V Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

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Magnânimo. Perfeito. Estupendo. Não é difícil encontrar palavras para definir o que foi o V Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta. Basta se ater aos mais altos elogios possíveis, pois o evento foi merecedor deles. Em todos os aspectos. Na nossa cultura há uma pressão para que cada passo seja sempre melhor que anterior; no caso desse evento, é algo difícil de ser mantido, uma vez que a organização muda a cada ano, bem como a região e a estrutura do evento. Bem, após essa quinta edição, podemos dizer que o Encontro atingiu um novo patamar de qualidade. E não são elogios vãos, mas totalmente verdadeiros. Infraestrutura, recepção, clima, palestras, atividades, tudo contribuiu para tornar essa edição do EBDRC, a primeira no nordeste do Brasil, inesquecível.

A começar pelo local, a Aldeia dos Camarás nos recebeu muito bem para o evento; lugar absolutamente confortável, com equipe eficiente, boa infraestrutura, refeições de qualidade e ótimos quartos. O clima era exatamente o esperado de Recife, um calor muito forte, passando dos 30°C logo nas primeiras horas da manhã, mas estava extremamente confortável, com um bom grau de umidade (coisa de quem renite…) e um céu maravilhoso sobre nós durante todo o evento, além de ser um lugar muito, muito bonito. A organização do evento ficou a cargo de Renata Gueiros e seu grupo, o Caer Y March, e eles não poderiam ter escolhido um lugar melhor; nota dez. A organização também merece essa nota, pela eficiência nos traslados, divisão das atividades e acomodações, e pelas atividades planejadas. Muito bom saber que há pessoas assim trabalhando pelo Druidismo em Recife.

O evento começou na sexta-feira (claro, muitas pessoas já estavam antes em Recife e haviam se encontrado para se divertir), e tão logo todos estavam acomodados, alimentados e relaxados o evento começou. O clima era propício, pois muitos ali já eram amigos de longa data, irmãos de fé (ainda que com visões diferentes sobre ela), mas muitos rostos novos também surgiam aqui e ali, curiosos e interessados sobre o que o evento traria. Duvido que algum deles tenha se sentido decepcionado em algum momento. A primeira palestra do dia veio com Belloṷesus Īsarnos (Rio Grande do Sul), falando sobre as fontes disponíveis sobre a religião dos celtas; e uma vez mais ele mostrou que todo o respeito de que desfruta é merecido. Articulando habilmente fontes arqueológicas com textos clássicos (incluindo fontes muito pouco lembradas pelos estudiosos atuais), além de falar sobre o processo de tradução de tais textos, ele nos deu um panorama de práticas e crenças existentes entre os Celtas, bem de como funcionava a campanha de difamação a seu respeito. Uma palestra tão boa que não coube no seu tempo, mas que seria continuada depois, e um palestrante do mais alto nível. Não é à toa que é tão respeitado e admirado, e isso ficou claro já na primeira palestra.

A atividade seguinte veio com Bandruir, da Escola Gergóvia, Rio de Janeiro, falando sobre a magia bárdica. A palestrante falou sobre as diversas formas de trabalhar a música nos rituais, algo que muitos grupos no Brasil fazem, mas a atividade mostrou isso de forma ampla, abordando diversas formas de fazer isso, desde o cântico coletivo, a dança circular, e a percussão como forma de alterar estados de consciência. Um excelente workshop e que deve ter deixado a todos com um pouco mais de vontade de incorporar a música ao seu trabalho sagrado. O terceiro palestrante foi este cão que vos late, Wallace Cunobelinos, do Ramo de Carvalho, São Paulo. Como sempre, prefiro não falar muito sobre a minha própria atividade, mas o tema foi a ligação entre a figura do Cavalo e as Deusas da Soberania; espero sinceramente que tenha sido agradável para todos.

Então fomos todos jantar e conversar, tornando o clima o mais agradável possível. A primeira regra do EBDRC é estar em paz com todos ali, e isso era mais que visível, com diversão e amizade brotando a todo lugar. Após isso, fomos para um dos momentos mais tradicionais do evento: a fogueira, onde sempre podemos discutir e nos divertir, além de partilhar a força dos Encontros anteriores ao juntarmos as cinzas recolhidas com a nova fogueira; essa é uma tradição que se firmou, e permanecerá para o futuro. Nesse ano preferimos realizar a nossa “mesa redonda” ao redor da fogueira, e ficamos muito felizes com a participação das pessoas novas no meio, não apenas dos veteranos; o Druidismo (e o RC) é feito pelos seus membros, e todos, novos ou antigos, devem se expressar. Como o tema foi sobre os caminhos de nossa fé para o futuro, muito foi discutido, mas primordialmente a oficialização do CBDRC, o fortalecimento dos encontros regionais, e a divulgação do nosso trabalho em outras esferas religiosas foram assuntos tidos como prioritários. Também divulgamos que o mandato da primeira gestão do CBDRC estava chegando ao fim, e as eleições se aproximavam, e escolhemos a cidade que hospedará o EBDRC em 2015, Curitiba (com organização a cargo da Clareira Druídica Coré-Tyba). E depois, como a tradição manda, veio a hora da diversão, da música, da dança, das piadas, do hidromel, das conversas sérias e não-tanto. Uma noite entre amigos, em paz e companheirismo. E as cinzas da fogueira foram recolhidas para que o evento do ano que vem conte com a força do deste ano, bem como de todos os anos anteriores.

A primeira atividade do dia seguinte veio com o Druida do Vento, do Mato Grosso do Sul, com um tema absolutamente relevante: a Sacralidade Local e os Ritos Sazonais. Uma palestra muito bem conduzida, com um clima de bate-papo, onde muitos puderam opinar sobre como associar seus ritos sazonais ao seu próprio bioma local, algo muito importante para os praticantes de Druidismo, pois se mesmo na Europa a espiritualidade se adaptava ao seu próprio ambiente, também devemos ter uma consciência sobre o nosso papel em nossa própria terra e nosso próprio clima; o palestrante está de absoluto parabéns pela coragem de trazer um dos temas mais importantes dentro de qualquer espiritualidade pagã, mas que se torna tabu por um excesso de purismo em alguns meios. O evento continuou com Endovelicon (Ramo de Carvalho) e Rowena (Caer Siddi), de São Paulo, em uma palestra conjunta utilizando conceitos do antigo poema gaélico O Caldeirão da Poesia, e que contou com uma vivência para aquecer os Três Caldeirões do Corpo a ponto de se atingir o Imbas, e podermos aplicar de forma eficaz as três vidências tradicionais da cultura gaélica. O trabalho, inovador, profundo, veio sendo desenvolvido há tempos por ambos, que resolveram unir suas práticas em uma versão mais completa para o evento. E gerou algumas das conversas mais profundas do evento; era comum você encontrar as duplas que realizaram a atividade juntas após ela, conversando sobre o que sentiram e viram. Mais uma atividade fantástica, levando o evento a novos patamares.

Após uma nova pausa para o almoço, voltamos com uma gostosa palestra musical com o Rafael Corr, do Caer Ynis e da Clareira Coré-Tyba (Florianópolis), que abordou a música irlandesa a partir de sua temática (normalmente trágica), chegando até movimentos recentes, como o New Age e o Pagan Folk modernos. Palestra divertida, informativa e, principalmente, muito agradável, uma vez que todos ali eram grandes apreciadores de música. Então chegou a vez da organizadora, Renata Gueiros, do Caer y March (Recife), falar um pouco sobre o papel das mulheres na sociedade celta. Assunto bastante explorado, parece inesgotável, pois sempre há mais uma abordagem a ser utilizado, e a Renata se saiu bem (apesar de um pouco nervosa). Após o coffee-break, tivemos a presença de Marcos Reis, do Caer Tabebuya, falando sobre a confecção de uma ferramenta muito comum no Druidismo moderno, o Ramo de Prata, algo retirado diretamente das lendas sobre as Imramma. Marcos tem uma boa didática para explicar as coisas, bem como um senso de humor único, o que torna seus workshops agradáveis e ricos, bem como sempre muito espiritualizados; ótima atividade, e todos saíram de lá com seu instrumento druídico.

O sábado estava quase se encerrando, mas  Belloṷesus Īsarnos ainda tinha o que mostrar. Em uma atividade sobre o Ogham (e principalmente a pronúncia de seus feda e outros termos relacionados) e sua utilização na criação de selos mágicos, chegamos a mais um momento inovador do Druidismo atual, merecedor de aplausos. Mas ainda havia algo para o sábado: a tradicional oficina de danças circulares de Mayra ní Bríghid, do Nemeton Samaúma (Belém/Rio Branco); essa atividade é tradicional por motivos simples: danças circulares fazem parte da tradição celta, bem como de vários outros povos do mundo, e elas trazem uma carga espiritual bem como um sentimento de coletividade únicos, além de serem muito divertidas. É muito fácil rolarmos de rir com as coisas que acontecem enquanto estamos aprendendo as danças (como vimos acontecer nesse ano), e sempre saímos melhores delas, ainda que mais cansados do que nunca; dessa vez as danças apresentadas vieram da Irlanda, Bretanha Francesa, e Brasil, todas muito enriquecedoras e bonitas (principalmente depois de aprendidas). Após isso, nos dedicamos a conversas, descansos, e alguns a praticar uma atividade espiritual ligada à medicina da floresta, já que estávamos todos alinhados. O Encontro estava chegando ao fim, mas ainda havia um dia para aproveitarmos.

O domingo começou cedo, com a segunda parte da palestra de Belloṷesus Īsarnos, sobre as práticas religiosas celtas; infelizmente, ainda não houve tempo para passar tudo, pois a quantidade de informação era enorme, mas só mostra a competência do palestrante. Após isso, foi a vez de Joab Nascimento, falando sobre a polêmica questão do sacrifício no paganismo atual, retirando muitos preconceitos que a nossa mentalidade moderna teima em colocar, e gerando um amplo debate sobre o aceitável ou não para os nossos dias. Palestra muito boa, e merecedora de elogios. Então veio um “momento surpresa”, que não era realmente uma surpresa, mas que todos esperavam com ansiedade: a presença de Marcílio Diniz, o Nemetios, dos Brigaecoi, junto à sua esposa, Suênia, o grande Thiago Gael (2° Secretário do CBDRC), e mais uma moça membro do Castro Druídico da Paraíba. Durante anos foi um desejo nosso a presença de Marcílio em um evento, e foi uma honra partilhar de sua palestra sobre a questão da escatologia no paganismo; em verdade, Marcílio mostrou devidamente que estamos em um momento de limiar, e que muito do que é preocupação do Druidismo e do Reconstrucionismo atuais são questões menores, sendo que há algo muito maior a ser buscado, algo muito acima das “ferramentas” que usamos; e essas questões só podem ser respondidas por nós. Uma das atribuições principais dos Druidas era a Filosofia; Marcílio mostrou que ela é mais necessária ainda hoje. Após tantos anos só tenho a dizer que valeu muito a pena ver essa palestra, do mais alto nível.

O Encontro se aproximava do fim, e como sempre havia aquela melancolia de estar acabando. O EBDRC é um evento especial, marcado pelo reencontro de amigos de várias regiões do Brasil e pelo espírito de comunidade, e nesse ano foi especialmente bom, com palestras de altíssimo nível e ótima organização. Boa parte do público ainda desfrutou de uma visita ao Castelo Brennand, ponto turístico local e conhecido pela enorme quantidade de material medieval; infelizmente eu não pude estar junto, mas vendo comentários e fotos, tenho a certeza de que foi maravilhoso. Infelizmente, o único defeito do Encontro foi que ele acabou. Todos os louvores ao Caer y March pela organização e recepção, vocês estão de parabéns. E nos vemos em Curitiba, no ano que vem!!

Pousada Aldeia dos Camarás Público concentrado nas palestras Área de estar Vista da floresta Pousada Aldeia dos Camarás Brindes 2 DSCN1087[1] Público Bellouesus Isarnos Bandruir DSCN1125[1] DSCN1129[1] Fogueira DSCN1151[1] DSCN1153[1] DSCN1154[1] DSCN1155[1] DSCN1172[1] DSCN1165[1] DSCN1158[1] DSCN1157[1] DSCN1156[1]

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2 Responses to "V Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta"

  1. Adilson Nazário Posted on 26 de abril de 2014 at 3:13

    Prezado Wallace,

    Parabéns pelo relato dos dias em que ocorreu o V EBDRC. Sua facilidade em descrever e sintetizar cada momento é fantástica. É como se tivéssemos assistindo um filme. Fico extremamente feliz em poder desfrutar da amizade e o carinho de todos os participante. Antigos, e os novos, que chegaram para somar. Gosto de aprender e, com certeza este foi um evento que nos mostrou a evolução e o propósito dos temas que dizem respeito ao reconstrucionismo Celta. Parabéns ao palestrantes, que souberam conduzir com maestria seus temas. Tenho absoluta certeza que nossos laços de amizade se fortalecerão a cada encontro realizado. Que venha o VI EBDCR em Curitiba.

    • Wallace Posted on 8 de maio de 2014 at 1:40

      Que venha o próximo, meu amigo Nazário!! Cada vez melhor, esperamos!!

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