Resenha: Airechtas – III Conferência Druídica e Reconstrucionista Celta

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E o ano civil vai se aproximando do fim, e os eventos relevantes para o Druidismo no Brasil vão chegando ao fim. A mais antiga conferência regional do país, o Aírechtas, ocorreu já nesse momento de fechamento, no dia 18/10 de 2014. Organizada pelo Fine na Dairbre, de Curitiba, o evento foi para a sua terceira edição, a segunda a acontecer no belo Solar do Rosário, no centro da apaixonante capital paranaense. Essa foi, provavelmente, a melhor edição do Airechtas, e isso não quer dizer que as outras tenham sido ruins, muito pelo contrário, foram incríveis. Mas essa apostou na maior diversidade de estilos entre os palestrantes, o que ajudou o evento a se tornar mais completo. Ele é bem mais intimista do que a maioria das convenções, tornando as palestras praticamente bate-papos (ou aulas particulares), onde os conceitos apresentados podem ser conversados sem problema entre os palestrantes. A noite anterior, com uma cervejada entre os participantes, serviu como um gostoso quebra-gelo para o evento que viria.

O evento, ao estilo curitibano, começou com um atraso menor do que é normal nos eventos nacionais. E a primeira palestra já começou bem:  José Paulo Almeida, o grande Gaesum da Clareira Coré-Tyba e do Caer Ynis, figura essencial ao Druidismo brasileiro, desmistificando o Barddas e falando sobre as influências que o polêmico trabalho de Iolo Morgannwg sofreu antes de chegar à sua forma final. Palestra interessante, permitiu que fossem feitas diversas ligações entre as teorias citadas no Barddas e o conhecimento céltico mais tradicional; se não nos parece possível ‘reabilitar’ Iolo Morgannwg de todo, ao menos descobrimos que nem todas as suas visões eram apenas frutos de sua cabeça; de quebra, a apresentação de JP sobre os conceitos de Morte e Renascimento, e dos três Círculos, permitiu cogitar possíveis paralelos com a cultura céltica ou, no mínimo, entender que a doutrina do Bardismo galês é complexa, e bastante completa nos seus conceitos. Ana Elisa Bantel (Slakkos Abonos, de Florianópolis/SC) veio a seguir, falando sobre  Âmbito do Ctônico no Imaginário dos Povos Celtas: O Tempo, o Cosmos, e a Mitologia. Antes de mais nada, devo dizer que Ana é uma das palestrantes mais brilhantes que já vi; suas apresentações combinam erudição com clareza, e amarram conceitos com grande naturalidade. Essa não foi uma exceção, e o estudo mitológico que a palestrante fez gerou uma bela discussão sobre o nascimento na escuridão, e as visões entre mundo e o Outro Mundo na mitologia céltica, usando principalmente fontes galesas, algo que ainda não ocorre com frequência por aqui. A palestra seguinte certamente era a mais esperada por todos: por anos a comunidade druídica vem tentando ter Marcílio Diniz, o Nemetios (dos Brigaecoi, da Paraíba), em seus eventos, e nesse ano o tivemos em três (os outros dois foram o EBDRC e a Conferência Paulista de Druidismo e Reconstrucionismo Celta). Em todas Marcílio trouxe não apenas suas palestras brilhantes (e complexas), mas também questões a serem respondidas pelo público presente; dessa vez ele nos trouxe outra das suas ‘grandes questões’, falando (e discutindo) principalmente sobre a natureza dos Deuses e entidades espirituais. Marcílio combina erudição com inspiração e devoção de forma única, sendo um sacerdote-filósofo de posições firmes; e ele sempre nos traz algo importante para se pensar: precisamos ter uma teologia sólida, uma base filosófica sólida, um sistema de crenças sólido, pois só assim conseguiremos elevar a nossa espiritualidade a um novo nível. Como sempre, palavras são pouco para descrever, principalmente porque as perguntas feitas por Marcílio certamente ainda estão nas mentes do público presente, cada qual tentando responde-las à sua maneira.

Após um belo almoço em um local que já era um velho conhecido (e que tem uma feijoada mais do que digna), voltamos ao Solar do Rosário, para assistir a palestra de Marcos Reis (Caer Tabebuya, Clann am Samaúma, de São Paulo); em um estilo de palestra diferente do que estamos acostumados a ver o Marcos, ele nos presenteou com uma bela leitura sobre os ciclos do nascimento da vida e da morte, cada qual recebendo a sua parte correspondente na apresentação. Marcos vem de uma escola diferente dos outros palestrantes, sendo mais voltado á prática e ao xamanismo, mas se saiu muito, mas muito bem mesmo com sua palestra; é sempre um prazer. Então foi a vez de Erik Wroblewski  (Fine na Dairbre, Curitiba), em mais uma excelente palestra, bem ao seu estilo; Erik é historiador, sua especialidade é a sociedade irlandesa antiga, e qualquer palestra dele sempre carregará uma dose imensa de informação acadêmica, mas os temas que ele escolhe são tão bons que elas nunca ficam cansativas. E mesmo que suas palestras tenham um profundo teor acadêmico, elas não deixam de ser essenciais aos estudiosos da espiritualidade céltica, como o foi com a última, falando sobre o papel de Maeve como a Soberania. Depois foi a vez desse que vos fala, Wallace William de Sousa, do Ramo de Carvalho (São Paulo), com uma palestra sobre a ideia do Outro Mundo (Annwn) na mitologia Britônica; por ser a minha palestra, não me demorarei na descrição, mas digo que ela foi bem simples e fácil, mesmo porque alguns dos conceitos que estavam nela já haviam aparecido nas palestras de JP e Ana. O evento se aproximava do final, mas ainda tivemos a palestra da idealizadora do evento, Marina Holderbaum (Fine na Dairbre, Curitiba), sobre o conceito de adoção e tutela no mundo céltico, um assunto que vem surgindo com frequência em conversas do meio druídico; Marina, como esperado, domina perfeitamente o assunto, e nos levou a uma belíssima apresentação (e conversa) sobre os papeis do Altrú e dos Daltaí, culminando com um convite a pensar sobre como nos relacionamos com os Deuses, dentro de um pensamento familiar. O evento não poderia terminar de forma mais perfeita, pois como foi citado por Marcos em sua palestra, os Deuses são parte de nossa família, a origem dos Ancestrais, e aceitar a sua tutela é uma opção que cada um de nós tem que fazer.

Após o evento, parte dos palestrantes partiu para comer uma pizza na casa de Erik e Marina, batendo papo sobre diversos assuntos (principalmente política, uma vez que as eleições estavam próximas). Então partimos de volta para nossas casas, em São Paulo, na Paraíba, em Santa Catarina; acredito que todos com a sensação de dever cumprido, e satisfeitos com as palestras assistidas e o conhecimento partilhado. O Airechtas tem um tom próprio entre as conferências regionais, mas essa edição foi variada e agradável. Espero que continue assim, e que possamos voltar a nos ver no próximo ano. Até lá saudamos e agradecemos aos nossos amigos da linda cidade de Curitiba; nos vemos no próximo EBDRC, no mínimo!

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