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  1. Boa tarde, Gaesum, seja bem-vindo à nossa seção “As Pedras do Círculo”, onde o nosso objetivo é conhecer um pouco mais daqueles que vem trabalhando pelo fortalecimento da nossa espiritualidade no Brasil e no mundo. Você poderia fazer uma breve apresentação para nossos leitores?

Antes de mais nada eu te agradeço, bratir Cunobelinos, pela honra de ser um daqueles que inauguram esta seção “As Pedras do Círculo”. Este tipo de iniciativa é fundamental se quisermos firmar a nossa fé em nosso país e seu trabalho é inquestionável neste sentido.

Eu me chamo José Paulo Almeida, sou o gutuater /|\Gaesum Bach da Clareira Druídica Coré-Tyba, casado, tenho um pequeno filho e sou analista de sistemas por profissão. Nasci em Santa Catarina, mas hoje resido em Curitiba com minha família.

  1. Quando foi a primeira vez que você teve contato com o Druidismo? Como tem sido sua jornada desde então?

Como a maioria dos druidistas do Brasil eu vim de berço católico; minha família sempre freqüentou a Igreja de forma bem ativa e isso criou os alicerces do meu contato com o Sagrado. Porém eu questionava vários posicionamentos e assim comecei minha busca que durou muitos anos, até encontrar no paganismo algo que falava ao meu coração. Continuei buscando e experimentando até que descobri que os míticos druidas, aqueles que eu só conhecia através dos RPGs e HQs, não só ainda existiam, mas também traziam uma linha de pensamento que pela primeira vez fazia total sentido para minha alma. Desde então tenho navegado pelos mares da Tradição na minha constante viagem em Immram.

  1. Você é membro de uma das escolas de pensamento mais tradicionais dentro do Druidismo em nosso país. Como foi trazê-la para o nosso país? Como ela tem se encaixado dentro da multiplicidade do Druidismo brasileiro?

Algum tempo depois de iniciar minhas práticas druídicas eu me dei conta de quem haviam colégios tradicionais que vinham fazendo isso há quase 300 anos e me perguntei: por que reinventar a roda se posso aprender com quem sabe? Partindo daí entrei em contato com alguns druidas na Europa e comecei a estudar e aprender com eles. Nossa linha também estuda os mitos e a história, mas nos concentramos principalmente na filosofia e na espiritualidade e buscamos manter uma sólida base teológica onde possamos viver nossa fé. Da mesma forma como tenho aprendido ao longo dos anos com várias escolas no Brasil, creio que nós possamos também agregar na multiplicidade do Druidismo brasileiro esta visão que convida ao debate filosófico.

  1. Você foi durante muito tempo parte do Caer Ynis, um dos agrupamentos druídicos mais antigos do país, localizado em Florianópolis – SC. Como foi esse período?

Posso dizer que tive muita sorte. No início de minha trilha druídica eu lia tudo que encontrava pela frente sobre os celtas e os druidas e com isso montei minhas práticas pessoais. Mas tive o privilégio de encontrar o /|\Inguz e começar a estudar com ele. Na minha experiência no Caer Ynis pude aprender a dar mais valor às experiências espirituais do que aos estudos acadêmicos e depois disso, a conciliar as duas coisas. Aprendi a abrir os olhos para a sacralidade da Natureza e a reconhecer os mistérios que ela traz. Foi um período que formou meus alicerces na Tradição.

  1. Posteriormente, você fundou a Clareira Druídica Coré-Tyba, que está sendo uma das grandes representações do Druidismo em Curitiba desde então. Como está sendo essa experiência?

Quando me mudei para Curitiba, continuei freqüentando as cerimônias do Caer Ynis, mas sentia que era a hora de começar a desenvolver um trabalho próprio, fervendo minhas raízes no mesmo caldeirão: assim misturei meus estudos históricos, minhas práticas espirituais desenvolvidas no Caer Ynis e os cadernos que recebia dos druidas europeus. Fui bem amparado por todo o apoio que recebi dos companheiros /|\Bankerda e /|\Aidugnatos, que compraram a idéia e toparam o desafio. E mesmo que no início fôssemos um círculo laico de credimaci (afinal, não tínhamos nenhum sacerdote formado ainda), continuamos seguindo com nosso ofício e amadurecendo dia após dia, até que começamos a dar frutos.

  1. Vocês, o Caer Ynis e a Tribo da Onça Parda fazem parte da Assembléia Druídica Brasiliana. Você pode nos falar um pouco dessa entidade e sobre quais são seus objetivos?

A Assembleia Druídica Brasiliana (ADB) é uma associação de clareiras, bosques, pomares e colégios druídicos regulares, comprometidos com a Tradição Druídica e que tem como objetivo facilitar o contato dos druidistas do Brasil com algumas das associações druídicas mais tradicionais da atualidade. Hoje somos filiados à Celtic Druid Alliance, uma organização internacional que reúne assembléias e colégios da Irlanda, Portugal, França, Espanha, Galícia, Itália, Áustria e é claro, Brasil. É um aprendizado de mão-dupla: ao mesmo tempo que aprendemos muito com os companheiros de países com uma forte herança céltica, descobrimos que nós brasilianos também temos muito a ensinar pois somos um país com forte herança espiritual. Nossa intenção é unir, mas não unificar e por isso as clareiras continuam soberanas em si e totalmente autônomas em relação à suas estruturas, liturgias e graduações; porém sempre contando com o apoio das clareiras-irmãs em tudo que precisarem.

  1. Você foi o grande idealizador da idéia do Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico. Para você, qual a importância do CBDRC para o crescimento da nossa espiritualidade no Brasil?

O “grande idealizador” é um tanto demais. Na verdade eu fui apenas mais um dos nomes envolvidos em criar uma articulação que reunisse as diversas entidades druídicas brasileiras sérias para promover o debate, a integração e o intercâmbio. O Conselho surge como uma necessidade que a comunidade sentia de algo que lhes representasse, para que pudéssemos assegurar um trabalho honesto de nossa fé no nosso país. E eu acredito que neste ponto o CBDRC tem tido muito sucesso, apesar de haver muito trabalho pela frente até atingirmos a maturidade que necessitamos. Eu dediquei muitos anos entre as gestões das duas primeiras diretorias e o período pré-fundação, quando tive a honra de dividir com Wallace ‘Cunobelinos’ William e Marcílio ‘Nemetios’ Diniz, o Triunvirato que levaria essa empreitada em frente; e olhando para trás, fico feliz com o resultado que obtivemos e com os frutos que já colhemos.

  1. Você também foi o idealizador do Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, evento que está indo para a sua nona edição. Como foi essa experiência? Qual a importância do evento para o Druidismo nacional?

Este foi um projeto que realmente deu muito certo e tenho muito orgulho de ter participado tão ativamente disso. Em 2009 eu estive em São Paulo e convidei algumas pessoas que até então eu só conhecia através de listas de e-mail sobre druidismo para nos encontrarmos em um pub para bebermos e conversarmos. Foi uma noite incrível, onde alguns nomes finalmente criaram rostos, mas algo me alarmou: mesmo em São Paulo onde haviam vários grupos druídicos, as pessoas não se conheciam e naquela noite a semente do EBDRC foi plantada. Conversei muito com a /|\Bankerda, minha esposa e parceira nestas empreitadas, que topou o desafio, e em 2010 organizamos a primeira edição do encontro. Foi algo bem pequeno e intimista: cerca de 20 pessoas, mas os moldes do evento foram se definindo lá. Aquilo tudo foi muito mágico, porque a troca de experiências foi grande e tenho certeza que cada um que lá esteve, levou algo novo para seus grupos. Alguns anos depois organizamos mais uma edição, desta vez em Curitiba e pudemos sentir como o EBDRC tinha se tornado grande, forte e vivo. E o aprendizado de criar algo e lhe dar asas para voar sozinho foi muito importante para mim, afinal a cada ano o encontro é realizado em uma cidade diferente e organizado por um grupo diferente, permitindo que cada vez mais pessoas tenham acesso à nossa fé e que o debate e a troca continue sempre ocorrendo. Mas a principal lição que pudemos tirar disso tudo é que as diferenças que nos separam são ínfimas perante as semelhanças que nos unem.

  1. Por último, o que você julga que o Druidismo (e suas crenças irmãs) ainda precisa desenvolver no Brasil? O que é necessário para ele se tornar uma espiritualidade estabelecida no nosso país?

Identidade. Precisamos saber quem somos. Precisamos saber o que esperarmos um dos outros. Precisamos que as outras pessoas saibam o que esperar da nossa comunidade. Precisamos conseguir definir Druidismo (e suas crenças irmãs) em poucas palavras. Precisamos saber que há uma miríade de possibilidades em todo o espectro das espiritualidades célticas, que todas são válidas, fortes, profundas, mas quem nem todas são Druidismo. Vivemos hoje o que a Wicca viveu na década passada: uma grande repulsa a qualquer dogma, o que implica que qualquer um pode se alegar druida e que todos devem aceitar isso. E isso é algo que não ocorre com as demais religiões e espiritualidades estabelecidas no nosso país. Devemos sim ter multiplicidade no cenário druídico, mas deve haver um ponto onde todas oposições se equilibram, como nos ensina a Tríade Teológica nº1. Enquanto não pudermos nos olharmos no espelho e reconhecermos lá a face do Druidismo, não seremos levados a sério por ninguém.