novo. O costume da Laare Vane merece ser citado: ela, como a Lair Bhan, seria construída com uma armação de madeira e um lençol branco; após ser montada, ela é vestida por um homem e ele, junto a um grupo de outros rapazes, “caça” as garotas da casa. Quando uma delas é capturada, ela assume o manto da Laare Vane e se senta isolada das outras pessoas, enquanto uma dança da espada (usando bastões) é realizada e uma melodia tradicional é tocada. Ao final da melodia, o instrumentista é cercado pelos dançarinos, e eles simulam a sua decapitação; ele então é levado até a Laare Vane e deita a cabeça no seu colo. É dito que as perguntas que são feitas enquanto ele está ali são respondidas com a verdade, e é pensado que essa representação poderia ter origem em um sacrifício real de um bardo feito no mundo antigo, onde a cabeça seria usada para fins oraculares. Ainda assim, a Laare Vane não parece ter ligação direta com o mito da Grande Rainha Égua, a não ser pela época em que ocorre sua aparição.

A Irlanda ainda tem mais um aspecto de culto equino que pode nos interessar. Giraldus Cambrensis, em expedição pelas terras da Irlanda, descreveu um  ritual que pareceu a ele bastante exótico. No momento da inauguração de um novo rei (na província de Connacht, no noroeste irlandês, a mesma que era atribuída como o reino de Meadbh no Ciclo Ultoniano), uma égua especialmente preparada seria sacrificada em honra ao mesmo. Após isso, o rei manteria relações sexuais simbólicas com ela, nitidamente uma forma de consumar seu casamento com a Soberania. Então a carne da égua seria cozida em um grande caldeirão, e quando ela estivesse pronta, o rei entraria no mesmo, e a distribuiria com as mãos para os seus vassalos leais. Ainda que não pareça ter ligação específica com o tema desse artigo, vemos reforçada a crença indo-europeia de que o cavalo representa a Soberania da Terra. Esse rito possui um paralelo quase idêntico (mas contrário, com um cavalo macho) no Ashvamedha indiano, mostrando a força dessa crença entre os indo-europeus, com paralelos em ramos absolutamente distantes da tradição. Ainda que não exista referência a um rito semelhante entre os outros ramos da cultura céltica, a palavra Ashvamedha encontra um paralelo quase exato no nome próprio gaulês Epomeduos, do qual, infelizmente, nada sabemos.

 

Unindo as Pontas

 

        Até aqui encontramos diversos pontos que nos ajudam a formar uma ideia de quem seria a Grande Rainha Égua, mas nenhum que nos diga que todas as Deusas aqui retratadas fossem uma só. As semelhanças entre Rhiannon e Epona são enormes, mas o mesmo não ocorre entre as duas e Macha, onde as semelhanças são tênues. A conclusão mais óbvia a se tirar é a de que existiu uma figura, um “posto” de Grande Rainha Égua na mentalidade céltica, mas que essa função teria sido ocupada por deusas diferentes em lugares diferentes (e com mitos diferentes). Por isso encontramos diversos pontos em comum e outros pontos de discrepância entre elas.

Mas entendemos que a égua representa a Soberania, e esta é feminina na mentalidade céltica, e que os cavalos, animais da nobreza (de acordo com Júlio César, a aristocracia guerreira céltica era formada pelos Equites), eram o seu símbolo. Aprendemos que ela, portanto, representa tanto a Soberania da Tribo (ao escolher o homem, o rei ao qual elevar, pela sua própria vontade, pois nunca pode ser forçada, mas que sempre tem sua confiança traída por ele) quanto a Soberania da Terra (ao possuir um mito de ciclo solar, onde o Solstício de Inverno, o momento da virada do inverno e do renascimento da luz, representa o momento do seu alívio, a recuperação do seu filho solar, que provavelmente seriam gêmeos na tradição indo-europeia). E percebemos que, dos mitos antigos ao folclore ainda vivo, sua grandiosidade demorou a ser esquecida pelas populações que a louvaram, sendo ainda louvada em encenação, tradição, poesia e canção. Assim, não importa realmente se ela era uma ou muitas, o inverno é seu tempo, o momento em que a Soberania renasce. Assim, louvada seja a Grande Rainha Égua! Louvadas sejam Epona, Rhiannon, Maria Cinzenta, Macha e Égua Branca!

 

REFERÊNCIAS:

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ROSS, Anne; Folklore of Wales; Tempus Publishing Ltd; 2001
MALLORY, JP; The Encyclopedia of Indo-European Culture; Taylor & Francis; 1997
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O’BRIEN, Steven;  Dioscuric Elements in Celtic and Germanic Mythology; Journal of Indo-European Studies 10, 1982
DOUGLAS, Mona; Manx Folk-Song, Folk Dance, Folklore: Collected Writings; Chiollagh Books, 1994
PENNY; Láir Bhán and the Mast Beast; http://paleopix.com/blog/2013/10/31/lair-bhan-and-the-mast-beast/