Por Wallace Cunobelinos

Todos os gauleses afirmam descender de Dis Pater e dizem que essa tradição foi transmitida pelos druidas. Por essa razão, contam as divisões de cada estação não pelo número dos dias, mas das noites; observam os aniversários e os começos dos meses e dos anos de forma tal que o dia venha após a noite.

Júlio César, no ‘De Bello Gallico’

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Essa é uma das citações mais famosas que existem sobre a religião gaulesa antiga. E ela nos diz alguma coisa relevante, principalmente sobre que tipo de Deuses esses celtas antigos cultuavam; ‘tipos de Deuses’, contudo, é diferente de ‘quais Deuses’. É um processo natural tentar entender uma cultura estrangeira através dos olhos da própria, mas isso não quer dizer que a visão seja precisa; a Interpretatio Romana é um processo desse tipo: observar aos deuses e culto de um povo estrangeiro, e tentar interpreta-los à luz dos deuses e cultos romanos, o que muito provavelmente traria uma visão geral sobre uma deidade, mas impediria o reconhecimento da mitologia, aspectos de culto, e características individuais dessa mesma deidade. É óbvio que havia semelhanças entre os deuses dos celtas e romanos, eles eram povos de culturas razoavelmente aparentadas; mas isso não quer dizer que os deuses dos celtas FOSSEM os deuses dos romanos (não estou falando de intercâmbio cultural e religioso aqui; é perfeitamente possível que os celtas tenham realmente adotado o culto de alguns deuses romanos, e também de outros povos, após o contato com seu culto, assim como o processo contrário também ocorreu). Quem é a Minerva da Gália? É possível que estivessem se referindo Brigindo, mas podemos afirmar com certeza? Talvez fossem muitas deusas diferentes agrupadas pelos romanos sob a figura de Minerva. E quanto ao Mercúrio gaulês? A descrição nos faz pensar em alguém semelhante ao Lugh irlandês (na Gália, Lugus), mas a ausência de mitos próprios registrados, ou mesmo de mais citações nominais, torna difícil fazer qualquer afirmação com certeza. Portanto a identidade de Dis Pater ainda permanece incerta para todos nós.

Porém, mesmo com todas as dúvidas, essas informações são tudo o que temos sobre muitas deidades gaulesas. É com elas que temos que trabalhar se quisermos construir uma forma de culto coerente a respeito delas, se nos sentirmos chamados a isso. Na verdade, se soubermos separar bem os detalhes do material, entendendo as diferenças de concepção social, estética e religiosa entre celtas e romanos, é possível realizar um trabalho que pode atingir uma precisão maior do que nas reconstruções dos cultos aos Deuses da Grã-Bretanha, ou mesmo da Irlanda. Mesmo que nos faltem os mitos essenciais para compreender a história da deidade, podemos buscar informações para entender o bastante sobre esse antigo ancestral, Dis Pater, Pai dos Gauleses.

 

Em Busca do Dis Pater Romano

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Se quisermos entender Júlio César quis dizer ao comparar o deus ancestral gaulês com Dis Pater, temos primeiro que entender o que Dis Pater era para os romanos. De acordo com a Encyclopedia of Greco-Roman Mythology, Dis Pater era “o mais rico de todos os deuses romanos; o deus da Morte e do Submundo que foi igualado com o grego Hades. Ele também era conhecido como Orcus, mesmo pelo eufemismo Plutão, que parece ter sido adotado dos gregos, já que o título significa ‘o Rico’, uma referência a sua possessão de todos os metais ricos e gemas da terra”. A ligação de Plutão com Hades parece bastante clara, uma vez eram ambos deidades ctônicas, ligadas ao Submundo, aos mortos, e à terra e suas riquezas, além de ambos serem irmãos de Júpiter (Zeus) e Netuno (Poseidon), e casados com Prosérpina (Perséfone); essa informação pode ser relevante mais tarde. O nome Dis pode ser uma contração de *Dîvês, que significaria ‘rico’, uma tradução do grego plouton. Porém, a sua origem na península itálica é muito provavelmente etrusca, e não a de uma deidade helênica adotada. Ele era originalmente o deus das riquezas, dos metais preciosos, das profundezas, da fertilidade agrária e das gemas que se escondem sob a terra (daí o seu casamento com Prosérpina, deusa da fertilidade e da germinação de sementes); o Submundo era conectado com a morte não só das pessoas, mas também da própria terra quando o inverno chegava. Na primavera Dis Pater e Prosérpina emergiam para plantar as sementes e trazer a vida de volta à terra (à semelhança da lenda de Perséfone). Porém esse casal divino etrusco só foi oficialmente agregado ao panteão romano no século III a.C., e assim se tornaram os governantes do mundo dos mortos; provavelmente nessa época os romanos estabeleceram a comparação entre Hades e Dis Pater.

Mas Dis não se refere apenas ao nome do Senhor do Mundo Inferior, mas também ao próprio reino (a exemplo do caso grego, onde Hades é por vezes usado para se referir também ao mundo inferior, não apenas ao seu senhor). O Submundo na mitologia romana (e etrusca, de onde veio Dis Pater) diferia um tanto da visão grega, sendo originalmente uma terra de riquezas e o local onde os deuses aguardavam a primavera. Foi a partir do sincretismo entre Hades e Dis Pater que o Submundo se tornou o destino dos mortos; mas nem todos os mortos romanos partiam para Dis: os espíritos dos mortos benevolentes (Manes) permaneciam na terra para proteger aos vivos, os espíritos dos ancestrais (Lares) permaneciam protegendo as suas famílias, e os espíritos dos ancestrais mais ilustres e imperadores romanos também eram divinizados. Não é surpresa, portanto, que Virgílio tenha descrito Dis como um lugar ermo e escuro, habitado pelos espíritos da noite e dos mortos; afinal, nenhum dos grandes espíritos iria para lá.

Há, porém, controvérsias sobre essas informações. Há uma outra possível tradução para o nome de Dis Pater, vinda diretamente do indo-europeu, que teria a sua base em *Dyeus Phter; se essa tradução fosse confirmada, então ele seria o ‘Deus Pai’ para os etruscos antigos (a raiz é a mesma para Júpiter e Zeus, além do sânscrito Dyaus Pitar), o que poderia indicar uma crença semelhante à gaulesa na descendência de um deus do submundo; ou o próprio sincretismo dele com Hades pode ter ocorrido por já haver Júpiter no panteão romano. Outra controvérsia é sobre seu casamento: Dis Pater não é um empréstimo grego, é uma deidade nativa, quase que certamente etrusca; mas Prosérpina é claramente um eco de Perséfone, não apenas em mitologia, mas também em culto, o que pode nos indicar que o casamento de Dis Pater com ela pode só ter existido a partir do sincretismo com Hades (marido da Perséfone original), fato reforçado pelo fato de ele ter a deusa céltica Aericura como consorte no sul da Alemanha e nos Balcãs. E por último, a sua própria relação com Plutão não é clara; ainda que a crença geral indique que dîvês (contraído para dis) seja uma tradução para o plouton grego (que era um título de Hades), e que por isso Pluto tenha simplesmente substituído o nome original na mitologia romana, há a possibilidade de que fossem deidades distintas (no caso, uma etrusca e outra romana) que foram assimilados, com Plutão tomando o lugar do Dis Pater na religio romana. São conjecturas, mas que devem ser conhecidas para entender o quão amplo é o panorama do estudo dessas deidades.

 

E na Keltia

O primeiro lugar em que vamos procurar evidências sobre a identidade do Dis Pater céltico é, obviamente, a Gália. Ao contrário do que muitos pensam, a Gália é uma região de estudos absolutamente rica, ainda que em aspectos diferentes das outras regiões célticas. Há uma quantidade enorme de registros arqueológicos que evidenciam não o mito, mas o culto, o que torna essencial um conhecimento básico sobre a região. E quando nos voltamos especificamente para Dis Pater temos… quase nada.

É algo que é surpreendente, mas não totalmente inexplicável. Dis Pater foi o nome que os romanos (Júlio César) deram a uma deidade céltica nativa; ou seja, a sua identidade entre os gauleses deve estar sob outro nome. Ainda assim, é uma pena que não haja inscrições bilíngues (galo-latinas) identificando exatamente o Dis Pater gaulês com seu equivalente romano; mas trabalharemos com o que temos. Há muitas deidades gaulesas que vêm sendo associadas com essa figura ao longo do tempo. A afirmação mais frequente é que ele se trataria da figura de Cernunnos; essa ideia possui algum grau de possibilidade, mas também um grau de improbabilidade: começando pelos contras, Cernunnos é comumente representado (não apenas no Caldeirão do Gundestrüp, mas também em outras representações de homens com chifres da Gália) como cercado por animais sagrados e mitológicos, bem como com um torque em mãos, às vezes em posição ritualística (principalmente a conhecida òrans); ou seja, ele parece algo muito mais ligado aos aspectos mais primitivos da religião, da ritualística ligada à natureza e ao mundo selvagem, talvez até mesmo das jornadas ou transes visionários (uma vez que animais fantásticos fazem parte de sua iconografia), do que propriamente um deus ancestral dos homens. Mas há uma possibilidade (que pode ser algo completamente incoerente para alguns) de que o fato de o Cernunnos tradicional não ter realmente chifres, mas galhadas, represente um mito de descida ao mundo inferior no inverno e renascimento da vida no verão, com uma semelhança com o mito de Hades e Perséfone (pois as galhadas do cervo caem no inverno e voltam a crescer na primavera). Uma outra possibilidade é que o Dis Pater esteja na tríade citada pelos romanos como os principais deuses dos gauleses, Teutates, Taranis, Esus; mas qual deles? A tríade de Deuses regentes é padrão mais do que comum entre os indo-europeus e está longe de ser apenas céltico; Zeus, Poseidon, Hades (senhores gregos do céu, dos mares, e do mundo inferior), Odin, Thor e Freyr (os deuses nórdicos representados no templo de Upsalla, de acordo com Adão de Bremen), Perkunas, Pekullos e Potrimpos (os deuses bálticos que eram representados em Romowe, na Prússia, de onde o Romuva derivou o seu nome), Brahma, Vishnu e Shiva (a trindade indiana de Criador, Mantenedor, Destruidor, conhecida como Trimurti) e os três deuses que participam da anrúm antes da batalha de Magh Tuiread, Lugh, Oghma, e Dagda. Essas tríades apresentam um padrão comum, e ele também existe na tríade gaulesa; mas qual deles se aproxima do Dis Pater? A Berne Scholia (um documento do século IX, que comenta a Pharsália, de Lucano) sugere que o Dis Pater gaulês seria um título para Taranis, certamente pensando no padrão helênico onde o ‘Pai de Todos’ seria também o deus portador do raio e regente dos céus; o problema é que a descrição original de César (e a própria deidade romana usada na interpretatio) sugere uma deidade ctônica, não celeste, e ligada a ancestralidade do povo gaulês. Talvez o modelo grego não seja o apropriado aqui, mas qual seria então? Teutates (também chamado pelo título de Medurinis) é o ‘Pai da Tribo/Povo’ gaulês, e ele pode ser uma escolha mais apropriada, mesmo porque as vítimas sacrificiais dessa deidade eram normalmente afogadas em toneis; essa informação pode ser relevante adiante. Outro candidato ilustre ao título de Dis Pater costuma ser Sucellus, o ‘Golpeador’, uma deidade normalmente representada com um martelo e um tipo de pote chamado olla (normalmente usado para cerveja, o que nos traria uma possível ligação com Goibhniu), e que possui uma quantidade bastante significativa de inscrições encontradas por todo o território gaulês (o que evidencia que era bastante conhecido e reverenciado), além de ter sido representado ao lado de Cerberus em algumas imagens; ainda que pareça um tanto apropriado ao ancestral do povo gaulês ser representado como um guerreiro, ainda temos algumas evidências incoerentes com a teoria de que ele fosse o Dis Pater. A primeira é a sua esposa; em muitas das representações iconográficas de Sucellus o encontramos junto com sua esposa, Nantosuelta, enquanto a esposa comum de Dis Pater é Aericura; outro ponto problemático é que Sucellus é sincretizado com Silvanus em mais de uma inscrição encontrada em território gaulês. Ainda há um outro possível candidato ao título de Dis Pater; na verdade, um grupo de possíveis candidatos: no texto de Parthenius de Niceia chamado ‘Das Tristezas do Amor’ encontramos uma ‘interpretatio’ grega para um possível mito de criação gaulês; nele, Hérakles (mais conhecido por aqui como Hércules) passa pela casa de Brettanus após roubar o gado dos geriões (um tema mitológico tipicamente celta, ainda que totalmente ligado também à lenda de Hérakles), e tem relações com a filha de seu anfitrião, Keltine; dessa união nasce Keltus, do qual todo o povo celta seria descendente. Ainda que essa lenda utilize nomes estranhos, encontramos nela três candidatos a Dis Pater: o próprio Keltus/Celtus, Brettanus (é interessante lembrar a citação de Júlio César em que é dito que a doutrina dos Druidas nascera na Grã-Bretanha e de lá ela teria migrado para a Gália; parece que a crença de que o mundo céltico teria tido sua origem nas ilhas e de lá migrado, ou retornado, para o continente encontra um pequeno eco no fato de Brettanus ser pai de Keltine e avô de Keltus) e Hérakles; e antes que este último seja descartado por ser grego, vale lembrar que os romanos não inventaram a ‘interpretatio’, eles apenas deram o nome à prática, e os próprios gregos também a praticavam. No texto ‘Hérakles, Uma Leitura Introdutória’, Luciano de Samosata nos diz que os gauleses se referiam a ele pelo nome de Ogmios (e é interessante que ele cita que os gauleses o representavam de tal forma, grisalho e de pele queimada, que ele facilmente o tomaria por uma deidade ínfera, como Caronte ou Iapeto). Assim, Ogmios também entra na lista de possibilidades para ser o Dis Pater, ainda que com uma ressalva: uma defixio (uma placa de maldição, nesse caso pedindo que uma certa mulher nunca se case) encontrada em Bregenz, Aústria, invoca Dis Pater e Ogmios; com o texto como foi encontrado não temos como inferir se estamos falando de duas deidades invocadas, ou se uma é titulo da outra, porém o título de ‘Deus da Morte e do Submundo’ nela é claro.

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Se partirmos para o mundo céltico insular para procurar paralelos a situação se torna ainda mais complexa. Não apenas temos o registro de muitos dos deuses que são encontrados Gália na Grã-Bretanha, com todo um novo mundo a ser verificado com a mitologia registrada na Irlanda e no País de Gales. Ainda que possa parecer um exagero buscar paralelos na mitologia insular, assumindo que os celtas dessa região pertenciam a culturas completamente distintas daquela da Gália, a quantidade de paralelos exatos entre o pouco que encontramos de mitologia continental e o mundo dos textos insulares nos dizem que nenhuma evidência deve ser descartada. Se começarmos pela Grã-Bretanha, muitos dos Deuses encontrados na Gália também o são no estudo da Brittania antiga; não é possível encontrar evidências muito melhores para a possível identidade de um Dis Pater, pelo menos no estudo arqueológico. O estudo mitológico, contudo, nos traz um dado interessante: a presença de uma entidade lacônica chamada Beli Mawr (“Beli, o Grande”), que era não apenas o pai e ancestral arquetípico de muitos personagens (deidades e homens; dentre os seus possíveis filhos divinos estava Arianrhod, Lludd Llaw Ereint, Llefelys e Afallach; entre os mortais considerados seus filhos estava o líder da tribo dos Catuvelanos, Cassivelaunos [em galês moderno, Caswallawn]; sua esposa na maior parte dos textos é Dôn, mas em algumas genealogias o citam como marido de Anna, uma suposta prima da Virgem Maria) do Mabinogion, mas também era considerado o mais antigo ancestral de diversas casas nobres do País de Gales. Aqui temos uma possível identidade para essa deidade ancestral, porém analisar o nome de Beli trará uma inevitável ligação com Belenos, deidade conhecida na Gália e na Grã-Bretanha como um deus do fogo e da luz; um deus do submundo poderia ser também uma entidade do fogo? Há um senhor dos mortos e do Outro Mundo (Andumnos) na mitologia galesa que, de fato, possui semelhanças enormes com a descrição que nos é ofertada por Júlio César: Gwynn ap Nudd. Ele não possui apenas o título necessário para ser considerado um dos senhores do Submundo (ele é chamado de ‘Rei dos Mortos’ e de ‘Rei das Fadas’), como diversas características apontam para um suposto Senhor do Submundo; sua lenda do rapto de Creyddladd guarda uma semelhança com o mito de Perséfone, e a aproximação com o Dis Pater é maior no fato de que ele retorna à superfície para lutar por ela na estação quente. Como se não bastasse, ele ainda é um protetor, pois guarda a entrada para o Outro Mundo e impede que os espíritos de lá passem para esse. Mas seria ele o Dis Pater? Não há nada que sugira o posto de Deus Ancestral para Vindos Nodengnatos, além do fato de ele reinar sobre os ancestrais, os mortos. Mas o reino de Gwynn não é apenas dele, mas também do rei Arawn, aquele que troca de lugares com Pwyll após ter seus cães atacados por ele; os mitos de Arawn e Gwynn possuem semelhanças notáveis: reis de Annwn, matilhas de cães (Gwynn é o senhor da Caçada Selvagem de Gales, com a sua matilha dos Cwn Annwn) e um adversário terrível que os desafia anualmente; são tantos pontos em comum que é normal acreditar que eles seriam a mesma deidade chamadas por nomes diferentes. Porém Arawn tem uma característica que Gwynn não tem: ele é aquele que unge um rei (Pwyll) com a benção do Outro Mundo, fazendo-o rei tanto de Dyfed quanto o Pen Annwn. Isso pode ser um ponto significativo.

E quanto à mitologia irlandesa? Nela também encontramos candidatos à posição de Dis Pater. A primeira e mais óbvia é do ‘Bom Deus’, o Dagda; não é incomum encontrarmos referências ligando as duas entidades: antes de tudo, ele é o Ollathair, ‘Pai de Todos’; ele carrega um cajado, um eco do longo martelo de Sucellus, que traz a vida e a morte; ele possui óbvias ligações ctônicas com a fertilidade; e é uma deidade antiga, tanto na mitologia quanto na especulação sobre o início de seu culto, uma vez que os traços que podemos identificar nas suas descrições indicam um ente que teve suas características reconhecidas ainda no neolítico. Mas isso é o bastante? O verdadeiro nome do Dagda é Aédh, ‘fogo’, e aqui caímos em um dilema semelhante ao que envolve Belenos: o Deus Luminoso também seria o Senhor do Submundo? Se tentarmos, a partir da possibilidade de o Dis Pater gaulês esconder Ogmios, a contraparte irlandesa, Oghma, não encontraremos evidências melhores e, apesar de ser uma figura imponente, ele ainda parece menos apropriado ao papel de pai da humanidade do que seu irmão (com a possível exceção de ele ser realmente associado com Cermait Milbheál, o pai de Mac Gréine, Mac Cécht, Mac Cuill, que muito provavelmente representam as três classes sociais da cultura celta, Nobres, Camponeses, e Eruditos), o Bom Deus; não é impossível, contudo: diversos estudiosos de mitos nórdicos já aceitaram a teoria de Hilda E. Davidson de que, na religião germânica primitiva, Tiwaz (a contraparte germânica do proto-indo-europeu *Dyaus) ocupava uma posição mais importante no panteão do que Wodanaz, mas os papeis se inverteram com o tempo (e distribuição geográfica) e assim Odin foi reconhecido como o Senhor dos Aesires no extremo norte, enquanto Tyr seria ainda um deus importante, mas não mais dotado da predominância original no panteão. Não estamos, contudo, afirmando que isso tenha ocorrido entre Ogmios e Dagodewos, apenas levantando hipóteses. Na mitologia irlandesa ainda temos duas figuras que poderiam se encaixar nesse posto; ironicamente, dois irmãos (como no caso de Dagda e Oghma), que seriam Eber Donn e Érimon. É interessante a semelhança que essa teoria guarda uma semelhança enorme com a hipótese indo-europeia de que a ancestralidade dos homens nasce de dois irmãos (e gêmeos são uma representação absolutamente comum na Gália), como no caso de Rômulo e Remo, os Dioskhouri da Grécia, os Ásvins védicos, e com paralelos também nas mitologias báltica e eslava; Eber Donn é o ‘Escuro’, aquele que é morto antes de seu povo conquistar a Irlanda (um mito de sacrifício, como o dos gêmeos romanos), e por isso ele parte para Tech nDuinn (‘a Casa de Donn’), e rege aos mortos do povo gaélico, e é considerado seu ‘pai’. Talvez seja mais do que o bastante, mas ainda temos o seu irmão, Érimon, a considerar; ele também é um dos pais do povo gaélico, que parte em busca de vingança pela morte Donn (há mais um irmão, Eber Finn, ‘o Claro’, sugerindo a presença de uma dualidade, aos moldes dos eslavos Bielebog/Czernobog). Talvez Érimon não tenha um cargo de Senhor do Submundo como o irmão, mas a etimologia do seu nome nos leva aos pais dos homens em outras mitologias indo-europeias, Aryiaman na Índia, Aríaman no Irã, Irmin entre os anglo-saxões; e não podemos esquecer o teônimo Ariomanus registrado na Gália, já na área céltica. Acrescenta-se aí a citação de Timeu (século III a.C.) de que os celtas do norte da Gália honrariam mais aos Dioskhouri que aos outros deuses (pois seriam deuses que teriam vindo através do oceano, como as Tuatha de Dé Danann da Irlanda, e os próprios Milesianos) e temos um quadro que não é desprezível. Estaria aí o Dis Pater? Por último, temos de considerar a possibilidade de haver alguma ligação entre Manannán mac Lir e Goibhniu com o Senhor do Mundo Inferior; embora o Submundo de Dis Pater pareça um lugar bastante distinto do mundo além das ondas de Manannán, ele ainda carrega uma semelhança enorme com os Síd da Irlanda. Interpretativamente, principalmente em grupos druídicos e reconstrucionistas modernos, o Mar equivale ao mundo inferior, do qual a Bilios bebe com suas raízes e nutre a árvore que cresce na Terra e se ergue aos Céus, mas essa é uma interpretação religiosa, não literal. De qualquer forma, Manannán é rei do Outro Mundo e, se levarmos adiante a possibilidade de seu reino ser considerado um ‘submundo’, ele ainda teria uma possibilidade de ser o Dis Pater; quanto a Goibhniu, ele é o fornecedor da cerveja da imortalidade, servida no banquete das eras de Manannán. Ainda que não seja especificamente um rei, encontramos aqui uma ligação com Sucellos que pode ser significativa (uma vez que Goibhniu é uma deidade praticamente pan-céltica, conhecido em Gales como Gofannon, e na Gália sendo registrado como Gobannvs).

 

Juntando as Pontas

‘Juntar as pontas’ não nos trará nenhuma resposta definitiva nesse caso, e nem mesmo estamos procurando uma. Apenas nos ajudará a entender um pouco o que os povos antigos deviam entender por sua deidade ancestral divina; e muito provavelmente vamos chegar à conclusão de que não existiu apenas um Dis Pater, mas vários, talvez um para cada tribo celta diferente.

Vamos começar pela própria afirmação de Júlio César; a despeito da interpretatio, ela ainda é completamente pertinente ao que entendemos como pensamento céltico: ao associar a ancestralidade a uma deidade do submundo (que também é a regente do mundo dos mortos), vemos o processo de ciclicidade céltico em funcionamento, desde o início na escuridão ao nascimento, crescimento, auge, decadência e retornou ao mundo do deu ínfero ancestral. Esse ciclo pode ter sua escala diminuída para uma forma anual, e assim teremos o ciclo de Samhain a Samhain. Se diminuirmos o mesmo ciclo ao microcosmo da escala diária, retornamos à afirmação de César, onde ele cita que os gauleses contavam o tempo a partir da noite; até aqui a citação ao Dis Pater é coerente. Ainda na citação de César encontramos o ponto mais importante, a de que os gauleses acreditavam descender de Dis Pater; essa é uma afirmação comum no mundo antigo, pois muitos povos acreditavam descender de deuses ou semideuses. Porém há duas abordagens comuns dessa afirmação: a primeira diz que a nobreza desses povos descende dos deuses; a outra diz que todo o povo descende dos deuses. A diferença pode parecer pequena, mas ela separa bastante o grau de ‘desenvolvimento’ (e estratificação) social das sociedades antigas: povos em posições mais arcaicas e tribais tendem a acreditar que todos os seus membros descendem dos mesmos deuses, enquanto aqueles em sociedades que atingiram padrões sociais mais rígidos costumam separar a origem divina de seus nobres; porém, dentre os citados acima, os únicos que tem características de serem deidades ancestrais são Teutates (‘Pai da Tribo’, ‘Aquele que Pertence à Tribo’), Ogmios (por ser o pai do filho de Keltine, Keltus; além de ser também provável o pai Mac Cécht, Mac Cuill e Mac Gréine, sendo assim o provedor das classes sociais do mundo antigo), Beli Mawr/Belenos (na versão galesa, como ancestral das casas nobres), o Dagda (‘o Pai de Todos’), Eber Donn e Érimon (sejam juntos, como os gêmeos das mitologias indo-europeias, ou separados) e, de forma mais improvável, Arawn (por ungir o rei divino; mas não há evidências mais fortes do que isso, ele não é citado como ancestral de um povo ou de casas nobres).

Mas se todos esses podem ser considerados os deuses-ancestrais (cada qual com as suas evidências), algum deles pode ser considerado o Rei do Submundo? Iniciando com Teutates (Toutates), ele não possui uma evidência em favor disso, mas ele é associado a Marte em inscrições britânicas, não a Dis Pater ou Plutão. Ogmios não tem uma possibilidade muito maior, uma vez que ele é sincretizado com Hérakles, mas ainda possui em seu favor a intrigante descrição de Luciano de Samosata, onde é citado que ele tem a aparência de uma deidade do mundo inferior, além da defixio de Bregenz. Beli Mawr, enquanto uma possível versão de Belenos, é provavelmente uma deidade luminosa, do fogo, o que tornaria incoerente o reino do mundo inferior, e o mesmo ocorreria com o Dagda (‘Aédh’), se ele não fosse um dos reis das Tuatha Dé Danann e dos Síd, o mundo inferior dentro das colinas da Irlanda, o que o torna um candidato promissor. Já entre os irmãos, Eber Donn é um candidato muito mais forte, com a sua morada em Tech nDuinn, mas temos que lembrar sempre que o culto europeu aos deuses-gêmeos-ancestrais ocorria de forma única, mesmo que um fosse o sacrificado e o outro o rei da Terra. Quanto a Arawn, ele é literalmente o ‘Rei do Não-Mundo’, Pen Annwn, e isso o torna um candidato forte à posição de Deus do Submundo e Ancestral da Tribo. Entre aqueles não citados no último parágrafo, contudo, encontramos Cernunnos (partindo da ideia de que sua representação no Caldeirão de Gundestrüp represente o Outro Mundo, o que é improvável), Sucellus (que é o portador da cerveja do Outro Mundo, se interpretamos corretamente a sua olla, além de ser representado ao lado de Cerberus na iconografia galo-latina), e Gwynn ap Nudd, Senhor do Outro Mundo, que guarda a sua entrada e lá vive com uma esposa sequestrada durante metade do ano, além de ser o Rei dos Mortos; nesse aspecto, Gwynn é um candidato imponente, principalmente para os que consideram que ele e Arawn são a mesma entidade.

Se nos voltarmos para a esposa de Dis Pater encontraremos fatos interessantes; aquela que é normalmente apresentada como a sua esposa é a deusa gaulesa Aericura (Herecura, Heracura, Herequra, Aeraecura, talvez ligada à galesa Aerten, uma deusa galesa da guerra invocada antes dos embates contra os saxões), que possui um nome de etimologia incerta, podendo significar ‘Guardiã em Batalha’ (*Aer+ cura, do britônico), ou algo aproximado a ‘Senhora da Riqueza’ (*Aeris+era, do latim), mas isso ainda está disputa. Aericura possui características incertas, uma vez que nas suas representações e inscrições mais antigas ela possui as características de uma deusa ctônica da Terra, com dotes maternais e de fertilidade, e é associada com Silvanus; porém, nas mais recentes ela possui as características mais próximas de Prosérpina, inclusive com a representação de Cerberus, e é associada alternativamente com Dis Pater e Ogmios. A primeira característica a ser entendida é que ela era inicialmente associada com Silvanus, e este costumava assimilar a figura de Sucellus na iconografia galo-romana; a outra deusa que costumava ser associada a ele era Nantosuelta, uma deusa com características de protetora do lar, cujo nome gera discussões sobre a tradução (‘Rio Corrente’ e ‘Aquela que é do Vale Aquecido pelo Sol’ já foram sugeridas). O fato de Aericura ser associada tanto a Dis Pater quanto a Silvanus pode ser uma indicação de que o deus gaulês por trás das figuras romanas fosse o mesmo, porém não há uma certeza: o mito (principalmente das culturas orais) se transforma em lugares e tempos diferentes, e pode ser simplesmente que, em tempos posteriores, os gauleses de outra região tenham entendido que ela é uma esposa mais adequada a Dis Pater ou Ogmios. Seu nome, se fosse derivado da raiz latina primitiva citada, funcionaria perfeitamente bem para a esposa do Senhor da Riqueza, Dis Pater, mas a probabilidade de ser totalmente céltico é maior, e por essa interpretação ela seria uma Deusa da Guerra; nada inapropriado para o Senhor do Mundo dos Mortos, e mais ainda, podemos encontrar um paralelo para a relação do Dagda com a Morrighan citada na Cath Maige Tuiread. Porém, em suas representações mais recentes ela costuma ser representada com características de Prosérpina/Perséfone, o que traz uma ligação forte com o mito de Gwynn ap Nudd e Creiddylad, onde ele (o Deus do Submundo) rapta a prometida de Gwythir ap Greydawl, e ambos devem lutar anualmente por ela no Beltane; Gwynn é aquele que tem a semelhança maior com Hades/Plutão, pelo menos mitologicamente falando, e é aquele que tem a esposa mais próxima de Perséfone/Prosérpina, como Aericura é retratada. Ela também foi retratada junto a Cerberus, assim como Sucellus, e Gwynn também é associado a cães do Outro Mundo, assim como Arawn.

O reino do Submundo costuma parecer um lugar sombrio, pelo menos se pensarmos na visão romana do reino de Plutão, mas a visão etrusca dizia que era um lugar de riquezas (onde estavam os metais e as pedras preciosas), de onde Dis Pater emergia com Prosérpina para trazer a vida de volta à Terra na primavera. Essa descrição do Submundo carrega uma semelhança com a do Síd irlandês, mas mesmo os reinos de Annwn e de Manannán poderiam ser pensados dessa forma; ele é a morada dos Ancestrais, para onde os espíritos dos mortos vão. Esse lugar, porém, é a própria origem da vida, seja com o Dis Pater da Gália, seja com o Mar do mito irlandês que traz as invasões para a ilha, seja o Annwn/Andumnos do mito galês, que possui uma cosmologia tão complexa, mas que sugere a passagem entre um plano e outro. Além do mito do Rei do Submundo, temos também um mito solar e agrário presente, do retorna da vida na primavera/verão implícito nesses temas: Gwynn e Arawn tem os mitos mais claros sobre isso embora, diferente do Dis Pater, eles sejam reis do Outro Mundo que enfrentam um inimigo solar (Gwythir, o ‘Vitorioso’, e Hafgan, ‘Branco de Verão’); o Dagda (Deirgdearc, ‘do Olho Vermelho’, Aédh, ‘Fogo’, e Eochaid Ollathair, ‘Cavalo Pai de Todos’; os ciclos solares são comumente associados com o caminho de cavalos) e Oghma (Gríaneach, ‘do Rosto do Sol’) também possuem ligações solares claras. Ao contrário do que muitos pensam, não há nada que ligue Belenos ao sol, apesar de isso poder ser entendido a partir do seu nome; mas sua ligação mais óbvia é com o fogo, a ligação solar é principalmente especulação. Uma possível ligação de Cernunnos com esse mito também é cogitada, uma vez que ele possui galhadas, e elas caem no inverno e voltam a crescer na primavera.

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Senisteros

No final, é um tanto incerto tentar definir a identidade de uma única entidade que Júlio César tenha descrito como Dis Pater; é mais provável que diferentes povos célticos tenham tido cada qual o seu próprio Dis Pater, cada qual chamado pelo seu próprio nome: Ogmios é aquele com a maior quantidade de evidências na Gália, e essas evidências podem ser ainda mais fortes se compararmos com aquelas que o mito irlandês nos traz, tornando-o o ‘pai’ das classes sociais (representadas por Mac Cécht, Mac Cuill e Mac Gréine) do mundo celta; alguns podem se ressentir de sua posição no mito irlandês parecer menor do que a de Lugh ou do Dagda, mas nem sempre é a deidade mais titânica do panteão aquela a ser o ‘pai’ da Tribo: no Rigsthula, da mitologia nórdica, é apresentado Rigr como o ‘pai’ da sociedade nórdica (ao estabelecer o papel das três castas sociais, Jarl, Karl e Thrall) e este não é interpretado como sendo Odin, mas comumente glosado como sendo Heimdall; vale lembrar também que ele é um dos três participantes do anrún antes de Magh Tuiread, membro de uma trindade de deuses, como Esus, Taranis, Teutates. Mas na Gália ele é um deus do mundo inferior, algo citado tanto por Luciano de Samosata e pela defixio de Bregenz; ele é marido de Aericura, ele é pai de Keltus, assim como o das três classes sociais na Irlanda (em um mito desenvolvido de forma mais complexa), e não deixa de ser um deus guerreiro (associado pelos gregos a Hérakles) e senhor da eloquência e da comunicação. Nada falta a ele para ser pai da Tribo. Mas Teutates é o ‘Pai da Tribo/ Aquele que pertence à Tribo, e também faz parte de uma trindade de deuses; as vítimas sacrificadas a ele eram afogadas, uma forma de retornar ao submundo representado pelo reino do Mar, das águas subterrâneas das quais a Bílios retira o seu sustento. Sucellus é um deus guerreiro, associado ao Submundo e à cerveja da imortalidade. Gwynn ap Nudd (Vindos Nodengnatos) é o Senhor do Andumnos, Rei dos Mortos, Líder da Caçada Selvagem, e governa o Submundo junto a Creidyladd, até subir para a superfície para enfrentar Gwythir no Beltane; se assumirmos que ele e Arawn são faces diferentes da mesma deidade, podemos incluir o fato de ele ungir ao rei com a Soberania sagrada, aquela que é reconhecida neste mundo e no Outro, tornando-o um Ancestral. Eochaid Ollathair, o Dagda, é o ‘Pai de Todos’, deidade com características de fertilidade e rei de um Submundo paradisíaco (Síd, que significa ‘Paz’), um deus titânico e portador da vida e da morte com seu cajado; e é alternativamente citado como um irmão de Oghma, fortalecendo o mito indo-europeu dos irmãos ancestrais. O mesmo ocorre com Eber Donn e Érimon, poderosas evidências do antigo mito indo-europeu de fundação, o irmão sacrificado que governa o Submundo dos mortos (e, na tradição gaélica, esse reino fica no Mar, na ilha de Téch nDuinn) enquanto o outro é paralelo exato dos ancestrais de outros povos (Ariomanus, Irmin, Ariaman, Ariyaman…); um reforço à alegação de Timeu, que dizia que os Deuses Gêmeos eram os mais cultuados pelo gauleses próximos da costa, pois teriam vindo do Mar (Submundo) para os mortais. Beli Mawr/Belenos é o Ancestral dos nobres de Gales (e, consequentemente, dos remanescentes das tribos Britônicas), enquanto Manannán é o Rei do Outro Mundo Além do Mar, a terra para onde as almas vão. Em maior ou menor grau, todos eles podem ser Dis Pater, o Ancestral, o Senisteros.

A verdade é que determinar qual é a identidade do Dis Pater talvez seja menos importante do que entender suas características; é possível que diferentes povos celtas tenham tido deidades ancestrais diferentes também, mas com certas características em comum: são Deuses e Reis do Submundo, manifeste-se ele como um mundo inferior semelhante ao Síd da Irlanda, ao Annwn da mitologia de Gales, ou aos mares do caos primordial de Manannán, que também é a origem dos gêmeos que Timeu associou aos Dioskhouri; esse reino é o destino das almas, local de descanso dos Ancestrais, mas também é a fonte original de origem da vida e da Tribo: todas almas tem sua origem no Andumnos e a ele retornam, seguindo um ciclo natural de origem na Escuridão/Caos, passagem pela Terra, e retorno à sua condição de origem, o período de vida dos homens sendo uma versão microcósmica dos próprios ciclos da natureza (que se inicia com o Samonios, na estação escura, e a ele sempre retorna), e macrocósmica do ciclo dos dias (que são contados a partir da noite) e dos ciclos lunares (possivelmente contados a partir da lua nova, a partir das evidências da Carmina Gadelica). Essa deidade pode não ser o ancestral direto de toda a tribo, uma vez que os celtas eram povos que migravam e se mesclavam com outros povos, sejam nativos das terras onde estavam, seja em acordos tribais (de adoção, inclusive), mas ele era o ancestral arquetípico, ‘espiritual’ da Tribo, e pertencer a ela era entrar para a Sua descendência. Essa deidade voltava à Terra ao longo do ano, ou para trazer a vida novamente ao mundo (com a chegada dos dias mais claros e longos, e o calor da primavera), ou para reclamar de volta o seu reinado (com a chegada das chuvas, a queda das folhas, e os ventos que cantam a chegada do outono), e é casado com uma forma ctônica da Soberania, Aericura. Se ele é Ogmios, Sucellus, Teutates, Vindos, Arawn, Dagda, Eber Donn, ou Érimon, isso não temos como dizer; mas podemos dizer que, cada um ao seu modo, todos eles são (ou podem ser) Dis Pater, o Ancestral, o Senisteros.

 

Wedyâ ad Senisterobis

(Oração aos Ancestrais)

 

Honrar aos Ancestrais é uma das bases do Druidismo e do Reconstrucionismo Celta, não importa quem sejam esses ancestrais. O Druidismo possui uma visão mais completa (e complexa) do que são os Ancestrais, dividindo-os nos de Sangue, nos de Terra, e nos de Espírito. Qualquer que seja o caso, há uma necessidade de se honrar àqueles que vieram antes de nós. Mas entender quem são esses ancestrais? Não deveria ser necessário dizer isso, mas seus Ancestrais mais próximos são seus pais; você deve a eles, no mínimo, a sua passagem por esse mundo. Seus avós após eles, e assim por diante. Não importa se seus pais e avós não são pagãos, eles ainda devem ser honrados. Você o fará ao seu modo, assim como eles honram aos próprios ancestrais ao modo deles também. Também não importa se seus pais e avós não são de origem celta, eles ainda deverão ser honrados; lembre-se que dificilmente havia uma tribo céltica que teria apenas a reserva genética de seu próprio povo em sua constituição, com todas as migrações, assimilações, misturas, guerras (sim, guerras geram miscigenação, principalmente no mundo antigo), adoções e tutelas. Ainda assim, todos eram parte da mesma tribo, e todos eram descendentes do Dis Pater. Aqui eu venho propor uma forma de louvar a sua linhagem familiar e ao Dis Pater (qualquer que seja ele, uma vez que o chamarei apenas de ‘Ancestral’), pedindo as suas bênçãos à sua família, viva e morta. Vale lembrar também que esse é um exemplo de ritual apenas, não precisando ser seguido ao pé da letra; você pode fazê-lo, ou usa-lo como inspiração para criar seus próprios rituais, se quiser; pois cada um tem seus próprios Ancestrais e deve se conectar com eles da forma que achar mais cômoda.

Para a Wedyâ ad Senisterobis você precisará de uma chama (que pode ser de uma vela, uma lamparina, ou de um caldeirão), de um chifre ou caneca, uma bebida alcoólica leve (como cerveja, vinho ou hidromel), um incenso de homenagem da sua escolha, e de um lugar onde possa ser feita uma libação; também é bom ter objeto que lembrem seus pais, avós, e a cultura do qual descende (não importa de onde ela seja). Isso tudo dito, podemos começar:

 

Acenda a chama reverentemente, e encha o chifre/caneca com a bebida escolhida; faça um brinde virado para a chama, dizendo:

Ancestral, eu estou aqui para honrar os que vieram antes de mim

Estou aqui para honrar aos que deram a vida e o espírito!

 

Faça uma libação e beba um gole da bebida; então deposite sobre o altar o objeto que traga a lembrança dos seus pais (estejam vivos ou mortos; essa não é uma oração de súplica, mas de benção e honra) e então faça um brinde virado para a chama:

Ancestral, eu estou aqui para honrar aos meus pais (citar os nomes)

Oferto a você essa (nome da bebida).

Que você os abençoe.

 

Nota: pessoas que são adotadas muito provavelmente não conhecem os nomes de seus pais biológicos; nesse caso, essa pessoa tem duas linhagens de pais a honrar: a biológica, que lhe deu a vida, e a cultural, da família que lhe acolheu. Acrescente a esse ponto mais um verso, dizendo: ‘e a minha linhagem’, logo após o nome dos pais; faça o mesmo para os processos seguintes até chegarmos ao próprio Dis Pater.

Faça uma libação, e então beba um gole da bebida; então deposite no altar o objeto que traz a lembrança dos seus avós, e então faça um brinde virado para a chama:

Ancestral, eu estou aqui para honrar aos meus avós (citar os nomes)

Oferto a você essa (nome da bebida).

Que você os abençoe.

 

Nota: a maioria das pessoas consegue conhecer sua linhagem familiar até os bisavós ou tataravós; algumas poucas podem recitar linhagens muito longas. É opcional continuar além daqui (mesmo porque o número de ancestrais vai crescendo exponencialmente a cada geração retrocedida), podendo partir direto para o Dis Pater, ou então continuar a recitando a sua linhagem familiar; se essa for a sua opção, o faça enquanto conhecer os seus ancestrais, mas não ultrapasse nove gerações; alguns podem, inclusive, continuar a benção pedindo na língua dos seus Ancestrais, se assim preferirem. Aos que optarem, é possível ir para o último trecho.

Faça uma libação, e então beba um gole da bebida; então deposite no altar os objetos que trazem a lembrança de sua origem étnica; não importa se esses objetos são de origem de culturas indo-europeias ou não, eles são seus ancestrais e devem ser honrados, sejam eles europeus, indígenas, africanos, orientais. Não são todos os que conhecem a toda a sua origem; mas as que são conhecidas devem ser homenageadas. E isso não desrespeito, uma vez que hoje você é da tribo do Dis Pater, e pede a benção e proteção Dele para toda a sua linhagem. Vire-se para a chama, faça um brinde e diga:

Senistere, teutâs tou immi!!

Adbertû tei sondos adberton,

Anegê ak molâ adkonsmiyâs mou.

Senistere, subuta  tei!!

(Ancestral, da sua tribo eu sou!!

Oferto a você essa oferenda,

Proteja e eleve minha origem.

Ancestral, louvado seja!!)

Faça a libação completa do restante da bebida; faça uma saudação aos Ancestrais e ao Senisteros na chama, agradecendo pela oportunidade. Ofereça incenso à chama, e deixe o ambiente até que a chama se apague.

 

REFERÊNCIAS:

GREEN, Miranda; The gods of the Celts; Sutton Publishing, 2004, Sparkford, UK

ELLIS, Peter Berresford; Dictionary of Celtic Mythology; Oxford University Press, 1994, Oxford, UK

MACKILLOP, James; Dictionary of Celtic Mythology; Oxford University Press, 1998, Oxford, UK

DIXON-KENNEDY, Mike; Encyclopedia of Greco-Roman Mythology; Library of Congress Cataloging-in-Publication Data, 1998, Santa Bárbara/USA

DALY, Kathleen N.; Greek and Roman Mythology: A to Z; Chelsea House, 2009, New York/USA

DE BARTHELEMY, Anatole; De le Divinite Gauloise Assimlee a Dis Pater: a l’epoque Gallo-Romaine; Revue Celtique Vol 1, 1870 – 1872