prydwen

Eu louvo ao soberano, supremo rei da terra,

Que estendeu sua chefia aos confins do mundo.

Completa era a prisão de Gweir em Caer Siddi,

Apesar da astúcia de Pwyll e Pryderi.

Ninguém antes dele ali estivera.

A pesada corrente azul prendia ao fiel jovem,

E sobre os Espólios de Annwn ele canta dolorosamente,

E até o dia do julgamento ele continuará sua oração bárdica.

Três vezes o bastante para encher Prydwen, nós fomos;

Com exceção de sete, nenhum retornou de Caer Siddi.

Não sou um candidato à fama, se uma canção é ouvida?

Em Caer Pedryvan, quatro as suas revoluções;

À primeira palavra do caldeirão, quando dita,

Pelo sopro de nove donzelas ele era gentilmente aquecido.

Não é esse o caldeirão do chefe de Annwvn? Qual a sua intenção?

Uma borda sobre sua extremidade e pérolas.

Ele não cozinha a comida de um covarde, que não tenha sido jurado,

Uma brilhante espada cintilante por ele foi erguida,

E na mão de Lleminawg ela foi deixada.

E perante o portal de Uffern a lâmpada estava queimando.

E quando fomos com Arthur, um esplêndido trabalho,

Com exceção de sete, nenhum retornou de Caer Siddi.

Não sou um candidato à fama, com a canção ouvida

Em Caer Pedryvan, na Ilha da Porta Forte?

O crepúsculo e a escuridão negra se misturavam.

Vinho brilhante, seu licor perante a comitiva.

Três vezes o bastante para encher Prydwen nós fomos para o mar,

Com exceção de sete, nenhum retornou de Caer Rigor.

 

Não devo merecer muito do governante das palavras,

Além de Caer Wydyr eles não viram a coragem de Arthur.

Três vintenas de Canhwr estavam sobre a muralha,

Difícil era a conversa com seu sentinela.

Três vezes o bastante para encher Prydwen, lá fomos com Arthur.

Com exceção de sete, nenhum retornou de Caer Golud.

Não devo merecer muito daqueles com longos escudos.

Eles não sabem qual o dia, qual o causador,

Qual a hora do dia sereno que Cwy nasceu.

Quem fez com que ele não fosse aos vales de Devwy.

Eles não conhecem o gado malhado, largo o seu arreio.

Sete vintenas de botões em seu pescoção.

E quando fomos com Arthur, de saudosa memória,

Com exceção de sete, nenhum retornou de Caer Vandwy.

 

Não devo merecer muito daqueles de comportamento relaxado,

Eles não conhecem o dia em que o chefe se originou.

Qual a hora do dia sereno em que o dono nasceu.

Que animal eles guardam, prateada sua cabeça.

E quando fomos com Arthur, de saudosa memória,

Com exceção de sete, nenhum retornou de Caer Ochren.

Monges congregam como cães em um canil,

Do contato com seus superiores adquirem conhecimento,

É único o curso do vento, é única a água do mar?

É única a fagulha da chama, do incontrolável tumulto?

Monges congregam como lobos,

Do contato com seus superiores eles adquirem conhecimento.

Eles não sabem quando se dividem a noite profunda e a aurora.

Nem qual é o curso do vento, ou quem o agita,

Em que lugar ele morre, em qual terra ele ruge.

A sepultura do santo desaparece da tumba-altar.

Eu rezarei ao Senhor, o grande supremo,

Que eu não seja desventurado. Cristo seja minha porção.

 

O Livro de Taliesin, século XIV (a linguagem dos poemas pode data-los de antes do século X, contudo)

 

Gweir: Também Gweir mab Gwystal, é um personagem enigmático na mitologia britânica, sendo citado, além desse poema, nas Trioedd Ynys Prydein, no conto de Peredur mab Efrawg e nos poemas de Gogynfeirdd. Não temos informações sobre como ele veio a ser aprisionado no Outro Mundo, mas o caso parece ter alguma relação com Pwyll e Pryderi;  infelizmente, a história parece ter sido perdida. Nas Trioedd Ynys Prydein ele é descrito como um dos “Três Guerreiros Coroados da Ilha da Bretanha”, e ele é um dos cavaleiros de Arthur no conto de Peredur. O mito arthuriano faz uma mistura de personagens divinos e “mundanos” em diversos relatos, principalmente nos contos folclóricos do País de Gales (bastante diversos do Romance medieval), e não é impossível que Gweir fosse algum personagem ligado aos outros dos Quatro Ramos do Mabinogion, cuja lenda do aprisionamento tenha persistido e ele tenha sido adequado ao ciclo de lendas de Arthur, como ocorre com Gwynn ap Nudd e Mabon ap Modron. É interessante notar que seu nome pode vir da raiz galesa Gwair, que significa “feno”, ou de gweirdir, que significa “campina”, mas também pode ser traduzido como “Cativo filho do Refém” (um quarto significado poderia ser “serviçal”, de gweis). Em certos aspectos, os três significados evocam a busca do mito arthuriano pela regeneração da Terra, que pode ser alcançada com o Graal, que aqui é refletido pelo Caldeirão. A busca pelo Caldeirão é a busca pelo Graal, e a regeneração da Terra deve passar pela libertação do cativo que representa a fertilidade, como acontece com Mabon ap Modron em Culhwch ac Olwen. Gweir é o “Cativo”, como o é Mabon, mas também pode ser o “Feno”, a “Forragem”, a fartura e a alimentação dos animais. A partir dessa teoria, pode ser que Gweir tivesse uma importância maior no mito Britânico antigo; ele pode ser, inclusive, apenas um aspecto de Mabon, o Deus Aprisionado, que precisa ser libertado para trazer a fertilidade de volta à Tribo. São apenas teorias, mas não totalmente desprovidas de evidências mitológicas.

Caer Siddi: Fortaleza do Outro Mundo (também grafada alternativamente Caer Sidi) que surge nesse poema, e também em outro trabalho supostamente atribuído a Taliesin chamado “Canção Perante os Filhos de Llyr” (Livro de Taliesin XIV); atualmente é muito comum interpretar o nome como associado às colinas do Outro Mundo da Irlanda, os Síd, mas essa associação é improvável do ponto de vista linguístico, uma vez que o cognato exato do termo irlandês (que significa “paz, quietude”) é hedd em galês (hyd em galês medieval); a menos que o termo tenha se cristalizado antes da aspiração do “s” (*senos, irlandês seán, galês hen…), ainda no período do Britônico, o que é improvável. A tradução, contudo, permanece problemática, sendo sugeridas “Fortaleza da Mutação” (algo apropriado ao Outro Mundo), “Fortaleza Circular”, “Fortaleza Giratória”, “Fortaleza Espiral” (talvez retratado nas espirais do Glastonbury Tor) e “Fortaleza do Zodíaco” (em galês, sydydd). Localizações físicas também foram propostas para ele, como a ilha de Grassholm, em Penbrokeshire, mas novamente não há evidências de que houvesse uma localização terrena para ele. Também é possível que fosse outro nome para Caer Feddwid.

Pwyll e Pryderi: Personagens do Mabinogion; Pwyll  é o homem mortal que troca de lugar com Arawn, tornando-se assim Pwyll Pen Annwn, ou “Pwyll, Chefe do Não-Mundo”; ele se casa com Rhiannon (Rigantona, “Grande Rainha”) e eles tem um filho; a criança é roubada por meios sobrenaturais, mas é resgatada por Teyrnon (Tigernonos, “Grande Senhor”) e devolvida aos pais, recebendo o nome de Pryderi. Ainda que saibamos pouco sobre o tempo que Pryderi passou com o pai, ele é um personagem venturoso (surge nos quatro ramos do Mabinogion), o que sugere que sua vida foi plena de aventuras e jornadas. Já foi dito uma vez que ele foi o Mabon original, e que o Mabinogion conta sua história, desde o nascimento no primeiro ramo até a sua morte no quarto, mas isso não explica o porquê de ele não ser o protagonista de todos os contos.

Annwn: O Outro Mundo da mitologia galesa; seu nome significa o “Não-Mundo” (do céltico antigo, Andumnos), e ele possui algumas semelhanças e diversas diferenças com as ilhas mágicas do Outro Mundo irlandês, mas a semelhança primordial aqui é o fato que ele também é alcançado com uma viagem “marítima”, semelhante às Imramma irlandesas.

Prydwen:  A nau que transporta o rei Arthur e seus homens na viagem até Annwn; seu nome significa “Brittania”, o que sugere que a comitiva sequer tenha deixado a ilha da Grã-Bretanha, e a viagem tenha ocorrido de forma diferente da física, como um tipo de jornada visionária. Mas isso é uma teoria apenas, e a viagem pode ter ocorrido literalmente também (ou não ter ocorrido de forma alguma, em se tratando de um mito tão antigo)

Caer Pedryvan: Uma fortaleza de Annwn; sua descrição e nome indicam que ela poderia ser dividida em quatro partes e que nela o Caldeirão que era aquecido pelo sopro de nove donzelas mágicas (protótipo do Graal da era do Romance) foi encontrado; descrições que trazem a lembrança desse momento são o Caldeirão da Regeneração, que surge no segundo ramo do Mabinogion, o Caldeirão da Fartura do Dagda, do mito irlandês, e a presença de nove sacerdotisas isoladas em uma ilha lembra a descrição das nove mulheres curandeiras e profetizas que encontramos na descrição das ilhas Cassiteridas de Estrabão. Também é possível que fosse outro nome para Caer Feddwid.

Lleminawg:  Um dos homens de Arthur, e um dos Sete Sobreviventes da Bretanha, pois sobreviveu à busca do Caldeirão; era dito que ele possuía uma lança mágica, do qual ninguém poderia escapar.

Uffern: “Inferno” em galês. Talvez uma outra forma que o compilador do poema tenha usado para se referir ao Annwn.

Caer Rigor: “Fortaleza do Rei”, uma fortaleza em Annwn; também é possível que fosse outro nome para Caer Feddwid.

Caer Wydyr: “Fortaleza de Vidro”, um dos nomes que é normalmente associado a Avalon. Também é possível que fosse outro nome para Caer Feddwid.

Canhwr: “Centúria”, ou unidade de cem homens; então, três vintenas de canhwr são iguais a seis mil homens.

Caer Golud: “Fortaleza das Cavalgadas”, uma fortaleza em Annwn. Também é possível que fosse outro nome para Caer Feddwid.

Cwy: sem informações claras.

Devwy: sem informações claras.

Caer Vandwy: “Fortaleza nas Alturas”, uma fortaleza em Annwn. Também é possível que fosse outro nome para Caer Feddwid.

Caer Ochren: “Fortaleza da Forma Mutável”, uma fortaleza em Annwn. Também é possível que fosse outro nome para Caer Feddwid.